  Cativado - Morgana
    Ttulo original: Captivated
   Nora Roberts


    Famlia Donovan - 01

      Seu interesse nela era quase exclusivamente profissional...

Apesar de no acreditar por um momento sequer que Morgana Donovan tivesse poderes mgicos, Nash Kirkland a procurara para ajud-lo a desenvolver seu novo roteiro.
Contudo,  medida que ela se revelava, Nash ficava cada vez mais encantado com sua exuberncia e mistrio. Ele sempre mantivera seus sentimentos sob controle, mas
como poderia ter certeza que sua irresistvel paixo por Morgana era real?
Afinal, se ela era uma bruxa, no poderia essa atrao avassaladora ser fruto de mais um feitio?



Digitalizao: Marelizpe
Formatao: Simone R.




      PRLOGO

      Ela nasceu na mesma noite em que a rvore da Bruxa caiu. Com o primeiro sopro de ar que aspirou, sentiu o gosto do poder, sua riqueza e o amargor Seu nascimento
foi mais um elo numa corrente que atravessava os sculos, uma corrente muitas vezes enfeitada com o brilho do folclore e das lendas. Mas quando este brilho falso
era extrado, a corrente mantinha-se firme, temperada com a fora da verdade.
      Havia outros mundos, outros lugares onde aquele primeiro choro do nascimento foi celebrado. Muito alm das vastas paisagens da costa de Monterey, onde o primeiro 
grito vigoroso da criana ecoou atravs da velha casa de pedras, a nova vida foi comemorada. Nos lugares secretos onde a magia ainda vicejava, nas remotas e verdejantes 
colinas da Irlanda, nas charnecas varridas pelo vento da Cornualha, nas profundezas das cavernas de Gales ao longo da costa rochosa da Bretanha, aquela doce cano 
da vida foi bem-vinda.
      E a velha rvore, curvada e retorcida pelo tempo e pelo seu matrimnio com o vento, foi um silencioso sacrifcio.
      Com sua morte, e com a dor voluntria da me, uma nova feiticeira nasceu.
      Embora a escolha tivesse de ser dela, um dom, afinal, pode ser recusado, cultivado ou ignorado, permaneceria em muito como parte da criana e da mulher que 
ela se tornaria, como a cor dos olhos. Por enquanto ela era apenas um beb, a viso ainda embaada, os pensamentos ainda informes, sacudindo os pequenos punhos nervosos 
no ar at mesmo  quando seu pai ria e pousava o primeiro beijo em sua cabea coberta pela leve penugem.
      Sua me chorou quando a pequena sugou-lhe o seio. Chorou de alegria e tristeza. J sabia que teria apenas aquela nica filha para celebrar o amor e a unio 
que compartilhava com seu marido.
      Ela havia olhado, e  havia visto.
      Enquanto ninava a criana e cantava uma antiga cano, aquela me compreendeu que haveria lies a serem ensinadas e erros a serem cometidos. E compreendeu 
que um dia, no to distante do agora, na imensa esfera das vidas, sua filha tambm iria procurar pelo amor.
      Ela esperava que dentre todos os dons que passaria adiante, dentre todas as verdades que lhe diria, sua filha compreendesse ao menos uma, a mais vital.
      A magia mais pura est no corao.
      
      CAPTULO 1
      
      Havia um marco no local onde a rvore da Bruxa estivera plantada, pois os habitantes de Monterey e Carmel valorizavam a natureza. Os turistas vinham com freqncia 
observar as palavras do marco, ou apenas para ficar ali e admirar as velhas rvores esculpidas, a praia rochosa e as focas estendidas ao sol no cais.
      Os moradores que tinham visto a rvore, que se lembravam do dia em que ela cara, quase sempre mencionavam o fato de que Morgana Donovan nascera naquela mesma 
noite.
      Alguns diziam que era um sinal, outros encolhiam os ombros e chamavam de coincidncia. A maioria simplesmente ficava em dvida. Mas ningum negava que o fato 
de haver uma bruxa assumida que nascera a poucos metros de distncia de uma rvore famosa, proporcionava um excelente "charme" ao local.
      Nash Kirkland considerava este fato divertido e um chamariz interessante. Ele passava uma grande parte de seu tempo estudando o sobrenatural. Vampiros, lobisomens 
e coisas que se moviam  noite eram uma forma muito boa de se ganhar a vida. E ele no teria feito qualquer outra coisa.
      No que acreditasse em duendes, em espritos malficos, ou em bruxas, se fosse o caso. Os homens no se transformavam em morcegos ou lobos sob a lua cheia, 
os mortos no andavam, e as mulheres no planavam em cabos de vassoura atravs da noite. Exceto nas pginas dos livros, ou na luz e sombra bruxuleante dos filmes.
      E ali, ele tinha prazer em dizer, tudo era possvel.
      Nash era um homem sensato que sabia o valor das iluses e a importncia do simples entretenimento. Era tambm sonhador o bastante para extrair imagens dos 
espectros do folclore e da superstio para a diverso das massas.
      Ele havia fascinado os entusiastas por filmes de terror durante sete anos, desde o seu primeiro, e surpreendentemente bem-sucedido, filme, "O Transformador". 
.
      A verdade era que Nash adorava ver sua imaginao ganhando vida nas telas. E no hesitava em entrar num cinema da vizinhana e devorar alegremente um saco 
de pipocas, enquanto a platia prendia o flego, emitia gritinhos de susto ou fechava os olhos.
      Deliciava-se em saber que as pessoas que se dispunham a pagar o preo do ingresso para ver um de seus filmes iriam receber cada centavo de volta sob a forma 
de calafrios.
      Ele sempre pesquisava cuidadosamente. Enquanto escrevia o horripilante e divertido "Sangue da Meia-Noite", passara uma semana na Romnia, entrevistando um 
homem que jurava ser descendente direto de Vlad, o Empalador.
      O Conde Drcula. Infelizmente, o descendente do conde no tinha presas pontiagudas nem se transformava em morcego, mas provara possuir uma enorme riqueza de 
conhecimentos e lendas sobre os vampiros.
      Eram lendas folclricas como essas que inspiravam Nash a tecer a trama de uma histria, principalmente quando eram relatadas por algum cujas crenas lhes 
conferiam vigor e veracidade.
      E as pessoas ainda o consideravam estranho, ele pensou sorrindo consigo mesmo, enquanto passava pela entrada da Rota de Dezessete Milhas. Nash sabia que era 
um tipo comum, com os ps bem plantados no cho, ao menos pelos padres da Califrnia. Simplesmente ganhava a vida com a iluso, brincando com os medos mais bsicos, 
as supersties e o prazer que as pessoas obtinham em serem amedrontadas por tolices. Imaginava que seu valor para a sociedade vinha de sua capacidade de tirar o 
monstro de debaixo da cama e deix-lo exposto na tela do cinema, em technicolor, geralmente acrescentando algumas pitadas de sexo sem culpa e humor irnico.
      Nash Kirkland conseguia dar vida ao bicho-papo, transformar o bondoso doutor Jekyll no cruel sr. Hyde, ou invocar a maldio da mmia. Bastava colocar palavras 
no papel.
      Talvez fosse por isso que ele era um ctico. Ah, sim, ele gostava de histrias sobrenaturais, mas, acima de qualquer pessoa, sabia que eram apenas isso. Histrias. 
E ele tinha milhes delas.
      Nash esperava que Morgana Donovan, a feiticeira preferida de Monterey, pudesse ajud-la a criar sua prxima histria. Durante as ltimas semanas, enquanto 
desempacotava e desfrutava de sua nova casa, testava suas habilidades no golfe, finalmente desistindo como uma causa perdida, ou simplesmente aproveitando a vista 
da varanda, Nash sentiu-se estimulado a contar uma histria de feitiaria. Se existia algo como destino, concluiu, este lhe fizera um favor ao arremess-lo at ali, 
a uma distncia to pequena e agradvel de uma especialista no assunto.
      Assoviando junto com a msica do rdio do carro imaginou como ela seria. Usaria um turbante e roupas enfeitadas? Envolta em vus negros? Ou talvez fosse uma 
destas fanticas na Nova Era, que falava apenas atravs de Gargin, seu canal de comunicao com Atlntida.
      Fosse como fosse, ele no se importaria nem um pouco.
      Eram os malucos do mundo que davam sabor  vida.
      Deliberadamente, Nash evitara fazer extensas pesquisas sobre a bruxa local. Queria formar suas prprias opinies e impresses, deixando a mente aberta para 
elaborar aspectos da trama. Tudo o que sabia era que ela nascera ali mesmo em Monterey, cerca de vinte e oito anos atrs, e possua uma bem-sucedida loja que abastecia 
os aficcionados de cristais e ervas.
      Nash tinha de congratul-la por permanecer na cidade natal. Aps menos de um ms como residente de Monterey, ele perguntava-se como conseguira viver em qualquer 
outro lugar. E Deus sabia, pensou enquanto seu rosto anguloso enrugava-se numa careta, ele j vivera em quase toda parte.
      Mais uma vez, teve de agradecer sua sorte por produzir roteiros que agradavam s massas. Sua imaginao tornara possvel que ele se mudasse do trfego e da 
neblina de Los Angeles para aquele local inigualvel ao norte da Califrnia.
      Era ainda o incio de maro, mas, Nash baixou a capota do seu Jaguar, deixando que a brisa fresca, quase gelada, fustigasse seus cabelos louros-escuros. Havia 
o cheiro do mar, de grama recm-cortada e das flores que vicejavam no clima ameno.
      O cu estava sem nuvens, de um azul lindo, seu carro ronronava como um grande e esguio felino, ele recentemente se desembaraara de um relacionamento agonizante 
e estava preste a comear um novo projeto. No que lhe dizia respeito, a vida era perfeita.
      Nash avistou a loja. Como lhe disseram, ficava bem numa esquina, ladeada por uma butique e um restaurante. Os negcios obviamente iam bem, pois ele teve de 
estacionar a mais de um quarteiro de distncia. Passou por um grupo de turistas que discutiam sobre onde iriam almoar, por uma mulher magra como um lpis, vestida 
em seda cor de fcsia e levando dois ces da raa Afgan, e por um executivo que caminhava a passos largos enquanto falava no celular.
      Ele adorava a Califrnia.
      Parou diante da loja. O nome, pintado na vitrine, era apenas Wicca. Ele assentiu, sorrindo consigo mesmo. Gostava disso. A palavra, em ingls arcaico, significava 
"bruxa", e evocava imagens de velhas vergadas, zanzando pelos vilarejos a fim de fazer feitiarias e remover verrugas.
      
      Cenrio externo, dia, ele pensou. H nuvens densas no cu e o vento sopra e uiva. Num pequeno vilarejo abandonado, com cercas quebradas e venezianas cerradas, 
uma velha toda enrugada corre por uma rua de terra, levando nos braos um cesto pesado e coberto. Um enorme corvo negro emite um grito enquanto aproxima-se voando. 
Com um bater de asas, para e pousa num porto enferrujado. O pssaro e a mulher entreolham-se. E, de algum lugar  distncia ouve-se um longo e desesperado grito.
      
      Nash perdeu a imagem quando algum saiu da loja, virou-se e trombou de frente com ele.
      - Desculpe-me. - A palavra foi dita num tom abafado.
      Ele limitou-se a assentir. Foi melhor assim, pensou. De nada adiantaria levar a histria muito adiante antes de falar com a especialista. Por enquanto o que 
ele queria era dar uma boa olhada em suas mercadorias.
      A vitrine era impressionante, reparou, e demonstrava um certo faro para efeitos dramticos. Um tecido de veludo azul-escuro dobrava-se sobre suportes de vrias 
alturas e profundidades, de forma a assemelhar-se com um largo rio com quedas escuras. Flutuando sobre o veludo havia agrupamentos de cristais, reluzindo como mgica 
sob o sol da manh. Alguns eram to claros como o vidro, enquanto outros tinham matizes quase dolorosos. Rosa, turquesa, prpura e negra. Seus formatos lembravam 
bastes, castelos, ou pequenas e surrealistas cidades.
      Pressionando os lbios, Nash deu um passo para trs.
      Podia ver como a vitrine atraa as pessoas. Que algum pudesse realmente acreditar que uma lasca de pedra contivesse algum tipo de poder era mais um motivo 
para maravilhar-se com o crebro humano. Ainda assim, sem dvida os cristais eram bem bonitos. Acima dos agrupamentos, gotas lapidadas pendiam de fios quase invisveis 
e lanavam as cores do arco-ris por toda parte.
      Talvez ela guardasse os caldeires nos fundos.
      Tal idia fez com que ele risse intimamente. Mas deu uma ltima espiada na vitrine antes de abrir a porta, tentado a escolher algumas peas para si mesmo. 
Um peso de papel, ou um prisma. Poderia contentar-se com isso, caso ela no tivesse  venda nenhuma escama de drago ou dentes de lobo.
      A loja estava lotada. Culpa sua, Nash repreendeu-se, por ter ido num sbado. No entanto, isso lhe daria tempo para olhar em volta e verificar como uma bruxa 
conduzia seus negcios no sculo vinte.
      Os mostrurios no interior da loja eram to teatrais quanto aqueles que reluziam na vitrine. Imensos pedaos de rochas, alguns cortados ao meio a fim de revelar 
centenas de dentes de cristais. Frascos pequenos e delicados, contendo lquidos coloridos. Nash ficou ligeiramente desapontado ao ler um dos rtulos e descobrir 
que se tratava de leo de banho de alecrim, para relaxar os sentidos. Esperava encontrar pelo menos uma poo do amor.
      Havia mais ervas, em pacotes especficos para pot-pourri, para chs e uso culinrio, bem como velas de cores suaves e cristais de todos os formatos e tamanhos. 
Algumas jias interessantes, novamente pendendo fortemente pelos cristais, reluziam por trs de vitrines. Obras de arte, pinturas, esculturas, todas as peas estavam 
dispostas de maneira to inteligente que um termo mais exato para a loja poderia ser galeria.
      Nash, sempre interessado no que era inslito, logo gostou de um abajur de estanho, confeccionado no formato de um drago alado com brilhantes olhos vermelhos.
      Ento, ele a viu. Com apenas um olhar, teve certeza de que aquela era a imagem exata de uma bruxa moderna. A loira de aparncia esquiva mantinha uma discusso 
com dois clientes sobre uma mesa de pedra. Tinha um corpo exuberante apertado num elegante macaco preto. Os brincos cintilantes pendiam das orelhas at os ombros, 
e anis adornavam cada um de seus dedos, que terminavam em longas e letais unhas vermelhas.
      - Bonito, no acha?
      - Humm? - A voz enrouquecida fez com que Nash desviasse a ateno do drago. Desta vez, apenas um olhar o fez esquecer da jovem e voluptuosa feiticeira no 
canto da loja. Durante vrios segundos ofegantes, viu-se perdido num par de olhos azul-cobalto. - Desculpe-me?
      - O drago. - Sorrindo, ela passou a mo pela cabea de estanho. - Eu estava justamente pensando se deveria lev-lo para casa. - Tornou a sorrir, e Nash viu 
que seus lbios eram cheios, macios e sem qualquer pintura. - Voc gosta de drages?
      - Sou louco por eles - Nash decidiu na hora. -- Voc sempre faz compras aqui?
      - Sim.
      Ela levou as mos aos cabelos. Eram negros como a meia-noite e caam em ondas descuidadas at sua cintura. Nash fez um esforo e tentou enquadr-la por inteiro. 
Os cabelos cor de bano combinavam com a pele clara e sedosa. Os olhos eram grandes, com clios espessos, o nariz pequeno e pontiagudo. Ela era quase to alta quanto 
ele, e muito esguia. O simples vestido azul que usava revelava bom gosto e estilo, bem como as curvas sutis.
      Havia algo... Fascinante nela, ele concluiu. Embora no conseguisse analisar exatamente o que seria, enquanto estava to ocupado desfrutando da viso.
      Enquanto ele a observava, os lbios dela curvaram-se novamente num sorriso. Havia um qu de sabedoria, e tambm de divertimento no movimento.
      - Voc j esteve na Wicca antes?
      - No. H coisas bem interessantes por aqui.
      - Est interessado em cristais?
      - Poderia estar. - Distrado, ele pegou um pedao de ametista. - Mas repeti no curso de geologia do colegial.
      - No creio que algum v lhe dar notas, aqui. - Ela fez um gesto na direo da pedra que ele segurava. - Se quiser entrar em contato com seu eu interior, 
deve segur-la na mo esquerda.
      -  mesmo? - Para content-la, Nash passou a pedra para a outra mo. Detestava ter de dizer que no sentia nada, exceto pela agulhada de prazer pela maneira 
como o vestido dela colava-se em torno dos joelhos. - Se voc vem sempre aqui, talvez possa me apresentar  feiticeira.
      Franzindo a testa, a moa seguiu o olhar dele, que se direcionava para a loira encerrando a venda.
      - Est precisando de uma feiticeira?
      - Acho que se pode dizer que sim.
      Ela voltou queles lindos olhos azuis novamente para ele.
      - Voc no me parece o tipo que viria em busca de um feitio amoroso.
      Ele sorriu.
      - Obrigado. Eu acho. Na verdade, estou fazendo uma pesquisa. Escrevo roteiros para o cinema e quero fazer uma histria sobre feitiaria nos anos noventa. Voc 
sabe... pactos secretos, sexo e sacrifcios.
      - Ah... - Quando ela inclinou a cabea, lmpidas gotas de cristal balanaram em suas orelhas. - Jovens nbeis danando a cu aberto. Nuas - ela acrescentou. 
- Misturando poes nas noites sem lua, a fim de seduzir suas infelizes vtimas para orgias de prazeres lascivos.
      - Mais ou menos. - Nash inclinou-se na direo dela, descobrindo que seu perfume era to fresco e secreto como uma floresta ao luar. - Esta Morgana realmente 
acredita que  uma bruxa?
      - Ela sabe que , senhor...
      - Kirkland. Nash Kirkland.
      O riso dela foi baixo e agradvel.
      -  claro! Eu gosto dos seus filmes. Gostei principalmente do "Sangue da Meia-Noite". Voc deu ao seu vampiro uma boa dose de sensualidade e esperteza, sem 
menosprezar a tradio.
      - H mais coisas num morto-vivo do que apenas caixes e tmulos.
      - Suponho que sim. E h mais coisas numa bruxa do que apenas mexer num caldeiro.
      - Exatamente.  por isso que quero entrevist-la. Imagino que seja uma mulher bastante esperta, para realizar tantas proezas.
      - Proezas - a desconhecida repetiu, abaixando-se para pegar uma enorme gata branca que deslizava por entre suas pernas.
      - Ela tem uma bela reputao - Nash explicou. - Ouvi falar sobre Morgana em Los Angeles. As pessoas sempre me levam histrias estranhas.
      - Estou certa que sim. - Ela afagou a cabea do gato.
      Agora, Nash tinha dois pares de olhos fixos nele. Um par de azul-cobalto, outro cor de mbar. - Mas voc no acredita no ofcio, nem nos poderes.
      - Acredito que posso transformar isso tudo numa tima histria. - Ele sorriu, com uma boa dose de charme. - Ento, o que acha? Pode dar uma palavrinha em meu 
favor  feiticeira?
      Ela observou-o, analisando. Um ctico, concluiu, e extremamente seguro de si. A vida, pensou, era obviamente um mar de rosas para Nash Kirkland. Talvez fosse 
a hora de ele sentir uns poucos espinhos. - No creio que isso seja necessrio. - Ofereceu-lhe a mo longa e fina, adornada com um nico anel de prata encravada.
      Ele tomou-a automaticamente, e assobiou baixinho quando um choque eltrico percorreu-o at o ombro. Ela limitou-se a sorrir.
      - Eu sou sua feiticeira - disse.
      
      Esttica, Nash disse a si mesmo um instante depois, quando Morgana virou-se para responder a pergunta de um cliente sobre algo chamado de "erva de So Joo". 
Ela estivera segurando aquela gata gigantesca, esfregando o plo...E fora isso que lhe provocara o choque.
      Mas flexionou os dedos, inconscientemente.
      Sua feiticeira, ela dissera. Nash no tinha certeza se gostava da maneira como ela usara aquele pronome em especial. Tornava as coisas um pouco ntimas demais 
para seu gosto. No que ela no fosse um espetculo. Mas o jeito que lhe sorrira, quando ele levara o choque, havia sido mais do que um tantinho perturbador. E tambm 
explicava porque ele a achara to encantadora.
      Poder. Ah, no aquele tipo de poder, Nash assegurou-se enquanto a observava juntar um punhado de ervas. Mas o poder que algumas mulheres belas pareciam ter 
desde o nascimento, a sexualidade inata e uma auto-segurana aterrorizante. Ele no gostava de pensar em si mesmo como o tipo de homem que se sentia intimidado pela 
fora de vontade de uma mulher, embora no pudesse negar que era bem mais fcil lidar com o tipo dcil e submisso.
      De qualquer forma, seu interesse nela era profissional. No puramente, emendou. Um homem teria de estar morto e enterrado para olhar para Morgana Donovan e 
manter os pensamentos num plano estritamente profissional. Mas Nash calculava que conseguiria manter suas prioridades em ordem.
      Ele esperou at que sua bruxinha acabasse de atender o cliente, fixou um sorriso autodepreciativo no rosto e aproximou-se do balco.
      - Estive pensando se voc teria um bom feitio para dissipar a pssima impresso que causei.
      - Ah, acho que voc consegue resolver isso sozinho. - Normalmente ela o teria dispensado, mas devia haver algum motivo que a impelira na direo dele, no lado 
oposto da loja. Morgana no acreditava em acidentes. De qualquer forma, decidiu, um homem com olhos castanhos to suaves no poderia ser um idiota completo. - Receio 
que tenha vindo numa hora errada, Nash. Estamos ocupadas demais esta manh.
      - Voc fecha a loja s seis. Que tal eu voltar a esta hora? Posso lhe oferecer um drinque, ou o jantar?
      O impulso de recusar foi automtico. Ela teria preferido meditar sobre isso, ou consultar sua bola de cristal. Antes que pudesse falar, a gata pulou no balco, 
saltando com as quatro patas naquele vo leve que os felinos realizam com tanta facilidade. Nash estendeu a mo e, distrado, afagou a cabea do animal. Em vez de 
afastar-se ofendida ou rosnar mal-humorada, como era seu hbito com estranhos, a gata arqueou-se sinuosamente sob a mo que a afagava. Seus olhos cor de mbar entrecerraram-se, 
fixando-se em Morgana.
      - Parece que voc tem a aprovao de Luna - Morgana murmurou. - s seis horas, ento - acrescentou quando a gata comeou a ronronar com vigor. - E vou decidir 
o que fazer com voc.
      - Muito justo. - Nash fez uma ltima e longa carcia na gata e saiu da loja.
      Franzindo a testa, Morgana abaixou-se at que seus olhos se nivelassem com os da gata.
      - E melhor voc saber o que est pretendendo.
      Luna limitou-se mudar de posio e comear a lamber-se.
      
      Morgana no teve muito tempo para pensar em Nash. Sendo uma mulher que estava sempre batalhando contra a prpria natureza impulsiva, teria preferido um momento 
de silncio a fim de refletir sobre qual seria a melhor maneira de lidar com ele. Porm, tendo as mos e a cabea ocupadas com a enchente de clientes que inundava 
a loja, lembrou-se de que no teria o menor problema em lidar com um escritor presunoso cujos olhos pareciam os de um cachorrinho perdido.
      - Puxa! -Mindy, a loira de corpo generoso que Nash havia admirado, sentou na banqueta atrs do balco. No temos uma multido como esta desde a poca do Natal.
      - Acho que ser assim todos os sbados, durante este ms inteiro.
      Sorrindo, Mindy tirou um tablete de goma de mascar do bolsinho de seu macaco justo.
      - Voc fez alguma feitiaria para ganhar dinheiro?
      Morgana ajeitou um castelo de vidro no mostrurio, antes de responder:
      - Os astros esto em excelente posio para os negcios. - Sorriu. - Alm do fato de que a nova vitrine est sensacional. Pode ir para casa, Mindy. Eu fecho 
as contas e tranco tudo.
      - Vou confiar em voc. - Mindy escorregou sinuosamente da banqueta, espreguiou-se; e depois arqueou as sobrancelhas escuras. - Ah, meu Deus... olhe s para 
isso! Alto, bronzeado e gostoso.
      Morgana ergueu os olhos e viu Nash atravs do vidro da vitrine. Ele tivera mais sorte em estacionar, dessa vez, e estava saindo do conversvel.
      - Calma, garota. - Rindo, Morgana balanou a cabea.
      - Homens como este destroem coraes sem derramar uma gota de sangue.
      - Por mim, tudo bem. H dias que ningum destri meu corao. Vejamos... - Mindy fez uma anlise rpida e acurada. - Um metro e oitenta, setenta e seis quilos 
maravilhosamente distribudos. Do tipo casual, talvez um tantinho intelectualizado. Gosta de ficar ao ar livre, mas no exagera.
      Apenas alguns fios esparsos de cabelos queimados pelo sol, e um bronzeado razovel. Bons ossos faciais, que agentaro bem a idade. E aquela boca saborosa...
      - Ainda bem que a conheo e sei que voc realmente considera os homens como algo mais do que filhotinhos numa vitrine de loja de animais.
      Com um risinho, Mindy afofou os cabelos.
      - Ah, sim, eu os considero mais do que isso. Muito mais.
      - Quando a porta se abriu, Mindy mudou de posio de forma que seu corpo parecia prestes a explodir para fora do macaco.
      - Ol, bonito. Quer comprar um pouco de magia?
      Sempre pronto a aceitar uma mulher bem-disposta, Nash enviou-lhe um largo sorriso.
      - O que voc recomenda?
      - Bem... - A palavra foi dita num ronronar de fazer inveja  Luna.
      - Mindy, o senhor Kirkland no  um cliente. - A voz de Morgana soou meiga e divertida. Havia poucas coisas mais engraadas do que assistir Mindy exibir-se 
para um homem atraente. - Ns temos um compromisso.
      - Outra hora, talvez - Nash falou.
      - Talvez qualquer hora. - Mindy deslizou em torno do balco, atirou um ltimo olhar devastador para Nash, depois saiu pela porta rebolando.
      - Aposto que ela estoura suas vendas - ele comentou.
      - Juntamente com a presso arterial de todos os homens que aparecem. Como est a sua?
      Ele sorriu.
      - Voc tem um balo de oxignio?
      - Sinto muito, foram todos vendidos. - Morgana deu uma palmadinha amigvel no brao dele. - Por que no senta um pouco? Ainda tenho de fazer algumas coisas 
e... Droga!
      - O que foi?
      - No coloquei a placa de "Fechado" na porta a tempo - ela resmungou. Depois, quando a porta se abriu, exibiu um sorriso radiante. - Ol, senhora Littleton.
      - Morgana. - O nome foi emitido num longo suspiro de alvio, enquanto uma senhora, que Nash calculou estar entre os sessenta e setenta anos, cruzou a loja.
       "Cruzar" parecia ser o verbo perfeito, ele pensou. A mulher fazia lembrar um navio de cruzeiro, rijo e inflexvel de popa  proa, com echarpes coloridas esvoaando 
em torno dela como se fossem bandeiras. Os cabelos eram brilhantes, de um improvvel tom de vermelho, e encrespavam-se alegremente em volta do rosto de lua cheia. 
Os olhos estavam pintados com uma sombra cor de esmeralda, e os lbios com um vermelho profundo. Ela estendeu as duas mos repletas de anis e agarrou as de Morgana.
      - Simplesmente no consegui chegar aqui nem um minuto antes. No fim das contas, tive de repreender o jovem policial que tentou me multar. Imagine, um rapaz 
que no deve ter idade nem mesmo para se barbear, querendo me dar lies sobre as leis! - Soprou o ar com irritao, exalando um hlito de menta. - Agora, espero 
que tenha uns minutinhos para mim.
      -  claro. - No havia como escapar, Morgana pensou. Gostava demais daquela velha maluca para inventar alguma desculpa.
      - Voc  um amor. Ela  um amor, no acha? - a senhora. Littleton indagou a Nash.
      - Pode apostar.
      
      A senhora. Littleton sorriu radiante, virando-se para ele com uma sinfonia de correntes e braceletes chocalhando-se.
      - Sagitrio, certo?
      - Ah... - Nash retificou o seu aniversrio sem hesitar, a fim de content-la. - Certo.  impressionante.
      Ela estufou o vasto peito.
      - De fato, eu me orgulho da minha capacidade de julgar o carter das pessoas. Mas no se preocupe, querido, no irei priv-lo de seu encontro por muito tempo.
      - No temos um encontro - Morgana falou. - O que posso fazer para ajud-la?
      - Um favorzinho de nada. - Os olhos da senhora. Littleton adquiriram um tal brilho que Morgana teve de sufocar um gemido. - Minha sobrinha-neta. H este problema 
da formatura, e este rapazinho adorvel que estuda geometria na mesma classe que ela.
      Desta vez ela seria firme, Morgana prometeu a si mesma.
      Uma rocha. Pegando o brao da senhora, afastou-a de Nash.
      - J lhe expliquei que no  assim que trabalho - disse.
      A senhora. Littleton bateu os clios falsos.
      - Eu sei que normalmente voc no faz isso. Mas esta  uma boa causa.
      - Todas elas so. - Estreitando os olhos para Nash, que se aproximara mais, Morgana foi empurrando a senhora Littleton atravs da loja. - Tenho certeza de 
que sua sobrinha  uma menina maravilhosa, mas arranjar um acompanhante para ela ir ao baile de formatura  uma frivolidade... e tais coisas tm repercusses. No 
- disse quando a senhora. Littleton comeou a protestar. - Se eu fizesse isso, mudando algo que no deveria ser mudado, poderia afetar toda a vida dela.
      -  apenas por uma noite.
      - Alterar o destino por uma noite pode alter-lo por sculos.
      O olhar deprimido da senhora. Littleton fez com que Morgana se sentisse como uma sovina recusando um pedao de po a um faminto.
      - Sei que a senhora quer que ela tenha uma noite especial, mas realmente no posso brincar com o destino.
      - Ela  to tmida, sabe? - a senhora. Littleton falou, com um suspiro. Mas seus ouvidos eram aguados o bastante para perceber o leve enfraquecimento na deciso 
de Morgana. - E ela no se acha nem um pouco bonita. Mas , muito bonita. - Antes que Morgana pudesse protestar, tirou uma fotografia da bolsa. - Est vendo?
      Ela no queria ver, Morgana pensou. Mas olhou para o instantneo, e a bela adolescente de olhos melanclicos fez o resto. Morgana praguejou internamente. Dentes 
de drago e fogo do inferno. Ela era uma boba sentimental, quando se tratava de namoros entre adolescentes.
      - No posso garantir nada... apenas sugerir.
      - Isso ser maravilhoso. - Aproveitando o momento, a senhora. Littleton pegou outra foto, que cortara do anurio do colegial, na biblioteca da escola. - Este 
 Matthew. Lindo nome, no acha? Matthew Brody e Jessie Littleton. Ela tem o meu nome. Voc vai comear logo, no ? O baile de formatura  no primeiro final de 
semana de maio.
      - O que tiver de ser, ser - Morgana falou, guardando as fotos no bolso.
      - Abenoada seja. - Radiante, a senhora. Littleton beijou Morgana no rosto. - No vou atras-los mais. Voltarei na segunda feira para fazer algumas compras.
      - Tenha um bom fim de semana. - Irritada consigo mesma, Morgana acompanhou a senhora at a porta.
      
      - Ela no deveria ter-lhe dado alguma "prata"? - Nash perguntou.
      Morgana inclinou a cabea para o lado. A raiva, que tinha sido direcionada unicamente para si mesma, explodiu em seus olhos.
      - Eu no obtenho lucros com meus poderes.
      Ele deu de ombros e encaminhou-se para ela.
      - Sinto muito lhe dizer, mas ela enrolou voc direitinho.
      Um leve rubor cobriu as faces de Morgana. Se havia algo que ela detestava mais do que ser fraca, era ser fraca em pblico.
      - Tenho plena conscincia disso.
      Levantando a mo, Nash esfregou a ponta do dedo no rosto dela, a fim de limpar a manchinha de batom vermelho que a senhora. Littleton deixara ali.
      - Sempre pensei que as feiticeiras fossem inflexveis;
      - Tenho uma fraqueza pelas pessoas excntricas e de bom corao. E voc no  do signo de Sagitrio.
      Ele retirou o dedo do rosto dela, com relutncia. A pele era to fresca e acetinada quanto o leite.
      - No? E qual  o meu signo?
      - Gmeos.
      Nash arqueou a sobrancelha e enfiou a mo no bolso.
      - Adivinhou - disse.
      O desconforto dele a fez sentir-se um pouco melhor.
      - Eu raramente adivinho. E, desde que voc foi gentil o bastante para no magoar a senhora. Littleton, no vou ficar zangada. Quer vir comigo para os fundos? 
Vou fazer um pouco de ch. - Morgana riu, ao ver a expresso dele. Est bem, vou servir um vinho, ento.
      - Melhorou.
      Nash seguiu-a pela porta atrs do balco at uma sala que servia de depsito, escritrio e cozinha. Apesar de ser uma rea pequena, no parecia entulhada demais. 
Havia prateleiras alinhadas em duas paredes, repletas de caixas, mercadorias desencaixotadas e livros. Sobre a escrivaninha de cerejeira estavam dispostos um abajur 
no formato de uma sereia, um telefone de aparncia eficiente e uma pilha de papeis, mantidos no lugar por um peso de papel de vidro que lanava reflexos coloridos.
      Atrs da escrivaninha havia uma geladeira minscula um fogozinho de duas bocas e uma mesa dobrvel com duas cadeiras. Na nica janela, vasinhos com ervas 
vicejavam, repletos de folhas. Ele sentia o cheiro de... no tinha certeza do que era... tomilho, talvez, e organo, mesclado com o aroma suave de lavanda. Fosse 
o que fosse, era muito agradvel.
      Morgana pegou duas taas de vinho num armrio sobre a pia.
      - Sente-se - disse. - No posso ficar conversando por muito tempo, mas  melhor que voc esteja confortvel. Tirou da geladeira uma garrafa longa, de gargalo 
fino e serviu. o lquido dourado nas taas. 
      - O vinho no tem rtulo?
      - E uma receita minha. - Com um sorriso, ela bebeu primeiro. - No se preocupe, no h nenhum olho de salamandra  na mistura.
      Nash teria rido da brincadeira, mas a maneira como ela o observava por cima da borda da taa o deixava nervoso. Ainda assim, detestava recusar um desafio. 
Bebeu um gole... O vinho era fresco, levemente adocicado, e suave como uma seda.
      - Muito bom.  - Obrigada. - Morgana sentou-se ao lado dele. - Ainda no decidi se irei ou no ajud-lo. Mas estou interessada no seu ofcio, principalmente 
se voc pretende incorporar o meu nele.
      - Voc gosta de cinema - ele disse, imaginando que isso lhe daria um bom comeo.
      Passou o brao pelas costas da cadeira, esfregando o p distraidamente em Luna, quando a gata enroscou-se em suas pernas.
      - Entre outras coisas. Gosto da variedade com que a imaginao humana se expressa.
      - Tudo bem...
      - Mas - ela acrescentou, interrompendo-o - no tenho certeza se quero ver minhas opinies e pensamentos indo para Hollywood.
      - Podemos conversar.
      Nash sorriu novamente e, mais uma vez, ela compreendeu que ele era um poder a ser considerado. Enquanto Morgana pensava nisso, Luna saltou sobre a mesa. Pela 
primeira vez, Nash reparou que a gata usava um cristal redondo e lapidado em torno do pescoo.
      - Escute, Morgana, no estou tentando provar ou negar nada, no estou tentando mudar o mundo. S quero escrever um filme.
      - Mas por que filmes de terror e ocultismo?
      - Por qu? - Ele encolheu os ombros. Sempre se sentia desconfortvel quando as pessoas lhe pediam para analisar o que fazia. - No sei. Talvez seja porque, 
quando as pessoas assistem um filme de terror, elas param de pensar sobre o dia chato que tiveram no escritrio logo depois do primeiro grito. - Os olhos dele iluminaram-se. 
- Ou, talvez, porque a primeira vez que passei da "fase inicial" com uma garota foi quando ela agarrou-se em mim durante uma sesso da meia-noite do filme "Halloween", 
de Carpenter.
      Morgana bebericou o vinho e ficou pensativa. Talvez, apenas talvez, houvesse uma alma sensvel sob aquele exterior presunoso. Certamente havia talento, e 
um charme inegvel. Sentia-se incomodada com a sensao de que... estava sendo compelida a concordar.
      Bem, ela poderia muito bem dizer no, se quisesse, mas primeiro queria saber mais sobre o assunto.
      - Por que no me fala sobre a histria que vai escrever?
      Nash enxergou uma abertura e aproveitou a oportunidade:
      - Ainda no tenho uma histria sobre a qual falar. E  a que voc entra. Eu gosto de ter uma boa base, e posso obter muitas informaes atravs de livros. 
- Espalmou as mos.- J tenho algumas, pois minhas pesquisas geralmente estendem-se alm do necessrio e levam-me a todas as reas do ocultismo. Mas o que quero 
 um ngulo mais pessoal. Voc sabe, o que a fez iniciar-se na feitiaria, se participa de cerimnias, que tipos de adornos prefere.
      Morgana deslizou o dedo pensativamente na borda do copo.
      - Receio que voc esteja comeando com a impresso errada. Da maneira como fala, parece que eu me associei a algum tipo de clube.
      - Uma conveno, um clube... Um grupo de pessoas com os mesmos interesses.
      - No perteno a nenhuma conveno. Prefiro trabalhar sozinha.
      Interessado, ele inclinou-se para frente.
      - Por qu?
      - Existem grupos bastante sinceros, e aqueles que no so. H outros, ainda, que mexem com coisas com as quais no se deve mexer.
      - Magia negra.
      - Chame como quiser.
      - E voc  uma feiticeira branca.
      - Voc gosta de rtulos. - Com um gesto impaciente, Morgana pegou novamente a taa de vinho. Ao contrrio de Nash, no se importava de discutir a essncia 
do seu ofcio, mas; uma vez que tivesse concordado, esperava ter suas opinies recebidas com respeito. - Todos ns nascemos com determinados poderes, Nash. O seu 
 contar histrias que distraem e divertem as pessoas. E atrair as mulheres. - Sorriu de leve, enquanto bebia o vinho. - Tenho certeza de que voc respeita e aplica 
seus poderes. Eu fao exatamente o mesmo.
      - E quais so os seus?
      Morgana demorou a responder, deixando a taa na mesa, erguendo os olhos para ele. O olhar que lhe enviou o fez sentir-se como um tolo por ter perguntado. O 
poder estava ali, o tipo de poder que faria um homem rastejar. Ele sentiu a boca to seca que o vinho que estava bebendo parecia ser areia.
      - O que est querendo, uma demonstrao? - Um leve tom de impacincia filtrou-se na voz dela.
      Nash conseguiu respirar fundo e despertar do que quase poderia ter considerado um transe... Se acreditasse em transes.
      - Eu adoraria uma demonstrao.
      Talvez isso fosse cutucar o diabo com vara curta, mas ele no resistiu. A cor que a irritao produzia nas faces de Morgana fazia com que sua pele reluzisse 
como um pssego recm-colhido.
      - O que voc tinha em mente?
      Ela sentiu uma rpida e inesperada pontada de desejo.
      A sensao foi nitidamente irritante.
      - Quer ver raios saindo da ponta dos meus dedos? Ser que devo fazer o vento soprar, ou a lua desaparecer?
      - Voc  a artista.
      Era muito atrevimento dele, ela pensou enquanto se levantava, sentindo os poderes fervilhando em seu sangue. Seria muito bem feito para ele se...
      - Morgana.
      Ela fez um giro, fuzilando de raiva. Com esforo, afastou os cabelos para trs e relaxou.
      -Ana.
      Nash no saberia dizer porque se sentia como se acabasse de escapar de uma calamidade de enormes propores. Mas sabia que, por um instante, todo seu ser estivera 
to envolvido em Morgana que ele no teria sentido nem um terremoto. Ela o puxara para dentro, e agora o deixara, um tanto zonzo, um tanto abobalhado, encarando 
a jovem loira e esguia parada na porta.
      Ela era linda e, embora um pouco mais baixa que Morgana, emitia um estranho tipo de fora apaziguadora. Seus olhos eram suaves, num tom cinza que induzia  
tranqilidade e estavam focalizados em Morgana. Nos braos trazia uma caixa cheia de vasinhos com ervas verdejantes.
      - Voc no colocou a placa de "Fechado" - Anastsia falou. - Por isso entrei pela frente.
      - Deixe-me ajud-la com isso. - Mensagens foram trocadas entre as duas mulheres. Nash no precisava ouvi-las para saber. - Ana, este  Nash Kirkland. Nash, 
minha prima Anastsia.
      - Desculpe pela interrupo. - A voz dela, baixa e quente, era to tranqilizante quanto os olhos.
      - Voc no interrompeu nada - disse Morgana, enquanto Nash levantava-se. - Ns j estvamos terminando. 
      - Apenas comeando - ele corrigiu. - Mas podemos continuar numa outra hora. Prazer em conhec-la - disse para Anastsia. Depois, sorriu para Morgana e prendeu-lhe 
os cabelos atrs da orelha. - At outra hora.
      - Nash. - Morgana deixou a caixa na mesa e pegou um dos vasos. - Um presente para voc - ofereceu, juntamente com seu sorriso mais cativante. - E uma muda 
de ervilhas de cheiro - explicou. - Simboliza a partida.
      Ele no resistiu. Inclinando-se sobre a caixa, tocou os lbios nos dela.
      - Ao diabo com isso - disse, e saiu calmamente.
      Embora a contragosto, Morgana deu uma risadinha.
      Anastsia acomodou-se numa cadeira com um suspiro de contentamento.
      - Quer me falar sobre isso?
      - No h nada para se falar. Ele  um charmoso e irritante escritor com idias preconcebidas sobre as feiticeiras.
      - Ah... Aquele Nash Kirkland. - Distrada Anastsia pegou a taa quase cheia de Morgana e bebeu um gole do vinho. - O mesmo que escreveu aquele filme sangrento 
para o qual voc e Sebastian me arrastaram.
      - Na verdade, o filme era bem inteligente e irnico.
      - Humm... - Anastsia bebeu mais um gole. - E sangrento.
      Mas, de qualquer forma, voc sempre gostou dessas coisas.
      - Assistir o mal  uma forma divertida de se reafirmar o bem. - Morgana franziu a testa. - Infelizmente, Nash Kirkland faz um trabalho bastante superior.
      - Pode ser. Eu prefiro assistir um filme dos irmos Marx.
      - Automaticamente, Anastsia foi examinar as plantas na janela de Morgana. - No pude evitar sentir uma certa tenso. Voc parecia prestes a transform-lo 
num sapo, quando entrei.
      A idia deu a Morgana um instante de genuno prazer.
      - Bem que fiquei tentada. Alguma coisa na presuno dele me deixa furiosa.
      - Voc se enfurece com muita facilidade. Disse que tentaria controlar-se um pouco mais, no , querida?
      Emburrada, Morgana pegou a taa de Nash.
      - Ele saiu daqui andando com as duas pernas, no foi?
      - Tomou um gole e, no mesmo instante, percebeu que fora um erro. Ele deixara muito de si no vinho.
      Um homem poderoso, ela pensou enquanto pousava a taa novamente na mesa. Apesar do sorriso fcil e da atitude descuidada, era um homem muito poderoso.
      Desejou ter se lembrado de encantar as flores que dera a ele, mas afastou a idia imediatamente. Talvez algo os estivesse compelindo um para o outro, mas ela 
saberia lidar com isso. E lidaria com Nash Kirkland, sem qualquer magia.
      
      CAPTULO 2
      
      Morgana adorava a paz das tardes de domingo. Era o seu dia de ser indulgente consigo mesma e, desde que nascera, Morgana apreciava as indulgncias. No que 
evitasse o trabalho. Havia dedicado muito tempo e esforo para fazer com que a loja deslanchasse e comeasse a dar lucros, sem usar suas habilidades especiais para 
aplainar o caminho. Ainda assim, acreditava firmemente que a melhor recompensa para qualquer esforo era o descanso.
      Ao contrrio de muitos comerciantes e donos de empresas, Morgana no se desesperava sobre os livros contbeis, estoques e despesas. Simplesmente fazia o que 
sentia que deveria ser feito, certificando-se de fazer muito bem. Ento, quando saa da loja, nem que fosse por uma hora, esquecia completamente os negcios.
      Ela ficava impressionada em saber que havia gente capaz de passar um dia lindo dentro de casa, roendo as unhas por causa da contabilidade. Contratava um contador 
para fazer isso.
      No havia contratado uma empregada domstica, mas apenas porque no gostava da idia de ter algum mexendo nos seus objetos pessoais. Ela, e somente ela, cuidava 
de tudo. Embora os jardins fossem extensos, e h muito tempo aceitara o fato de que jamais teria o mesmo jeito com plantas que sua prima Anastsia, ela prpria cultivava 
as mudas. Achava que o ciclo de plantar, molhar, tirar as pragas e colher, era recompensador.
      Ajoelhou-se, agora, sob os fortes raios do sol, diante do grande canteiro onde suas ervas e bulbos da primavera floresciam. Havia o perfume de alecrim, dos 
jacintos, a delicadeza dos jasmins, a riqueza do anis. A msica flutuava atravs das janelas, as flautas de uma melodia irlandesa tradicional colidindo alegremente 
com o ir e vir das ondas que batiam nas rochas, poucas centenas de metros atrs dela.
      Era um daqueles dias perfeitos e preciosos, com o cu estendendo-se l em cima como se fosse um vidro azul cristalino, e o vento, leve e brincalho, carregando 
os perfumes do mar e das flores do campo. Alm dos muros baixos e das rvores protetoras na frente de sua propriedade, Morgana ouvia um ou outro carro passando, 
de turistas ou nativos que desfrutavam do cenrio.
      Luna estava estendida ali perto, sob um raio de sol, com os olhos entreabertos, quase cerrados, a cauda balanando sempre que avistava um passarinho. Se Morgana 
no estivesse ali, ela bem que poderia ter tentado apanhar um deles, pois, apesar do tamanho, era gil como um raio. Mas sua patroa tinha opinio bem firme quanto 
a tais hbitos.
      Quando o cachorro aproximou-se devagar, recostando a cabea no colo de Morgana, Luna emitiu um resmungo de averso e voltou a dormir. Os ces no tinham o 
menor orgulho.
      Feliz da vida, Morgana apoiou-se nos tornozelos e afagou o plo do cachorro, enquanto examinava o canteiro. Talvez devesse desbastar algumas folhas, seu estoque 
de blsamo de anglica e p de hissopo estava quase no fim. Naquela noite, decidiu. Se a lua aparecesse. Era melhor fazer essas coisas sob a luz da lua.
      Por enquanto iria aproveitar o sol, erguendo o rosto para ele, deixando que seu calor e energia penetrassem em sua pele. Jamais conseguira ficar ali sem sentir 
a beleza do lugar, do local onde havia nascido. Embora tivesse viajado para muitos outros pases, visto muitos lugares mgicos, o seu lugar era ali.  Pois seria 
ali, conforme aprendera muito tempo atrs, que ela encontraria o amor, compartilharia o amor, e criaria seus filhos. Com um suspiro, Morgana fechou os olhos. Esses 
dias poderiam esperar, pensou. Estava satisfeita com sua vida exatamente como era agora. E quando chegasse a hora de mudar, pretendia manter-se totalmente no comando.
      Quando o cachorro levantou-se com um rosnado, Morgana nem se deu ao trabalho de olhar em volta. Sabia que ele viria. No precisava dos cristais, nem do espelho 
escuro para lhe dizer. Nem mesmo diria que se tratava de clarividncia, esse territrio pertencia mais ao seu primo Sebastian. Precisava apenas ser mulher, para 
saber.
      Sentou-se, sorrindo, enquanto o cachorro emitia uma srie de latidos pouco amigveis. Queria s ver como Nash Kirkland se sairia desta.
      Como um homem deveria reagir quando a mulher a quem fora visitar estava sendo guardada por um... tinha certeza de que no podia ser realmente um lobo, mas 
sem dvida parecia um lobo. E estava duplamente certo de que, caso Morgana desse a ordem, a fera esguia e prateada saltaria direto em seu pescoo.
      Nash limpou a garganta, e depois deu um pulo de susto ao sentir alguma coisa roando-lhe a perna. Olhou para baixo e reparou que Luna, pelo menos, decidira 
mostrar-se amigvel - Belo cachorro voc tem aqui - ele disse, cauteloso.
      - Um belo e... grande cachorro.
      Morgana dignou-se a olhar por cima do ombro. - Saiu para um passeio de domingo?
      - Mais ou menos.
      O cachorro passara a emitir novamente aqueles rosnados baixos e ameaadores. Nash sentiu um fio de suor escorrendo nas costas enquanto a massa de msculos 
e dentes aproximava-se para cheirar-lhe os sapatos.
      - Eu... ahn... - O co olhou para cima e Nash foi atingido pelo brilho dos profundos olhos azuis contra o plo prateado.
      - Meu Deus, mas voc  mesmo bonito, no ? - Estendeu a mo, esperando sinceramente que o animal lhe permitisse continuar com ela. Depois de completamente 
cheirada, a mo foi recompensada com uma lambida.
      Pressionando os lbios, Morgana ficou observando a cena.
      Pan jamais sequer beliscara o tornozelo de ningum, mas tampouco era dado a fazer amizade to rapidamente.
      - Voc tem jeito com animais.
      Nash j se ajoelhara a fim de coar as costas do animal.
      Durante toda sua infncia havia desejado um cachorro, e ficou surpreso ao perceber que seu desejo de infncia no desaparecera.
      - Eles sabem que, no fundo, eu sou uma criana. Qual  a raa dele?
      - Pan? - O sorriso dela foi lento e secreto. - Digamos apenas que ele  um Donovan. O que posso fazer por voc, Nash?
      Ele ergueu os olhos. Morgana estava ao sol, os cabelos presos sob um chapu de palha de aba larga. A cala jeans era justa ao extremo, e a camiseta larga demais. 
Como no colocara as luvas de jardinagem, as mos estavam sujas da terra escura e mida. Os ps estavam descalos. Nunca ocorrera a ele que ps descalos podiam 
ser to sensuais.
      At agora.
      - Alm disso - ela falou, com tal divertimento na voz que ele teve de sorrir.
      - Desculpe-me. Eu estava divagando.
      Mas Morgana no se sentiu ofendida por ter sido considerada desejvel.
      - Por que no comea me contando como foi que me encontrou?
      - Ora, meu bem, voc sabe que  famosa. - Nash levantou-se e foi sentar ao lado dela na grama. - Fui jantar no restaurante ao lado de sua loja, e comecei a 
conversar com a garonete.
      - Aposto que sim.
      Ele estendeu a mo, brincando com o amuleto que ela usava no pescoo. Uma pea interessante, pensou, no formato de meia-lua, com inscries em... grego? rabe? 
Ele no era nenhum erudito, para saber.
      - De qualquer forma, ela revelou-se uma verdadeira fonte de informaes. Fascinada e assombrada. Voc provoca este efeito em muitas pessoas? .
      - Multides. - E aprendera a gostar disso. - Ela lhe disse que eu passeio sobre a baa, montada num cabo de vassoura, todas as noites de lua cheia?
      - Foi quase isso. - Nash soltou o amuleto. - Acho muito interessante a maneira como pessoas normalmente inteligentes e sensatas permitem-se ser enganadas pelo 
sobrenatural.
      - No  assim que voc ganha a vida?
      - Exatamente. E, por falar nisso, estive pensando que voc e eu comeamos do jeito errado. Que tal partirmos do zero?
      Era difcil ficar zangada com um homem atraente num dia to bonito. .
      - Sim, que tal?
      Nash pensou que seria mais seguro levar a conversa para onde queria se tentasse uma abordagem indireta.
      - Voc conhece bem flores e coisas assim?
      - Um pouco. - Morgana virou-se para acabar de plantar uma muda de erva-cidreira.
      - Talvez possa me ensinar sobre as plantas do meu jardim, e o, que devo fazer com elas.
      - Contrate um jardineiro - ela disse. Depois, abrandou-se e sorriu. - Pode ser que eu encontre um tempinho para dar uma olhada.
      - Eu agradeceria muito. - Nash limpou uma mancha de terra no queixo dela. - Voc realmente poderia me ajudar com o roteiro, Morgana. No h problema algum 
em tirar as informaes dos livros, qualquer um pode fazer isso.
      O que estou procurando  uma viso diferente, algo mais pessoal. E eu...
      - O que foi?
      - Voc tem estrelas nos olhos - ele murmurou. - Estrelinhas douradas... como raios de sol num mar  meia-noite. S que no se pode ter um sol  meia-noite.
      - Voc pode ter qualquer coisa, se souber como conseguir.
      - Aqueles olhos magnficos fixaram-se nos dele. Nash no os teria afastado nem se fosse para salvar a prpria alma.
      - Diga-me o que voc quer, Nash.
      - Quero dar s pessoas duas horas de diverso. Saber que elas sero capazes de esquecer os problemas, a realidade; tudo, quando entrarem no meu mundo. Uma 
boa histria  como uma porta, e voc pode passar por ela quantas vezes quiser.
      Mesmo depois de ler, ver ou ouvir a histria, sempre se pode voltar para ela. Uma vez que  sua sempre ser sua.
      Ele calou-se, surpreso e embaraado. Filosofar daquela maneira no combinava com sua imagem despreocupada. Muitos entrevistadores haviam passado horas tentando 
arrancar dele uma afirmao to simples e verdadeira como aquela, sem nunca conseguir. E tudo o que ela fizera fora perguntar. - E,  claro, quero ganhar rios de 
dinheiro - ele acrescentou, tentando sorrir. Sentia a cabea leve, a pele quente demais.
      - No vejo por que um desejo tenha que excluir o outro. Tm havido contadores de histrias na minha famlia desde muito tempo atrs, at chegar em minha me. 
Ns compreendemos o valor das histrias.
      Talvez fosse por isso que ela no o descartara logo a princpio. Ela respeitava o que ele fazia. Isso tambm estava em seu sangue.
      - Veja bem. - Morgana inclinou-se para frente, e Nash sentiu um baque no estmago, algo que ia alm da beleza dela. - Se eu concordar em ajud-lo, recuso-me 
a permitir que voc insista no menor denominador comum.
      Isto , na imagem da velha encarquilhada cacarejando enquanto mistura ervas num caldeiro.
      Ele sorriu.
      - Ento me convena do contrrio.
      - Cuidado com os desafios, Nash - ela murmurou, levantando-se. - Vamos para dentro. Estou com sede.
      Desde que j no estava mais preocupado em ser engolido pelo co de guarda, que agora caminhava pacificamente ao seu lado, Nash demorou-se um pouco para admirar 
a casa.
      Sabia que as residncias ao longo da Pennsula de Monterey eram belssimas e exclusivas, pois ele prprio comprara uma. Mas a de Morgana continha ainda o encanto 
extra da idade e da graciosidade.
      Era uma casa de trs andares, revestida de pedras, com torres e balces, bem ao gosto de uma feiticeira, ele pensou.
      Porm, no tinha uma aparncia gtica nem sombria. Janelas altas e graciosas refletiam a luz do sol, e trepadeiras floridas agarravam-se s paredes, entrelaando-se 
e enroscando-se nas grades de ferro rendilhadas. Havia fadas aladas e sereias gravadas nas pedras, acrescentando-lhe um charme especial, e adorveis figuras trajadas 
com mantos serviam de calha para a gua da chuva.
      Cenrio interior, noite, ele pensou. Dentro da torre mais alta da velha casa de pedras  beira-mar, a linda e jovem feiticeira est sentada no centro de um 
crculo de velas. O salo est imerso em sombras, com a luz das velas tremulando sobre as faces das esttuas, nas hastes das taas de prata, na transparente esfera 
de cristal. Ela usa uma fina tnica branca, aberta at a cintura. Um pesado amuleto entalhado pende entre o vale de seus seios. Um profundo zunido parece sair das 
prprias pedras, quando ela levanta duas fotografias no ar.
      As velas bruxuleiam. O vento ergue-se dentro do salo fechado, esvoaando-lhe os cabelos e agitando a tnica. Ela inicia um cntico. Palavras arcaicas, numa 
voz baixa, latente. Ela encosta as fotos na chama da vela... No, apague isso. Ela... sim, ela borrifa as fotos com o lquido fosforescente de uma vasilha azul e 
rachada, provocando um silvo de vapor. O zunido cresce, transformando-se numa batida lenta, sinuosa. Seu corpo balana sob o compasso deste ritmo, enquanto ela posiciona 
as fotos frente a frente, deixando-as sobre uma bandeja de prata. Um sorriso secreto cruza seu rosto quando as fotografias fundem-se numa s.
      Desaparece a imagem.
      Ele gostava disso, embora achasse que poderia acrescentar um pouco mais de exotismo quando ela fizesse o sortilgio de amor.
      Satisfeita com o silncio dele, Morgana guiou-o at a lateral da casa, onde o barulho do mar contra as rochas ressoava e o bosque de ciprestes, com suas rvores 
inclinadas e retorci das pelo tempo e o vento, mantinham-se como sentinelas. Atravessaram um ptio revestido de pedras; no formato de um pentagrama, em cuja ponta 
extrema havia uma esttua de bronze representando uma mulher. A gua borbulhava num pequeno tanque aos seus ps.
      - Quem  ela? - Nash perguntou.
      - Ela tem muitos nomes.
      Aproximando-se da esttua, Morgana pegou uma concha, mergulhou-a na gua limpa e bebeu, depois despejou o restante no cho, para a deusa. Sem uma palavra, 
cruzou novamente o ptio e entrou na cozinha ensolarada e impecvel.
      -- Voc acredita num criador?
      A pergunta surpreendeu-o.
      - Sim, claro. Acho que sim. - Ficou parado um tanto desconfortvel, enquanto ela atravessava a cozinha de lajotas brancas para lavar as mos na pia. - Este... 
este seu ofcio de feiticeira...  algo religioso?
      Ela sorriu e pegou uma jarra de limonada.
      - A vida  algo religioso. No se preocupe, Nash... No vou tentar convert-lo. - Encheu dois copos com gelo. Isso no deveria incomod-lo. Suas histrias 
tratam invariavelmente, do bem e do mal. As pessoas esto sempre fazendo escolhas, seja por um ou por outro.
      - E quanto a voc?
      Ela ofereceu-lhe o copo, depois se virou e encaminhou-se para uma porta em arco, para fora da cozinha.
      - Pode-se dizer que estou sempre tentando conter os meus impulsos menos encantadores. - Lanou-lhe um olhar. - Nem sempre d certo.
      Enquanto falava, Morgana levou-o por um largo corredor.
      As paredes eram decoradas com tapearias antigas e quase apagadas representando cenas do folclore e mitologia, castiais ornamentados e pratos de prata e cobre 
gravados.
      Ela optou pela sala que sua av costumava chamar de "saleta de estar". As paredes eram pintadas num tom de rosa acolhedor, que se repetia no padro do tapete 
Bokhara que cobria o piso de largas tbuas de nogueira. Uma linda estante de madeira entalhada contornava a lareira, cujo estoque de lenha parecia pronto para ser 
transformado em chamas caso a noite esfriasse ou se Morgana estivesse disposta a acend-las. Mas, agora, uma leve brisa brincava atravs das janelas abertas, enfunando 
as finas cortinas e trazendo consigo os perfumes do jardim.
      Como na loja de Morgana, havia ali muitos cristais, encravados em pedras ou em forma de bastes, espalhados por toda a sala juntamente com uma coleo parcial 
de suas esculturas. Feiticeiros de estanho, fadas de bronze e drages de porcelana.
      - Que beleza. - Nash deslizou a mo pelas cordas de uma harpa dourada. O som resultante foi suave e doce. Voc toca? .
      - Quando estou com vontade.
      Morgana divertia-se em v-lo mover-se pela sala brincando com um objeto, examinando outro. Ela gostava da curiosidade sincera. Ele pegou uma taa de prata 
com inscries gravadas e cheirou-a.
      - Tem cheiro de...
      - Do fogo do inferno? - Morgana sugeriu.
      Nash deixou a taa onde estava, preferindo um fino basto de ametista encravado de pedras e entrelaado por um cordo de prata.
      -  a varinha mgica?
      -  claro. Tenha cuidado com o que vai desejar - ela disse, tirando o objeto delicadamente da mo dele.
      Ele encolheu os ombros e virou-se, sem ver a maneira como a varinha reluziu antes que Morgana a deixasse de lado.
      - Tambm coleciono coisas deste tipo. Voc gostaria de ver. - Nash inclinou-se sobre uma bola de vidro e viu o prprio reflexo. - Comprei uma mscara de xam 
num leilo no ms passado, e um... como  vocs falam? Ah sim um espelho mgico. Parece que temos algo em comum - O gosto pelas artes. - Ela sentou no brao do sof.
      - E pela literatura. - Nash examinava os livros na estante. - Lovecraft, Bradbury. Eu tenho esta edio do The Golden Dawn. Stephen King, Hunter Brown McCaffrey. 
Ei, isto aqui... - Puxou um dos volumes e abriu-o com reverncia. - E uma primeira edio do "Drcula" de Bram Stroker! - Olhou para ela. - Voc aceitaria meu brao 
direito em troca dele?
      - Sinto muito, vou ter de recusar.
      - Sempre esperei que ele aprovasse o meu "Sangue da Meia-Noite". - Quando retornou o livro no lugar, outro chamou sua ateno. - "Quatro Bolas de Ouro". "O 
Reino Encantado". - Nash passou o dedo sobre a estreita borda dos livros. - "Cano do Vento". Voc tem a coleo inteira dela. - A inveja fervilhava em seu sangue. 
- E todos na primeira edio!
      - Voc gosta das obras de Bryna?
      - Est brincando? - Era como se estivesse reencontrando um velho amigo. Nash tinha de tocar nos livros, olh-los e at mesmo cheir-los. - Li tudo o que ela 
escreveu, umas dez vezes. E quem pensa que ela escreve apenas para crianas s pode ser maluco.  como poesia, magia e tica reunidas numa nica obra. E,  claro, 
as ilustraes so magnficas. Eu seria capaz de qualquer coisa para obter um dos desenhos originais, mas ela recusa-se a vender.
      Interessada, Morgana inclinou a cabea.
      - Voc j perguntou?
      - Enviei alguns pedidos atravs do agente dela. Sem chance. Ela mora numa espcie de castelo na Irlanda e, provavelmente, usa os desenhos como papel de parede. 
Eu gostaria... -Virou-se ao ouvir o riso baixo de Morgana.
      - Na verdade, ela guarda os desenhos em lbuns enormes,  espera dos netos que deseja ter.
      - Donovan. - Nash enfiou as mos nos bolsos. - Bryna Donovan. Ela  sua me.
      - Sim, e ficaria muito feliz em saber que voc gosta de seus livros. - Morgana ergueu. o copo. - De um escritor para outro. Meus pais viveram nesta casa durante 
muitos anos. Alis, ela escreveu seu primeiro livro que foi publicado quando estava grvida de mim. Ela sempre diz que eu insistia para que ela escrevesse a histria.
      - Sua me acredita que voc seja uma feiticeira?
      - E melhor voc mesmo perguntar isto a ela, se tiver oportunidade.
      - Voc est sendo evasiva de novo. - Nash acomodou-se confortavelmente no sof ao lado dela. Era impossvel no se sentir confortvel com uma mulher que se 
cercava de objetos ele prprio amava. - Vamos colocar desta forma: sua famlia tem algum problema em aceitar as coisas pelas quais voc se interessa?
      Morgana gostou do jeito que ele relaxou, com, as longas pernas estendidas, o corpo  vontade, como se h anos estivesse fazendo companhia a ela naquele sof.
      - Minha famlia sempre compreendeu a necessidade que cada um tem de focalizar suas energias numa direo individual. Seus pais tm algum problema com os seus 
interesses?
      - Nunca os conheci. Os meus pais.
      - Lamento muito.
      O brilho zombeteiro nos olhos dela transformou-se imediatamente em simpatia. Sua famlia sempre fora seu eixo, e no poderia imaginar como seria a vida sem 
ela.
      - No foi grande coisa. - Mas ele levantou-se, constrangido pela maneira como Morgana pousara a mo em seu ombro, num gesto de conforto. J estava bem distante 
dos velhos maus tempos para precisar de qualquer tipo de simpatia. - Estou interessado nas reaes da sua famlia. Isto , como a maior parte dos pais se sentiria, 
como eles reagiriam se soubessem que a filha andava aprontando feitiarias? Voc decidiu dedicar-se a isso desde criana?
      A simpatia desapareceu como uma nuvem de fumaa.
      - Dedicar-me? - ela repetiu, os olhos fuzilando.
      - Talvez eu precise fazer um prlogo, voc sabe, mostrando como a personagem principal ficou envolvida.
      Nash estava prestando menos ateno a ela do que  sala, a atmosfera que continha. Comeou a andar de um lado para outro, enquanto formulava seus pensamentos. 
Sem nervosismo, nem mesmo agitao, mas de uma forma que deixava bvio que tentava guardar na memria tudo o que via.
      - Talvez ela fique irritada com o garotinho do vizinho e o transforme num sapo - Nash prosseguiu, inconsciente do fato de que as feies de Morgana ficavam 
tensas. Ou encontra alguma mulher misteriosa que lhe passa o poder. Acho que gosto mais disso. - Enquanto perambulava, brincava com as idias, frgeis fios que poderiam 
ser tecidos, formando toda a trama da histria. - S no tenho certeza do ngulo que quero usar, por isso imaginei que poderamos comear deixando tudo bem claro. 
Voc me diz o que lhe deu o primeiro impulso: livros que leu, qualquer coisa assim. Depois, posso transformar os fatos em fico.
      Morgana pensou que teria de controlar seu temperamento, e com muito cuidado. Quando falou, sua voz era suave, porm carregada de um tom que o fez parar no 
centro do tapete.
      - Nasci com o sangue dos elfos. Sou uma feiticeira por herana, e a origem da minha ascendncia remonta at Finn, dos Celtas. Meu poder  um dom passado de 
gerao a gerao. Quando encontrar um homem digno e forte, ns produziremos filhos, que levaro adiante este poder.
      Nash assentiu, impressionado.
      - Isso  timo. - Ento ela no queria falar a srio, pensou. Tudo bem, ele lhe faria a vontade. Afinal, o negcio sobre sangue de elfos continha tremendas 
possibilidades.
      - Ento, quando foi a primeira vez que voc percebeu que era uma feiticeira? - juntou.
      O tom da voz dele fez com que a raiva de Morgana aumentasse um grau. A sala sacudiu-se enquanto ela tentava se conter. Nash puxou-a para fora do sof to rapidamente 
que ela no teve tempo de protestar, empurrando-a na direo da soleira da porta quando o tremor cessou.
      - Foi s um tremor - ele disse, mas manteve os braos em torno dela. - Eu estava em San Francisco, durante o ltimo grande terremoto. - Sentindo-se um idiota, 
enviou-lhe um sorrisinho sem graa. - Depois disso, nunca mais consegui ficar indiferente com relao a tremores de terra.
      Ento ele pensou que fosse um tremor de terra. Melhor assim, Morgana decidiu. Mal, no havia absolutamente nenhum motivo para que ela perdesse a pacincia, 
ou para esperar que ele a aceitasse como era. De qualquer forma, a maneira como ele se apressara em proteg-la fora muito gentil.
      - Voc podia mudar-se para o centro-oeste.
      - Tornados.
      Desde que ele estava ali, e ela tambm, Nash no viu razo para resistir ao impulso de deslizar as mos pelas suas costas. E gostou do jeito como ela cedeu 
ao toque, parecendo uma gata.
      Morgana inclinou a cabea para trs. Achou que seria uma perda de tempo ficar com raiva, quando seu corao deu um pulo de ansiedade. Talvez fosse imprudncia 
deles testar-se mutuamente daquela maneira. Mas s vezes a prudncia era to sem graa...
      - Para a costa leste - falou, deixando a prpria mo subir pelo peito dele.
      - Nevascas. - Nash aconchegou-a mais contra si e, por um instante, pensou que ela parecia moldar-se a ele com perfeio, corpo contra corpo.
      
      - Para o sul. - Morgana passou os braos em torno de seu pescoo, fitando-o com firmeza atravs dos clios entrecerrados.
      - Furaces. - Ele empurrou a aba do chapu dela, fazendo com que seus cabelos cassem, enchendo-lhe as mos como uma seda quente. - Os desastres esto em todo 
lugar - murmurou. - E melhor a gente ficar onde est e lidar com aqueles que j se conhece.
      - Voc no vai conseguir lidar comigo, Nash. - Morgana roou os lbios nos dele, provocante. - Mas est convidado a tentar.
      Ele tomou-lhe os lbios, confiante. No considerava as mulheres como um desastre.
      Talvez devesse considerar.
      Aquilo foi mais turbulento que qualquer terremoto, mais devastador do que qualquer tempestade. Nash no sentiu a terra tremer, nem o vento uivar, mas no instante 
em que os lbios dela abriram-se sob os seus, soube que estava sendo impelido por alguma fora irresistvel, para a qual nenhum homem ainda encontrara um nome.
      Ela estava colada a ele, to quente e macia como cera derretida. Se acreditasse em tais coisas, Nash poderia pensar que o corpo dela fora moldado exatamente 
para aquele propsito: de ajustar-se ao seu com perfeio. Deslizou as mos por baixo da camiseta dela, acariciando a pele macia de suas costas, pressionando-a mais, 
certificando-se de que ela era real, e no um sonho, uma fantasia.
      Podia sentir o gosto da realidade, mas at isso tinha o sabor de algum tipo de sonho noturno. Os lbios dela rendiam-se sedosamente sob os seus, enquanto os 
braos enroscavam-se como cordes de veludo em torno de seu pescoo.
      Um som flutuava no ar, algo que ela murmurava, algo que ele no conseguia entender. Ainda assim, Nash julgou sentir uma certa surpresa no sussurro, e talvez 
um leve temor, antes que terminasse com um suspiro.
      Ela era uma mulher que gostava dos sabores e texturas de um homem. Jamais lhe fora ensinado envergonhar-se de ter prazer com o homem certo, na hora certa. 
Morgana nunca aprendera a ter medo da prpria sexualidade, mas aprendera, sim, a celebr-la, cultiv-la e respeit-la.
      "E no entanto, agora, pela primeira vez, sentia o irnico despontar do medo, com um homem".
      A simplicidade de um beijo preenchia uma necessidade bsica. Mas no havia nada de simples naquele beijo. Como poderia ser simples, quando o excitamento e 
a agitao danavam juntos, percorrendo toda sua pele?
      Morgana queria acreditar que o poder vinha de si mesma, estava nela. Que era a responsvel por aquele turbilho de sensaes que os rodeava. Muitas vezes uma 
evocao era to rpida quanto um desejo, to forte quanto uma vontade.
      Mas o medo estava ali, e ela sabia que resultava da percepo de que aquilo era algo que ia alm do seu alcance, fora de seu controle e do seu conhecimento. 
Sabia que os encantamentos podiam ser feitos contra os fortes, tanto quanto contra os fracos. Era necessrio cuidado para se quebrar um encanto. E ao.
      Ela escorregou para fora dos braos dele, movendo-se devagar, deliberadamente. Nem por um instante iria permitir que ele visse que tinha algum poder sobre 
ela. Fechou a mo sobre o amuleto e sentiu-se mais firme.
      Nash sentia-se como o ltimo sobrevivente de um desastre de trem. Colocou as mos nos bolsos, a fim de impedir-se de abra-la novamente. No se importava 
em brincar com fogo, apenas queria ter certeza de que era ele quem segurava o fsforo. Sabia muito bem quem estivera no comando daquela pequena experincia, e no 
fora Nash Kirkland.
      - Voc costuma usar hipnose? - perguntou.
      Ela estava bem, Morgana disse a si mesma. Estava muito bem. Mas tornou a sentar no sof. Foi necessrio algum esforo, mas conseguiu esboar um sorriso que 
no parecesse apaixonado demais.
      - Eu hipnotizei voc, Nash?
      Agitado, ele foi at a janela e voltou.
      - S quero ter certeza de que, quando beijar voc, a idia seja minha.
      Morgana levantou a cabea. O orgulho que corria em seu sangue tambm era algo imutvel pelos sculos.
      - Voc pode ter todas as idias que quiser. Eu no preciso recorrer  magia para fazer com que um homem me deseje.
      
      - Levou o dedo aos lbios, tocando o calor que ele deixara ali. - E se eu decidir que quero t-lo, voc ficaria mais do que disposto. -- Sob o dedo, seus lbios 
curvaram-se. - E, depois, ficaria agradecido.
      Nash no duvidava disso, mas sentiu seu prprio orgulho arranhado.
      - Se eu lhe dissesse algo assim, voc me acusaria de machista e egocntrico.
      Num gesto preguioso, ela pegou o copo.
      - A verdade no tem nada a ver com o sexo ou o ego.
      - A gata branca pulou, sem nenhum rudo, no 'encosto do sof. Sem desviar os olhos de Nash, Morgana levantou a mo e afagou a cabea de Luna. - Se no est 
disposto a correr o risco, podemos cancelar a nossa... sociedade criativa.
      - Acha que tenho medo de voc? - O absurdo daquela observao melhorou um pouquinho o humor de Nash. - Benzinho, h muito tempo eu parei de pensar com minhas 
glndulas.
      - Fico aliviada em saber. Detestaria pensar em voc como algum tipo de conquistador calculista.
      - A questo principal  que, ele disse por entre os dentes cerrados, - se quisermos que funcione,  melhor estabelecermos algumas regras.
      Ele devia estar maluco, Nash pensou. Cinco minutos atrs tinha uma mulher linda, sensual e incrivelmente deliciosa entre os braos, e agora estava tentando 
pensar em maneiras que pudessem impedi-la de seduzi-lo.
      - No. - Pensativa, Morgana pressionou os lbios. No me dou muito bem com regras. Voc ter de se arriscar.
      Mas posso fazer um acordo com voc: no vou induzi-lo a nenhuma situao comprometedora se voc parar de fazer estes comentariozinhos pretensiosos e fteis 
a respeito da feitiaria. - Ela penteou os cabelos com os dedos. - Isso me. irrita, e quando fico irritada s vezes fao coisas das quais me arrependo depois.
      - Eu tenho de lhe fazer perguntas.
      - Ento aprenda a aceitar as respostas. - Calma, mas determinada, Morgana levantou-se. - Eu no minto, pelo menos no costumo mentir. No tenho certeza de 
porque decidi lhe falar sobre meu ofcio. Talvez seja por haver algo em voc que me atrai e, sem dvida, porque sinto um grande respeito por escritores. Voc tem 
uma aura forte e uma mente investigativa, apesar de ctica, alm de uma boa dose de talento. E, talvez, porque pessoas muito prximas a mim o aprovaram.
      - Tais como...
      - Anastsia. E Luna e Pano Eles so excelentes juzes de carter.
      Ento ele fora aprovado por uma prima, uma gata e um co.
      - Anastsia tambm  feiticeira?
      Os olhos dela mantiveram-se firmes.
      - Vamos falar sobre mim, e sobre o ofcio em geral. Ana no tem nada a ver com isso.
      -Tudo bem. Quando comeamos?
      J haviam comeado, Morgana pensou, e quase emitiu um suspiro.
      - No trabalho aos domingos. Voc pode vir amanh  noite, s nove horas.
      - E no  meia-noite? Desculpe-me - ele apressou-se em dizer. - Fora do hbito. Gostaria de usar um gravador, se voc no se importar.
      -  claro que no me importo.
      - Devo trazer mais alguma coisa?
      - Uma lngua de morcego e um pouco de enxofre.
      Morgana sorriu. - Desculpe-me, fora do hbito.
      Ele riu e pousou um beijo casto em seu rosto.
      - Gosto do seu estilo, Morgana.
      - Veremos.
      
      Ela esperou at o pr-do-sol, depois vestiu uma fina tnica branca. Era melhor prevenir do que remediar, dissera a si mesma quando finalmente sucumbira, subindo 
para o cmodo no alto da torre. No gostava de admitir que Nash era to importante a ponto de merecer suas preocupaes, mas, desde que estava preocupada, achou 
melhor verificar. Montou o crculo protetor, acendeu as velas. Mergulhando no perfume de sndalo e ervas, ajoelhou no centro e levantou os braos.
      - Fogo, gua, terra e vento, sem destruir e sem corrigir.
      Apenas para deixar-me ver. E quando eu assim desejar, que em p se transforme.
      O poder deslizou por dentro dela como um hlito, limpo e fresco. Morgana ergueu a esfera de lmpido cristal, segurando-a com as duas mos de forma que as luzes 
das velas a iluminassem.
      Nvoa. Luz. Sombra.
      A esfera inundava-se com isso e, depois, como se um vento tivesse soprado, clareou at um branco puro, brilhante.
      Dentro da esfera Morgana viu o bosque de ciprestes, as antigas e msticas rvores filtrando a luz da lua no cho da floresta. Podia sentir o cheiro do vento, 
ouvi-lo, e o chamado do mar, que alguns diziam ser o canto da deusa.
      Luz de velas. Na sala. Dentro do globo.
      Ela. Na sala. Dentro do globo.
      Ela usava uma tnica cerimonial branca, amarrada por um cordo de cristais. Os cabelos estavam soltos, os ps descalos. O fogo fora aceso pela sua mo, pela 
sua vontade, e queimava to frio quanto a lua. Era uma noite para celebrao.
      Uma coruja piou. Ela virou-se, viu suas asas brancas refulgirem e cortarem a escurido como facas afiadas, viu-as desaparecer num relance por entre as sombras. 
Depois, ela o avistou.
      Ele vinha por entre os ciprestes, penetrando numa clareira. Seus olhos estavam repletos dela.
      Desejo. Exigncia. Destino.
      Presa dentro da esfera, Morgana estendeu as mos e envolveu Nash num abrao.
      As paredes da torre reverberaram com uma breve imprecao. Trada, por si mesma, Morgana ergueu uma das mos. As velas apagaram-se. Ela permaneceu onde estava, 
enfurecida na escurido.
      Praguejou contra si prpria, pensando que teria sido melhor no saber.
      
      Alguns quilmetros distante dali, Nash acordou de um cochilo que havia tirado na frente da televiso. Sonolento, esfregou as mos no rosto e levantou-se com 
dificuldade.
      Que sonho danado, pensou enquanto massageava a nuca rgida. Vvido o bastante para deixar doloridas vrias partes sensveis do seu corpo. E era por culpa sua, 
pensou bocejando, enquanto pegava distrado a tigela de pipocas que deixara na mesa.
      Ele no se esforara o bastante para tirar Morgana da cabea. Por isso, se acabasse tendo fantasias sobre v-la danando algum tipo de dana das bruxas numa 
floresta, sobre tirar-lhe a tnica de seda branca e fazer amor com ela na grama macia, sob o luar, no poderia culpar mais ningum, exceto a si mesmo.
      Nash estremeceu de leve e pegou o copo de cerveja morna.
      Realmente, havia sido um sonho muito estranho. Ele podia jurar que sentira o cheiro de velas queimando.
      
      CAPTULO 3
      
      Morgana j estava irritada quando virou o carro para a entrada de sua casa, na tarde de segunda-feira. Uma encomenda que estava esperando ficara retida em 
Chicago, e ela havia passado a ltima hora no telefone, tentando localiz-la. Ficara tentada a lidar com o assunto   sua prpria maneira, pois nada a enfurecia 
mais do que a ineficincia, mas tinha plena conscincia de que tais impulsos quase sempre causavam complicaes.
      No fim das contas, perdera um tempo precioso e estava quase escurecendo quando finalmente chegou em casa. Planejava dar uma tranqila caminhada por entre as 
rvores para arejar a cabea e acalmar os nervos antes de ter de lidar com Nash.
      Parou o carro e ficou ali sentada por um instante, fazendo uma careta ao ver a motocicleta preta e cromada estacionada na frente da garagem.
      Sebastian. Perfeito. Exatamente o que ela no precisava.
      Luna deslizou para fora do veculo antes dela, e com passos silenciosos foi esfregar-se contra a roda traseira da Harley.
      - Que engraadinha - Morgana falou, num misto de averso e ironia, enquanto batia a porta do carro. - Contanto que seja um homem, no ?
      Luna resmungou algo que no pareceu muito gentil, e seguiu em frente. Pan recebeu-as na porta da frente com os olhos espertos e a lngua sempre pronta a agradar. 
Enquanto Luna passava direto por ele, ignorando-o, Morgana parou para afagar-lhe o plo antes de guardar a bolsa. Podia ouvir os acordes suaves de uma sinfonia de 
Beethoven vindos do seu aparelho de som.
      Encontrou Sebastian exatamente no lugar em que esperava v-lo. Estava esparramado no sof, os ps calados de botas confortavelmente cruzados na mesinha de 
centro, com os olhos semicerrados e um copo de vinho na mo. Seu sorriso podia ser devastador para as mulheres normais, graas  maneira como suavizava as linhas 
retas e angulosas de sua fisionomia sombria, curvando aqueles lbios sensuais e esculpidos, aprofundando a cor dos olhos emoldurados por clios espessos, e to fulvos 
e aguados quanto os de Luna.
      Preguiosamente, ele estendeu a mo longa e esguia, num antigo gesto de saudao.
      - Morgana, meu nico e verdadeiro amor.
      Sebastian sempre fora bonito demais para seu prprio bem, Morgana pensou, mesmo quando menino.
      - Fique  vontade, primo. 
      - Obrigado, querida. - Ele ergueu o copo para ela. O vinho est excelente. E seu ou de Ana?
      -Meu.
      - Meus cumprimentos. - Ele levantou-se, gracioso como um danarino. Morgana sempre se irritava por ter de erguer a cabea a fim de nivelar os olhos com os 
dele, pois Sebastian era pelo menos dez centmetros mais alto que ela. - Aqui est - Ele entregou-lhe o copo de vinho. - Parece que voc est precisando.
      - Tive um dia terrvel.
      Ele sorriu.
      - Eu sei.
      Ela estava prestes a beber um gole, mas seus dentes cerraram-se.
      - Voc sabe que odeio quando espia a minha mente.
      - Pois eu nem precisei. - Com um gesto de trgua, ele espalmou as mos. Um anel de ouro intrincadamente retorcido, com uma ametista quadrada, reluziu em seu 
dedo mnimo. - Voc est enviando sinais. Sabe como eles ficam altos, quando voc se aborrece.
      - Ento devo estar berrando, agora.
      Ao perceber que Morgana no iria beber o vinho, Sebastian tornou a pegar o copo.
      - Querida, ns no nos vemos desde a Festa da Candelria. - Os olhos dele lhe sorriam. - No ficou com saudade de mim?
      O pior era que ela havia sentido saudade, sim. No importava o quanto Sebastian a provocasse, e ele fazia isso desde a poca em que ela ainda dormia num bero, 
Morgana gostava muito dele. Porm, isso no era motivo para mostrar-se amigvel depressa demais.
      - Ando muito ocupada.
      - Foi o que me disseram. - Ele fez ccegas sob o queixo dela, pois sabia que isso a deixava zangada. - Fale-me sobre Nash Kirkland.
      Um brilho de fria lampejou nos olhos dela.
      - Que droga, Sebastian!  melhor manter os seus dedinhos medinicos bem longe do meu crebro.
      - Eu no espiei. - A expresso dele tornou-se exageradamente ofendida. - Sou um vidente, um artista, e no um voyeur. Ana me contou.
      - Ah. - Morgana fez um beicinho amuado. - Desculpe-me.
      Ela sabia que, ao menos desde que atingira certa maturidade e controle, Sebastian raramente invadia os pensamentos particulares das pessoas. A no ser que 
julgasse necessrio.
      - Bem - acrescentou -, no h nada a dizer. Ele  um escritor.
      - Eu sei disso. Pois no assisti todos os filmes que ele escreveu? Quero saber qual  o assunto dele com voc.
      - Pesquisa. Ele quer escrever uma histria sobre feiticeiras. No h nada com que se preocupar.
      - S estou cuidando da minha priminha.
      - Pois no precisa - ela repetiu. Puxou, com fora, uma longa mecha dos cabelos dele, que caam pelo colarinho. Sei tomar conta de mim mesma. E ele dever 
chegar daqui a duas horas, portanto...
      - timo. Isso dar tempo de sobra para voc me alimentar. - Sebastian passou o brao amigavelmente nos ombros dela. Decidira que Morgana teria de expuls-lo 
da casa, se quisesse que ele sasse antes de se encontrar com o escritor. - Conversei com meus pais neste fim de semana.
      - Por telefone?
      Os olhos dele arregalaram-se, chocados. Quando falou, os tnues fragmentos da Irlanda, que ocasionalmente emergiam em sua voz,  deram mais vida ao seu tom.
      - Ora, Morgana, voc sabe quanto custa uma ligao internacional? E caro demais!
      Rindo, ela enlaou-o pela cintura.
      - Est bem. Vou lhe dar o jantar e voc pode me contar as novidades.
      Morgana jamais conseguiria ficar zangada com ele. Afinal, era a sua famlia. Quando se  diferente, s vezes a famlia  tudo com que se pode contar.
      Jantaram na cozinha, enquanto Sebastian lhe contava sobre as ltimas faanhas dos pais dela, de suas tias e tios.
      Ao final de uma hora, Morgana sentia-se completamente relaxada outra vez.
      - J se passaram anos, desde a ltima vez em que vi a Irlanda sob a luz da lua - Morgana murmurou.
      - Pois faa uma viagem. Voc sabe que eles iro adorar ver voc.
      - Talvez eu v, no solstcio de vero.
      - Poderamos ir todos juntos. Voc, Anastsia e eu.
      - Talvez. - Suspirando, ela empurrou o prato para o lado. - O problema  que o vero  a melhor poca para meus negcios.
      - Foi voc mesma quem quis tornar-se uma "pequena empresria".
      Havia um belo pedao de costeleta de porco no prato dela. Sebastian pegou-o com o garfo e comeu-o.
      - Eu gosto do que fao, de verdade. Ter contato com pessoas. Embora algumas sejam bem esquisitas.
      Ele encheu os copos de vinho.
      - Por exemplo?
      Morgana sorriu e apoiou os cotovelos na mesa.
      - Houve este sujeito muito chato, que comeou a aparecer na loja todos os dias, durante semanas. Insistia em dizer que me reconhecia de outra encarnao.
      - Uma "cantada" pattica.
      -  mesmo. Felizmente ele estava errado, eu nunca o encontrei antes, em nenhuma vida. Certa noite, duas semanas atrs, ele chegou de repente quando eu estava 
fechando a loja, e tentou me passar uma "cantada" muito melosa e direta.
      - Humm... - Sebastian acabou de comer o ltimo pedao de costeleta. Sabia muito bem que sua prima podia cuidar de si mesma, mas isso no impedia que se sentisse 
irritado ao saber que algum pseudo-seguidor da Nova Era a considerasse uma conquista fcil. - O que voc fez?
      - Dei-lhe um soco no estmago. - Ela encolheu os ombros, quando Sebastian comeou a rir.
       - Estilo, Morgana. Voc tem um bocado de estilo. No podia transform-lo num sapo?
      Ela endireitou-se na cadeira, muito digna.
      - Voc sabe que no trabalho, desse jeito.
      - E quanto a Jimmy Pakipsky?
      - Aquilo foi diferente... eu tinha apenas treze anos. Morgana no conseguiu evitar um sorriso. - Alm disso, logo depois o transformei novamente naquele molequinho 
terrvel que era.
      - S porque Ana teve de implorar em favor dele. - Sebastian fez um gesto com o garfo. - E voc deixou as verrugas.
      - Era o mnimo que eu podia fazer. - Morgana estendeu a mo e pegou a dele. - Diabos, Sebastian, senti muito sua falta.
      Ele apertou-lhe a mo com fora.
      - Senti sua falta tambm. E de Anastsia.
      Morgana pressentiu alguma coisa, o lao que os unia era antigo e profundo demais para que deixasse de perceber.
      - O que foi, querido?
      - Nada que possamos mudar. - Sebastian beijou-lhe os dedos de leve e soltou-os. No tivera inteno de pensar no assunto, nem de baixar a guarda o bastante 
para que a prima o sintonizasse. -No h nada com bastante chantilly nesta casa?
      Mas ela balanou a cabea. Havia captado a tristeza. E, embora Sebastian fosse hbil o suficiente para bloque-la agora, Morgana no desistiria.
      - E este caso em que voc trabalhou, no ? Do menino que foi seqestrado.
      A dor foi sbita e aguda. Sebastian obrigou-a novamente a se afastar.
      - No conseguiram resgat-lo a tempo. A polcia de San Francisco fez tudo o que podia, mas os seqestradores entraram em pnico. Ele tinha s oito anos.
      - Sinto muito; - Uma onda de tristeza envolveu-a. Morgana levantou-se e foi sentar no colo do primo, enroscando-se. - Ah, Sebastian, eu lamento muito.
      - No pode deixar que isso a afete. - Em busca de conforto, ele roou a face contra os cabelos dela. Podia sentir as bordas pontiagudas da sua prpria tristeza 
suavizando-se, agora que tinha Morgana com quem compartilhar. - Ser demais para voc, se permitir ser atingida. Mas, que droga, eu estava to perto do garoto... 
Quando algo assim acontece, voc se pergunta por que recebeu este dom se no consegue melhorar nada.
      - Mas voc consegue, Sebastian. - Ela segurou-lhe o rosto entre as mos. Seus olhos estavam midos, mas fortes.
      - Nem sei quantas vezes voc j conseguiu. S que, desta vez, no era para ser.
      - Di muito.
      - Eu sei. - Delicadamente, ela afagou-lhe os cabelos.
      - Fico contente por voc ter me procurado.
      Sebastian abraou-a com fora, depois a soltou.
      - Escute aqui, eu vim para jantar e dar umas boas risadas, no para deix-la deprimida. Desculpe-me.
      -- Ora, no seja bobo.
      A voz dela foi to rspida que Sebastian teve de rir.
      - Tudo bem. Agora, se quiser que eu me sinta melhor, que tal aquele chantilly?
      Morgana deu-lhe um sonoro beijo na testa.
      - Que tal um sorvete com calda quente de chocolate?
      - Minha herona!
      Ela levantou-se e, conhecendo o apetite de Sebastian, pegou uma tigela grande. Tambm sabia que o ajudaria mais se no dissesse mais nada sobre o caso. Ele 
lutaria para superar, e seguiria em frente. Pois no havia outro jeito. Direcionando rapidamente mente na para a sala de estar, mudou a estao de rdio em seu aparelho 
estreo, trocando a msica clssica por um rock.
      
      - Melhorou - disse Sebastian, estendendo as pernas numa cadeira vazia. - Ento, vai me dizer por que est ajudando o tal de Kirkland nas pesquisas?
      - Porque me interessa. - Ela aqueceu a calda de chocolate da maneira convencional, isto , no microondas.
      - Quer dizer que ele a interessa?
      - De certa forma. - Morgana fez uma pequena montanha de sorvete de baunilha. - E claro que ele no acredita em nada sobrenatural, apenas explora o assunto 
nos filmes. Mas, na verdade, no tenho nenhum problema com isso. - Pensativa, lambeu o sorvete do dedo. - Com os filmes, quero dizer. Eles so divertidos. Agora, 
a atitude dele... Bem, talvez eu tenha de mud-la um pouco, antes de continuarmos.
      -  um terreno perigoso, prima.
      - Ora, Sebastian, a vida  um terreno perigoso. - Despejou um rio de calda quente sobre a montanha de sorvete.
      - Podemos muito bem nos divertir com ela.
      Para provar o que dizia, cobriu toda a paisagem que criara com uma pilha de nuvens de chantilly. Com um floreio, depositou  tigela na frente de Sebastian.
      - No tem castanhas?
      Morgana bateu com a colher na mo dele.
      - No gosto de castanhas, e ns vamos dividir. - Depois de sentar, mergulhou a colher no sorvete. - Acho que voc vai gostar dele - disse, com a boca cheia. 
- De Nash. Ele tem aquele tipo de arrogncia dissimulada, que os homens consideram to msculo. - E que, de fato, era, pensou um tanto ressentida. - E,  bvio, 
ele possui uma imaginao abundante.  bom com animais, Pan e Luna reagiram a ele favoravelmente.  um grande f. de mame, tem um bom senso de humor,  inteligente. 
E dirige um carro maravilhoso.
      - Parece que Nash conquistou voc.
      Se no tivesse acabado de engolir, Morgana teria engasgado com o sorvete.
      - No me insulte, est bem? S porque o achei interessante e atraente no significa que eu esteja...
      Ela estava zangada, Sebastian reparou, satisfeito. Era sempre um bom sinal. Quanto mais perto Morgana chegava da raiva, mais fcil era extrair informaes 
dela.
      - Ento, voc olhou?
      -  claro que olhei - ela disparou. - Apenas por precauo.
      - Voc olhou porque estava nervosa.
      - Nervosa? No seja ridculo! -- Mas ela comeou a tamborilar os dedos na mesa. - Ele  s um homem. - E voc, apesar dos seus dons,  uma mulher. Ser que 
preciso lhe dizer o que acontece quando se juntam um homem e uma mulher?
      Morgana cerrou os punhos, a fim de impedir-se de fazer algo drstico.
      - Conheo os fatos da vida, muito obrigada. Se eu decidir torn-lo meu amante, o problema  meu. E, talvez, o prazer tambm.
      Contente por ela ter perdido o interesse pelo sorvete, Sebastian assentiu, enquanto comia.
      - Mas o problema  que sempre existe o risco de voc se apaixonar por ele. V com cuidado, Morgana.
      - H uma grande diferena entre amor e paixo - ela retrucou, com afetao.
      Em seu lugar embaixo da mesa, Pan levantou a cabea e emitiu um latido baixo.
      - Por falar nisso...
      Com os olhos -reluzindo um alerta, Morgana levantou.
      - Comporte-se, Sebastian. Estou falando srio.
      -No se preocupe comigo. V atender a porta. - A campainha tocou meio segundo depois. Rindo consigo mesmo, Sebastian viu-a sair em disparada.
      Maldio, Morgana pensou quando abriu a porta da frente, ele estava to bonito... Os cabelos estavam despenteados pelo vento. Trazia uma mochila velha no ombro, 
e havia um furo no joelho da cala jeans.
      - Oi! Acho que estou um pouco adiantado.
      - Tudo bem. Entre e sente-se. S preciso dar um jeito numa... numa baguna na cozinha.
      - Mas que maneira de se referir ao seu primo. - Sebastian entrou na sala com toda calma, trazendo a tigela de sorvete quase vazia. - Ol. - Assentiu a cabea 
amigavelmente para Nash. - Voc deve ser Kirkland.
      Morgana estreitou os olhos, mas falou com gentileza suficiente.
      Nash, este  o meu primo Sebastian. Ele estava de sada.
      - Ah, posso ficar mais um pouco. Gostei muito dos seus filmes.
      - Obrigado. Ser que no o conheo? - Nash franziu a testa, enquanto observava Sebastian. - O mdium, certo?
      Os lbios de Sebastian curvaram-se num meio sorriso.
      - Culpado.
      . - Acompanhei alguns de seus casos. At mesmo os policiais mais teimosos e descrentes deram-lhe todo o crdito pela priso do "Assassino Yuppie" de Seattle. 
Talvez voc pudesse...
      - Sebastian detesta falar sobre os casos que ajudou resolver - Morgana interrompeu. Havia uma ameaa velada em seus olhos, quando os fixou no primo. - No 
 mesmo, Sebastian?
      - Para dizer a verdade, eu...
      - Fiquei muito contente com sua visita, querido. - Um rpido lampejo de eletricidade perpassou-os quando Morgana tirou a tigela da mo dele. - Aparea sempre, 
est bem?
      Ele desistiu, pensando que ainda era cedo o bastante para passar na casa de Anastsia e discutir a atual situao de Morgana com mais profundidade.
      - Cuide-se, meu bem. - Sebastian deu-lhe um longo beijo, demorando-se at sentir os pensamentos de Nash obscurecerem. - Abenoada seja.
      - Abenoado seja - Morgana respondeu automaticamente, e empurrou-o para fora. Virou-se para Nash. -. Agora, se puder me dar s um minutinho, comearemos em 
seguida. - Jogou os cabelos para trs, satisfeita ao ouvir o barulho da motocicleta. - Quer tomar um ch?
      Nash estava com a testa franzida e as mos nos bolsos.
      - Prefiro caf. - Seguiu-a quando ela foi para a cozinha.
      - Que tipo de primo  ele?
      - Sebastian? Normalmente um primo muito irritante.
      - No, eu quero dizer... - Na cozinha, Nash logo reparou nos remanescentes de um aconchegante jantar para dois. - E seu primo em primeiro grau, ou daquele 
tipo... mais distante?
      Morgana colocou uma antiquada chaleira de ferro no fogo para ferver a gua, e depois passou a encher a lavadora de loua.
      - Nossos pais so irmos. - Captando a expresso de alvio de Nash, quase comeou a rir. - Nesta vida - acrescentou, sem conseguir se conter.
      - Nesta... Ah, claro. - Ele deixou a mochila numa cadeira. - Ento voc acredita em reencarnao.
      -- Se acredito? - Morgana repetiu. - Bem, acho que  mais ou menos isso. De qualquer forma, meu pai, o de Sebastian e o de Ana nasceram na Irlanda. Eles so 
trigmeos.
      - Est brincando? - Nash apoiou os quadris na mesa, enquanto ela abria uma latinha. - Parece to raro quanto ser o stimo filho de um stimo filho.
      Balanando a cabea, Morgana mediu as ervas para o ch.
      - Tais coisas nem sempre so raras. Eles casaram-se com trs irms - continuou. - Trigmeas, tambm.
      Nash esfregou a cabea de Pan, quando o cachorro encostou-se a sua perna.
      - Puxa, mas isso  interessante.
      - Um arranjo pouco comum, pode-se dizer, mas eles reconheceram-se mutuamente, e ao seu destino. - Morgana olhou para trs com um sorriso, antes de encher o 
bulezinho de ch com gua quente. - Estavam destinados a ter apenas um filho cada casal, o que, de vrias formas, foi um desapontamento para eles. Existe muito amor 
entre os seis, e gostariam de t-lo espalhado em grandes quantidades para muitos filhos. Mas no era para ser.
      Ela acrescentou um bule de caf  bandeja de prata, onde arrumara delicadas xcaras de porcelana, um pote de creme e um aucareiro, esses dois no formato de 
caveiras sorridentes.
      - Deixe que eu levo a bandeja - Nash falou. Ao peg-la viu as peas exticas.- Herana de famlia?
      - No, comprei numa loja de novidades. Pensei que voc acharia divertido.
      Ela guiou o caminho at a saleta de estar, onde Luna enroscava-se no meio do sof. Morgana escolheu o lugar ao lado da gata e fez um gesto para que Nash deixasse 
a bandeja na mesa.
      - Creme e acar? - perguntou.
      - Sim, obrigado. - Observando-a usar os recipientes, sorriu, divertido. - Aposto que voc d boas risadas na poca do Halloween.
      Ela ofereceu-lhe uma xcara.
      - As crianas vm de longe para ganhar doces da bruxa, ou para tentar assust-la. - E o carinho que sentia pelas crianas sempre fazia com que adiasse sua 
prpria celebrao da vspera do Dia de Todos os Santos (All Hallow's Eve), pois sempre esperava at que o ltimo saquinho de guloseimas tivesse sido enchi do. - 
Creio que algumas delas ficam desapontadas ao ver que no uso um chapu pontudo, nem saio voando no cabo de vassoura.
      O anel de prata no dedo de Morgana reluziu sob a luz do abajur, quando ela serviu o delicado ch cor de mbar extrado das flores de jasmim.  - A maioria das 
pessoas tem uma ou outra idia preconcebida acerca das feiticeiras. Ou pensam na velha encarquilhada de nariz adunco oferecendo mas envenenadas, ou no esprito 
resplandecente com uma varinha de condo com estrela na ponta dizendo que no h lugar como o lar.
      - Receio que no me encaixe em nenhuma dessas categorias.
      - E exatamente por isso que eu preciso de voc. - Depois de deixar a xcara na mesa, Nash abriu a mochila. - Tudo bem? - perguntou, tirando o gravador.
      -E claro.
      Ele apertou o boto de "gravar", depois tornou a remexer na mochila.
      - Passei o dia debruado sobre os livros, na biblioteca, nas livrarias. - Retirou da mochila um livro fino, de capa macia, e passou-o para ela. - O que pensa 
sobre isso?
      Arqueando a sobrancelha, Morgana leu o ttulo: "Fama, Fortuna e Romance: Rituais com Velas para Todos os Usos". Jogou o livro no colo dele, com fora suficiente 
para faz-lo encolher-se.
      -. Espero que voc no tenha pago muito por isso.
      - Seis dlares e noventa e cinco centavos, fora as taxas.
      Ento voc no faz esse tipo de coisas?
      Pacincia, ela disse a si mesma, tirando os sapatos e dobrando as pernas no sof. A saia vermelha e curta que usava subiu at o meio das coxas.
      - Acender velas e recitar cnticos engraadinhos. Voc acredita mesmo que um leigo qualquer seja capaz de realizar magia apenas lendo um livro?
      - Voc tem de aprender em algum lugar.
      Resmungando, Morgana pegou o livro novamente e abriu-o.
      - "Para provocar cime" - leu, enojada. - "Para conquistar o amor de uma mulher". "Para obter dinheiro". Tornou a fech-lo com fora. - Pense bem, Nash, e 
agradea pelo fato de no dar certo para todo mundo. Imagine que voc esteja sem dinheiro, com as contas acumulando-se. Voc queria muito comprar um carro novo, 
mas seu crdito est estourado. Ento, acende algumas velas, faz um pedido, talvez at dance nu para acrescentar algum efeito. E... "abracadabra"! - Ela levantou 
os braos. - Voc descobre-se recebendo um cheque de dez mil dlares. O nico problema  que sua adorada vovozinha teve de morrer para deixar-lhe o dinheiro.
      - Tudo bem, ento  necessrio ter cuidado com a maneira como se formula o encantamento.
      - Raciocine comigo - ela disse, fazendo uma careta de impacincia. - Todos os atos tm conseqncias. Algum deseja que o marido seja mais romntico. Shazam!, 
subitamente ele se transforma num autntico dom-juan... com todas as mulheres da cidade. Mas digamos que voc seja do tipo nobre, e faz um encantamento para acabar 
com a guerra. O feitio d certo, a guerra termina, mas, como resultado, dezenas de outras guerras explodem. - Morgana emitiu um suspiro. - A magia no  para os 
despreparados ou irresponsveis. E, certamente, no pode ser aprendida atravs de alguns livros tolos.
      - Ok. - Impressionado com tal raciocnio, Nash estendeu as mos. - Estou convencido. Mas a questo que eu quis salientar - que pude comprar este livro numa 
livraria por sete dlares. Significa que as pessoas esto interessadas.
      - As pessoas sempre estiveram interessadas. - Ela virou-se e os cabelos escorregaram pelos seus ombros. - J houve pocas em que tal interesse fez com que 
essas pessoas fossem enforcadas, queimadas ou afogadas. - Morgana bebericou o ch. Somos um pouco mais civilizados, hoje em dia.
      - A est - ele concordou. -  por isso que quero escrever uma histria sobre este assunto agora. Hoje, quando temos telefones celulares, fornos de microondas, 
aparelhos de fax e correio eletrnico. Ainda assim, as pessoas continuam fascinadas com a magia. Posso partir de vrios pontos de vista. Usar lunticos que sacrificam 
bodes...
      - No com minha ajuda.
      - Tudo bem, eu j imaginava. De qualquer forma, isso seria fcil demais... comum demais. Estive pensando em explorar o mesmo enfoque cmico que usei em "Descanse 
em Paz", talvez acrescentando um pouco mais de romance.
      No apenas sexo. - Luna subira no colo dele, e Nash a afagava, deslizando os longos dedos nos plos macios. - Minha idia  centralizar o enredo em uma mulher, 
uma jovem deslumbrante que, por acaso, possui "algo mais". Como ela lida com os homens, com o trabalho, com... sei l, com as compras do supermercado? Ela deve conhecer 
outras feiticeiras. Sobre o que conversam? O que fazem para se divertir? Quando voc soube que era uma feiticeira, Morgana?
      - Provavelmente quando levitei no meu bero - Morgana respondeu calmamente, e viu o riso formar-se nos olhos dele.
      -  esse tipo de coisa que eu quero. - Ele recostou-se na cadeira e Luna aconchegou-se em seu colo como uma manta. - Sua me deve ter tido um ataque.
      - Ela estava preparada para isso. - Morgana mudou de posio e seus joelhos roaram levemente nos quadris de Nash.
      Ele nem pensou que haveria qualquer coisa mgica no rpido lampejo de calor que sentiu. Era apenas uma reao qumica.
      - Eu j lhe disse que sou feiticeira por herana.
      - Certo. - O tom de voz dele a fez respirar fundo. E isso nunca a incomodou? Isto , pensar que era diferente?
      - Saber que eu sou diferente - ela corrigiu. -  claro que sim. Quando eu era criana, ficava bem mais difcil controlar o poder. As pessoas quase sempre perdem 
o controle  atravs da emoo. Da mesma forma, uma mulher pode perder o controle da prpria inteligncia com determinados homens.
      Nash queria estender a mo e tocar os cabelos dela, mas pensou duas vezes.
      - Isso lhe acontece com freqncia? Perder o controle?
      Morgana lembrou-se de como se sentira no dia anterior, com os lbios dele sobre os seus.
      - No tanto quanto acontecia antes de me tomar adulta. Tenho um temperamento forte, e s vezes fao coisas das quais me arrependo depois, mas h algo que uma 
feiticeira responsvel nunca esquece: o poder jamais deve ser usado para prejudicar ou ferir algum.
      - Ento voc  uma feiticeira sria e responsvel. E faz sortilgios de amor para seus clientes.
      Ela empinou o queixo.
      - Evidente que no.
      - Mas voc pegou aquelas fotos... da sobrinha daquela senhora e do gnio em geometria.
      Ele no perdia nada, Morgana pensou com desgosto.
      - A senhora. Littleton no me deu muitas opes. - Embaraada, deixou a xcara na mesa com um gesto rpido. E s porque peguei as fotos no significa que esteja 
prestes a espargi-las com poeira da lua.
      -  assim que se faz?
      - Sim, mas... - Mordeu a lngua. - Voc est se divertindo  minha custa. Por que faz perguntas, se no vai acreditar nas respostas?
      - No preciso acreditar nelas para ficar interessado. E ele estava interessado, e muito. Viu-se escorregando alguns centmetros para mais perto dela. - Quer 
dizer que voc no fez nada a respeito do baile de formatura?
      - No foi o que eu disse. - Morgana cruzou os braos, emburrada, enquanto Nash cedia  tentao e brincava com seus cabelos. - Simplesmente removi uma pequena 
barreira.
      Qualquer outra coisa, alm disso, teria sido interferncia.
      - Que barreira? - Ele no fazia idia de qual seria o cheiro da poeira da lua, mas imaginou se teria o mesmo perfume que os cabelos dela.
      - A garota  terrivelmente tmida. Apenas dei um pequeno impulso  sua autoconfiana. O resto fica por conta dela. Morgana tinha um pescoo lindo, esguio e 
gracioso. Nash imaginou como seria beij-lo... por uma ou duas horas. Os negcios, pensou. Limite-se aos negcios.
      -  assim que voc trabalha? Dando "impulsos" s pessoas?
      Ela virou a cabea e fitou-o direto nos olhos.
      - Depende da situao.
      - Andei lendo um bocado. As feiticeiras costumavam ser consideradas as mulheres mais sbias e inteligentes dos vilarejos. Preparavam poes, encantamentos, 
prevendo acontecimentos, curando os doentes.
      - Minha especialidade no  a cura, nem a vidncia.
      - E qual  a sua especialidade?
      - Magia. - Talvez por uma questo de orgulho, ou apenas por diverso, ela no tinha certeza, no mesmo instante enviou um relmpago cruzando o cu.
      Nash olhou na direo da janela.
      - Parece que h uma tempestade se aproximando.
      - Pode ser. Por que no respondo logo algumas de suas perguntas, para que voc possa voltar para casa?
      Diabos, ela queria que ele fosse embora. Morgana sabia o que havia visto na esfera de cristal e que, com cuidado, com habilidade, . s vezes tais coisas podiam 
ser mudadas. Porm, fosse como fosse, no queria que os acontecimentos se precipitassem to depressa.
      E a maneira como ele a tocava, com a ponta dos dedos em seus cabelos, provocava-lhe pequenos lampejos de medo.
      E isso a deixava irritada.
      - No estou com pressa - ele disse calmamente, enquanto indagava-se se, caso tivesse coragem e a beijasse novamente, experimentaria aquela mesma sensao arrebatadora 
da outra vez.- Um pouco de chuva no me incomoda.
      - Vai chover forte - Morgana murmurou para si mesma.
      Ela se encarregaria de providenciar. - Alguns dos seus livros podem ser teis - disse. - Podem fornecer-lhe um pouco de Histria e dos fatos registrados, e 
tambm uma idia geral dos rituais. - Pousou o dedo sobre o exemplar que ele lhe mostrara. - Mas no este aqui. Existem certos... ingredientes rituais que so usados 
no Ofcio.
      - Como terra de cemitrio?
      Ela sentia-se prestes a perder o controle.
      - Ora, faa-me o favor...
      - Vamos l, Morgana, daria um visual excelente. - Nash virou-se, pousando a mo sobre a dela, querendo que ela visse o que ele via. - Cena externa, noite. 
Nossa linda herona vagando sob a neblina, cruzando as sombras por entre os tmulos. Uma coruja emite um grito estridente. A distncia, ecoa o longo e ululante uivar 
de um co. Close daquele rosto plido, perfeito, emoldurado pelo capuz de seu manto escuro. Ela pra diante de uma cova recente e, entoando cnticos, guarda um punhado 
da terra recm-revolvida dentro de sua algibeira mgica. Um trovo explode no ar. Desaparece a imagem.
      Morgana tentou, realmente tentou, no ficar ofendida.
      Imagine, algum pensando que ela se esquivava em volta das sepulturas!
      - Nash, estou fazendo o possvel para me lembrar de que voc escreve para divertir as pessoas e que, certamente, tem direito a uma boa quantidade de licena 
potica.
      Ele tinha de beijar-lhe os dedos; Tinha, mesmo.
      - Ento voc no passa muito tempo em cemitrios.
      Ela reprimiu rapidamente a irritao, e uma fasca de desejo.
      - Vou aceitar o fato de que voc no acredita no que eu sou. Mas no vou tolerar, absolutamente, ser considerada um motivo de riso.
      - No seja to intensa. - Nash afastou-lhe os cabelos dos ombros e fez uma leve massagem em sua nuca. - Eu admito que, normalmente, realizo esta tarefa um 
pouco melhor. Diabos, agentei doze horas de entrevistas com aquele romeno maluco que jurava ser um vampiro. No tinha nem um espelho na casa. Obrigou-me a usar 
um crucifixo o tempo todo, sem mencionar o alho - Nash lembrou, com uma careta. - De qualquer forma, no tive nenhum problema em agrad-lo, e ele acabou se revelando 
uma arca do tesouro em matria de informaes. Mas, voc...
      - Mas eu... - Morgana incitou-o, fazendo o possvel para ignorar o fato de que ele formava uma trilha de fogo em seu brao com a mesma percia e sensualidade 
com que afagara Luna.
      - Acontece que eu no acredito, Morgana. Voc  uma mulher forte e inteligente. Tem estilo e bom gosto, sem mencionar o perfume delicioso. No posso simplesmente 
fingir que acredito que voc acredita nisso tudo.
      O sangue comeava a ferver nas veias de Morgana. Ela no iria, no poderia, tolerar o fato de que ele era capaz de enfurec-la e seduzi-la ao mesmo tempo.
      - E assim que voc consegue o que quer? Fingindo?
      - Quando uma senhora de noventa e dois anos me conta que seu amante morreu com um tiro, em 1922, porque era um lobisomem, no vou cham-la de mentirosa. Vou 
pensar que ela  uma tremenda contadora de histrias ou ento que de fato acredita no que est dizendo. Qualquer uma dessas coisas est bem, para mim.
      - contanto que voc obtenha um bom roteiro para seu filme.
      - E disso que eu vivo. Iluses. E no faz mal a ningum.
      - Ah, tenho certeza que no, no quando voc vai embora, depois bebe uns drinques com os amigos e d boas risadas ao falar sobre a luntica que entrevistou. 
- Os olhos dela flamejavam. - Tente fazer isso comigo, Nash, e acabar com verrugas na lngua.
      Vendo que ela estava realmente zangada, Nash engoliu o sorriso.
      - O que estou querendo dizer  que eu sei que voc tem muitas informaes, muitos fatos e lendas, e que  exatamente isso que estou procurando. Calculo que 
esta reputao de feiticeira que voc construiu provavelmente aumenta em cinqenta por cento as vendas da sua loja.  um belo atrativo. Mas no precisa fazer este 
jogo comigo.
      - Voc acha que finjo ser uma feiticeira apenas para aumentar as vendas da loja. - Morgana comeou a levantar-se devagar, temendo que, se ficasse muito prxima 
dele, poderia causar-lhe algum dano fsico.
      - Eu no... Ei! - Nash deu um pulo, quando Luna cravou as unhas em suas coxas.
      Morgana e a gata trocaram um olhar de aprovao.
      - Voc entra em minha casa e tem a coragem de me chamar de charlat, mentirosa e ladra.
      - No. - Ele desvencilhou-se da gata e ficou de p. No foi essa minha inteno, absolutamente. Quis apenas dizer que voc pode ser sincera e direta comigo.
      - Sincera e direta com voc.
      Ela andou de um lado para outro da sala, tentando em vo recuperar o controle. Por um lado ele a seduzia contra sua vontade e, por outro, zombava dela. Pensava 
que ela fosse uma fraude. Ora, aquele idiota insolente tinha sorte por ela no t-lo deixado zurrando e com um par de orelhas de meio metro! Sorrindo maliciosamente, 
ela virou-se.
      - Quer que eu seja sincera com voc, Nash?
      O sorriso deixou-o aliviado, mas s um pouco. Nash receara que ela comeasse a lhe atirar coisas.
      - S quero que voc saiba que pode relaxar. Voc me fornece os dados, e eu cuido da fico.
      - Relaxar... - ela repetiu, assentindo. -  uma boa idia.
      Ns dois devamos relaxar. - Seus olhos reluziam quando deu um passo na direo dele. - Que tal acendermos a lareira?
      No h nada como um fogo acolhedor, para ajudar a relaxar.
      - Boa idia. - E, sem dvida, muito sexy. - Vou acender o fogo.
      - Ah, no. - Morgana pousou a mo no brao dele. Pode deixar que eu fao isso. I Ela girou o corpo, estendendo os dois braos na direo da lareira. Sentiu 
a sabedoria, fresca e lmpida, percorrer-lhe o sangue. Era uma habilidade milenar, a primeira a ser dominada e a ltima a se perder com a idade. Seus olhos, e depois 
a mente, focalizaram-se na lenha seca. No instante seguinte, as chamas irromperam com um rugido, as toras de madeira lanaram fascas, a fumaa ergueu-se no ar.
      Satisfeita, ela abafou o fogo, de forma a transform-lo em brasas vivas e acolhedoras.
      Baixando os braos, voltou-se para Nash. Ficou feliz ao ver que ele no apenas estava branco como papel, mas tambm que ainda no conseguira fechar a boca.
      - Melhorou? - Morgana perguntou com doura.
      Nash sentou em cima da gata. Luna miou um protesto e escapuliu, apesar das desculpas murmuradas.
      - Eu acho que...
      - Parece que voc est precisando de uma bebida. Com um giro rpido, Morgana estendeu a mo. Uma garrafa de cristal levantou vo de uma mesa a cinco metros 
de distncia e foi aterrisar em sua palma. - Conhaque?
      - No. - Ele emitiu um profundo suspiro. - Obrigado.
      - Pois acho que eu quero. - Morgana estalou os dedos.
      Uma taa de conhaque flutuou no ar e permaneceu suspensa, enquanto ela servia a bebida. Estava exibindo-se, ela sabia, mas isso lhe dava uma imensa satisfao. 
- Tem certeza de que no quer um pouco?
      - Tenho.
      Encolhendo os ombros, ela enviou a garrafa de volta para a mesa. O cristal fez um leve rudo contra a madeira, quando pousou.
      - Agora - ela disse, enroscando-se no sof ao lado dele.
      - Onde estvamos, mesmo?
      Alucinao, Nash pensou. Hipnotismo. Abriu a boca, mas s conseguiu gaguejar. Morgana continuava sorrindo, aquele leve sorriso felino. Efeitos especiais. De 
repente, tudo ficou to claro que ele riu da prpria estupidez.
      - Deve haver um fio por aqui - ele disse, levantando-se para verificar por si mesmo. - Foi um belo truque, benzinho.
      De primeira. Por um minuto, voc chegou a me enganar.
      - E mesmo? - ela murmurou.
      - Contratei uma empresa especializada em efeitos especiais para ajudar-me a montar uma festa, no ano passado.
      Voc devia ver as coisas que eles conseguiram fazer.
      Nash pegou a garrafa de cristal, procurando algum tipo de mecanismo engenhoso. Mas tudo o que viu foi antigo cristal irlands e madeira. Encolhendo os ombros, 
foi at a lareira e abaixou-se. Desconfiava que ela tivesse um aparelho pequeno instalado sob a lenha, algo que pudesse acender com um tipo de controle remoto minsculo 
escondido na mo. Subitamente inspirado, levantou-se de um pulo.
      - O que acha disso? Ns trazemos um sujeito para a cidade. Ele  um cientista e se apaixona por nossa herona depois enlouquece tentando explicar tudo o que 
ela faz. Tentando tornar lgico. - A mente de Nash disparava. - Talvez ele se infiltre em uma das cerimnias dela. Voc j participou de alguma cerimnia?
      Morgana havia exorcizado a fria e, em seu lugar, achava apenas graa.
      - Naturalmente.
      - timo. Ento poder me dar os detalhes. Faramos o sujeito v-la realizar algo extraordinrio, como levitar, por exemplo. Ou este truque do fogo, foi muito 
bom. Podamos ter uma fogueira, que ela acende sem usar nenhum fsforo. Mas ele no tem certeza se trata-se de um truque, ou se  real. E a platia tambm no sabe.
      Ela deixou que o conhaque a aquecesse por dentro. Os arroubos de raiva eram to cansativos.
      - Qual  o objetivo da histria?
      - Alm de provocar calafrios e sustos, acho que se trata de saber se esse sujeito, um sujeito normal, consegue lidar com o fato de que est apaixonado por 
uma feiticeira.
      Subitamente triste, Morgana olhou dentro do copo.
      - Voc poderia perguntar-se se uma feiticeira  capaz de lidar com o fato de que est apaixonada por um homem comum.
      -  exatamente por isso que preciso de voc. - Nash aproximou-se devagar, sentando -o lado dela. - No somente o ponto de vista da feiticeira, mas da mulher, 
tambm. - Novamente confortvel, ele deu uma palmadinha no joelho dela. - Agora, vamos falar sobre feitios e feitiarias.
      Balanando a cabea, ela deixou o copo na mesa e riu.
      - Tudo bem, Nash. Vamos falar sobre magia.
      
      CAPTULO 4
      
      Ele no se sentia solitrio. E como poderia, se passara horas daquele dia absorto em seus livros, estimulando a mente e a alma com fatos e fantasias? Desde 
a infncia Nash aprendera a contentar-se com sua prpria companhia. O que comeara como uma necessidade para sobreviver, agora se tornara um estilo de vida.
      O tempo que havia passado com sua av ou com sua tia ou nas suas estadias espordicas em lares adotivos, ensinou-lhe que ele estaria em melhor situao se 
criasse suas prprias distraes, do que se esperasse que estas lhe fossem oferecidas pelos adultos que o cercavam. Com muita freqncia, a recompensa por tais distraes 
significara tarefas a mais, um sermo, ficar de castigo no quarto ou, no caso de sua av, uma palmada rpida e certeira.
      Desde que nunca lhe fora permitido uma abundncia de brinquedos ou de companheiros de brincadeiras, Nash transformara sua mente num brinquedo especialmente 
interessante.
      Muitas vezes ele pensava que isso lhe dava uma vantagem sobre as crianas mais favorecidas. Afinal, a imaginao era porttil, inquebrvel e admiravelmente 
malevel. No podia ser tirada dele de repente por um adulto irritado quando alguma infrao era cometida. E no precisava ser deixada para trs, quando ele era 
despachado para qualquer outro lugar.
      Agora que Nash podia comprar tudo o que quisesse, e ele estava entre os primeiros a admitir que os brinquedos para adultos eram uma fonte de entretenimento 
sensacional ainda satisfazia-se com a fluidez de sua imaginao. 
      Com todo prazer, era capaz de bloquear o mundo real e as pessoas reais durante horas a fio. Isso no significava que estivesse sozinho, no corri todos os 
personagens e acontecimentos precipitando-se em sua mente. A imaginao sempre fora sua melhor companhia, e se ocasionalmente aceitava convites e entregava-se a 
festas, reunies e bebedeiras, era mais para obter material para suas fantasias do que para compensar aqueles tempos de solido.
      Mas sentir-se solitrio? No, isso era um absurdo.
      Ele tinha amigos, agora, tinha controle do seu prprio destino. Dependia dele, e apenas dele, a deciso de ficar ou ir embora. Deliciava-se com o fato de ter 
aquela casa enorme somente para si. Podia comer quando estivesse com fome, dormir quando estivesse cansado, jogar as roupas onde quisesse. Muitos de seus amigos 
e colegas tinham casamentos infelizes, ou haviam passado por divrcios amargos, e desperdiavam muito tempo e energia reclamando de seus parceiros.
      Mas no Nash Kirkland.
      Ele era um homem solteiro. Um solteiro livre e despreocupado. Um lobo solitrio, feliz como um passarinho.
      E afinal, ele pensou, o que tornava um passarinho to malditamente feliz?
      Nash sabia o que o fazia feliz. Ser capaz de abrir o laptop na mesa do terrao e trabalhar sentindo o sol e o ar fresco, ouvindo o barulho das ondas ao fundo. 
Ser capaz de brincar com o roteiro de um novo filme sem precisar suar por causa de prazos, ou por polticas da empresa, ou por uma mulher que ficava  sua espera 
para exigir sua ateno e ench-la de repreenses.
      Ser que isso soava como o lamento de um homem solitrio?
      Nash sabia que nunca fora talhado para um emprego convencional, ou para um relacionamento convencional. E, Deus era testemunha, sua av lhe dissera vezes sem 
conta que ele jamais seria capaz de realizar qualquer coisa nem remotamente respeitvel. E mencionara, mais de uma vez, que nenhuma mulher decente, com um pingo 
de juzo que fosse, o aceitaria.
      Nash duvidava que aquela mulher rgida e implacvel considerasse suas histrias de ocultismo barato remotamente respeitveis. E, se ela ainda estivesse viva, 
com certeza torceria o nariz e assentiria a cabea presunosamente diante do fato de que ele chegara aos trinta anos sem se casar.
      No entanto, ele at fizera tentativas neste sentido. Sua breve e terrvel experincia como escriturrio numa empresa de seguros em Kansas City provara que 
ele jamais se encaixaria no esquema de trabalho em escritrio. E sem dvida, sua ltima e desastrada tentativa de manter um relacionamento srio provara que ele 
no se adequava s exigncias da convivncia permanente com uma mulher.
      Conforme sua ex-amante, DeeDee Driscol, lhe dissera ao por um fim no romance entre eles, ele era... Como fora mesmo que ele havia dito? "Voc no passa de 
um garotinho egosta, emocionalmente retardado. Acha que, s porque  bom na cama, pode comportar-se irresponsavelmente fora dela. Prefere brincar com seus monstros 
a ter um relacionamento srio e maduro com uma mulher." 
      E ela dissera muito mais, Nash lembrava-se. Na verdade no podia culp-la por lhe jogar na cara a sua irresponsabilidade. Nem o cinzeiro de mrmore, por falar 
nisso. Ele a decepcionara. No era, como ela havia esperado, o tipo de sujeito talhado para o casamento. E, no importava o quanto ela tentasse transform-lo e emend-lo 
no decorrer daqueles seis meses que estiveram juntos, ele simplesmente no correspondia s suas expectativas.
      Agora, DeeDee estava prestes a se casar com um cirurgio dentista. Nash esperava que no fosse maldade demais achar graa na idia de que um dente do ciso 
inflamado acabasse resultando em flores de laranjeira.
      Antes ele do que eu pensou, em relao ao annimo dentista. DeeDee era uma mulher inteligente e simptica, com um corpinho aconchegante e um sorriso sensacional. 
E capaz de atirar cinzeiros com a fora de um jogador de beisebol se devidamente provocada.
      Certamente no se sentia solitrio ao pensar em DeeDee seguindo a longa e escorregadia trilha rumo ao altar. 
      Ele era dono de si mesmo, freqentador de lugares sofisticados, descompromissado, desimpedido e contente como um polichinelo. Fosse l o que fosse que isso 
significasse.
      Ento, por que ficava perambulando por aquela casa enorme como se fosse a ltima clula viva num corpo agonizante?
      E, muito mais importante, por que havia ameaado pegar o telefone umas dez vezes, querendo ligar para Morgana? 
      No tinham trabalho marcado para aquela noite. Ela havia sido muito firme quando lhe concedera apenas duas noites por semana. E Nash tinha de admitir que, 
depois que superaram aqueles difceis obstculos iniciais, passaram a se relacionar de maneira bem fcil. Contanto que ele tomasse cuidado com o sarcasmo.
      Morgana possua um timo senso de humor, e um bom senso dramtico, o que era excelente, desde que eram as duas coisas que ele desejava para sua histria. No 
era exatamente um sacrifcio passar umas poucas horas por semana na companhia dela. Verdade, Morgana era categrica ao insistir que era uma feiticeira, mas isso 
apenas tornava tudo mais interessante. Nash quase ficara desapontado quando ela desistira das exibies daqueles efeitos especiais.
      Ele estivera exercitando um admirvel controle em manter as mos longe dela. Isto , na maior parte do tempo. Nash no achava que lhe tocar os dedos, ou brincar 
com seus cabelos, realmente contava. No quando tinha de resistir queles lbios macios, tentadores, quela nuca convidativa, aos seios perfeitos, adorveis...
      Interrompeu o curso de tais pensamentos, ansiando por ter algo mais satisfatrio para chutar do que o brao do sof.
      Era perfeitamente normal desejar uma mulher. Diabos, era at agradvel imaginar como seria enroscar-se nos lenis com ela. Mas o jeito que sua mente insistia 
em voltar-se na direo de Morgana em todas as horas do dia e da noite, prejudicando seu trabalho neste processo, estava bem prximo de se tornar uma obsesso.
      Estava na hora de recuperar o controle.
      No que ele tivesse perdido o controle, lembrou a si mesmo. Estava se comportando como um santo. Mesmo quando ela abria-lhe a porta usando aqueles shorts desfiados 
e desbotados, uma de suas grandes fraquezas, ele fazia o possvel para sufocar seus instintos mais bsicos. Talvez fosse baixeza admitir que este raciocnio tinha 
menos a ver com altrusmo do que com autopreservao. Um envolvimento pessoal com ela acabaria estragando o profissional. De qualquer forma, uma mulher capaz de 
nocaute-lo com um nico beijo certamente merecia ser tratada com muita cautela. 
      E Nash tinha o pressentimento que aquele tipo de nocaute seria bem mais fatal do que a pontaria certeira de DeeDee.
      Ainda assim, queria ligar para ela, ouvir sua voz, perguntar se poderia v-la por apenas uma ou duas horas.
      Diabos, ele no se sentia solitrio. Ou, pelo menos, no se sentira antes de desligar o computador e seu crebro cansado e ter sado para uma caminhada na 
praia. Todas as pessoas que havia visto ali, as famlias, os casais, os grupinhos de amigos... e ele sozinho, observando o sol desaparecer no mar, ansiando por algo 
que no tinha certeza se realmente queria. Algo que, se tivesse, no saberia como lidar.
      Algumas pessoas no nasciam para ter famlias. Isso Nash sabia por experincia prpria. E, muito tempo atrs decidira evitar cometer o mesmo erro, poupando 
assim alguma criana sem nome e sem rosto do peso de um pai inadequado.
      No entanto, o fato de ficar ali sozinho, observando aquelas famlias, o deixara inquieto e tornara sua casa grande e vazia demais. Fizera com que desejasse 
ter Morgana ao seu lado, para que pudessem caminhar de mos dadas pela praia. Ou sentar num tronco abandonado na areia, abraadinhos, enquanto viam as primeiras 
estrelas surgindo no cu.
      Resmungando uma praga, Nash pegou o telefone e discou o nmero do telefone dela. O que iria dizer?  perguntou-se."Queria apenas falar com voc. Preciso v-la. 
No consigo parar de pensar em voc."
      Balanando a cabea, colocou o fone no lugar e andou novamente de um lado para outro da sala. As belas e sombrias mscaras traz idas da Oceania fitavam-no 
de seus lugares nas paredes. Nas estantes mais baixas, os punhais afiados com os cabos ornamentados reluziam sob a luz. Para aliviar a tenso, Nash pegou um boneco 
de vodu e enfiou um alfinete em seu corao.
      - Experimente isso, idiota.
      Jogou o boneco para longe, enfiou as mos nos bolsos e decidiu que j estava na hora de sair daquela casa. Que diabos, iria ao cinema.
      
      -  a sua vez de comprar os ingressos - Morgana disse a Sebastian, com toda pacincia. -- Minha vez de comprar as pipocas, e a de Ana escolher o filme.
      Sebastian fez um gesto de desprezo, enquanto seguiam pela calada da Cannery Row.
      - Eu comprei os ingressos na ltima vez.
      - No foi, no.
      Anastsia sorriu quando o primo voltou-se para ela em busca de ajuda, mas balanou a cabea.
      - Fui eu que comprei na ltima vez - confirmou. Voc s est tentando safar-se novamente.
      - Safar-me? - Ofendido, ele parou no meio da calada.
      - Que palavra mais desagradvel! E lembro-me muito bem que...
      - O que quiser lembrar - Anastsia concluiu a frase, enfiando o brao sob o dele. - Desista, primo. No vou lhe dar a minha vez.
      Sebastian resmungou alguma coisa, mas recomeou a andar, levando Morgana por um brao e Anastsia no outro. Estava querendo muito assistir o mais novo filme 
de Schwarzenegger, e receava que Ana fosse escolher a melosa comdia romntica que estava sendo exibida na sala dois. No que no gostasse de romances, mas ouvira 
dizer que Arnold havia se superado naquele filme, salvando todo o planeta de um grupo de cruis e dissimulados extraterrestres.
      - No precisa ficar emburrado - Morgana falou, animada. - Voc escolhe o filme na prxima vez.
      Ela gostava daquele acordo. Sempre que estavam dispostos, e quando tinham tempo, os trs primos iam juntos ao cinema. Muitos anos de brigas, temperamentos 
alterados e noites arruinadas haviam resultado no sistema que usavam atualmente. No era  prova de falhas, mas normalmente evitava uma discusso acalorada na bilheteria 
do cinema.
      - E no  justo tentar me influenciar - Anastsia acrescentou quando sentiu Sebastian entrando em sua mente.
      - Eu j decidi.
      - S estou querendo evitar que voc desperdice meu dinheiro. - Resignado, Sebastian observou as pessoas que se reuniam a esmo na fila. Sentiu-se um pouco mais 
animado ao avistar o homem que vinha andando lentamente, na direo oposta. - Ora, ora - disse. - Que agradvel coincidncia.
      Morgana j havia visto Nash, e no tinha certeza se isso a deixava contente ou aborrecida. Estava conseguindo manter as coisas razoavelmente equilibradas, 
durante seus encontros. Nada de truques maldosos, decidira, considerando-se as fascas sensuais que pareciam encher o ar sempre que eles ficavam a um metro de distncia 
um do outro. 
      Era capaz de lidar com a situao, lembrou a si mesma e sorriu para Nash.  
      - Ol! Decretou seu prprio ponto facultativo?
      . O humor sombrio que o assolava desapareceu no mesmo instante. Morgana parecia um anjo pecador, os cabelos caindo em cascata pelos ombros, o vestido vermelho 
e curto colando-se a cada curva.
      - Mais ou menos. Gosto de assistir os filmes dos outros sempre que estou batalhando em um dos meus. - Embora exigisse um esforo desviar os olhos dos de Morgana, 
virou-se para Sebastian e Anastsia. - Oi, tudo bem?
      - E um prazer v-lo novamente. - Anastsia entrou na fila. - Engraado, mas a ltima vez que viemos os trs juntos ao cinema foi para ver um filme seu, o "Falsa 
Morte".
      - Ah, e mesmo?
      - Foi muito bom.
      - Como se ela soubesse - Sebastian intrometeu-se. - Ana passou os ltimos trinta minutos do filme com os olhos fechados.
      - Este  o maior dos elogios. - Nash acompanhou a fila Juntamente com eles. - Ento, o que vo assistir?
      . Anastcia enviou um olhar para Sebastian, enquanto ele tirava a carteira do bolso.
      - O filme de Schwarzenegger.
      - E mesmo? - Nash no fazia idia de por que Sebastian estava rindo, mas sorriu para Morgana. - Eu tambm.
      Nash viu que estava com sorte quando sentou ao lado de Morgana, na sala de projeo. No tinha nenhuma importncia o fato de j ter visto aquele filme na premire 
em Hollywood. Era bem provvel que o escolhesse, mesmo se no tivesse encontrado Morgana na fila. Era um tremendo filme, pelo que se lembrava. Rpido, com humor 
suficiente para equilibrar as cenas de violncia, junto com uma trama de suspense muito bem engendrada. E havia uma cena, em especial, que deixara a platia de celebridades 
eletrizada. Se a sorte continuasse lhe sorrindo, Morgana estaria agarradinha nele antes da metade do filme.
      As luzes diminuram, Morgana virou o rosto e sorriu para ele. Nash sentiu vrias clulas cerebrais derreterem-se e desejou que as sesses duplas ainda existissem 
nos cinemas.
      No curso normal dos acontecimentos, Nash daria o primeiro e longo passo para fora da realidade no instante em que o filme captasse sua imaginao. No havia 
nada que gostasse mais do que mergulhar na ao projetada na tela. Raramente importava se fosse a primeira vez que via o filme, ou se estaria visitando o velho amigo 
pela vigsima vez, ele sempre se sentia em casa, no cinema. Mas, naquela noite, no conseguia nem acompanhar a seqncia da aventura. .
      Estava ciente demais da mulher ao seu lado para desligar-se da realidade...
      As salas de cinema possuem um cheiro caracterstico. O aroma oleoso, mas no desagradvel, do que os vendedores descaradamente chamam de manteiga sobre a fragrncia 
da pipoca, o perfume penetrante dos caramelos, o odor adocicado dos refrigerantes respingados no cho. No entanto, por mais atraente que fossem, e Nash sempre os 
achava atraentes, no conseguiam superar a sonhadora sensualidade do perfume de Morgana. .
      A sala estava fria, quase glida. Nunca fizera muito sentido para ele porque o ar-condicionado era sempre to forte num lugar onde as pessoas ficavam sentadas 
e paradas por duas horas. Mas o perfume da pele de Morgana era quente, energizante, como se ela estivesse sentada sob um intenso raio de sol.
      Ela no prendeu o flego, no levou nenhum susto, nem se agarrou a ele, no importava quantos atos violentos os invasores ou o heri perpetravam na tela. Ao 
contrrio, mantinha os olhos fixos e atentos, pegando de vez em quando um punhado de pipocas no recipiente de plstico que se esvaziava rapidamente.
      Em determinado momento, ela realmente deixou escapar o ar por entre os dentes, e agarrou o brao do assento entre eles. Num gesto protetor, Nash cobriu-lhe 
a mo com a sua. Morgana no olhou na direo dele, mas virou a palma da mo para cima e entrelaou os dedos nos dele.
      No podia evitar, Morgana pensou. Afinal, no era feita de pedra. Era uma mulher de carne e osso, que achava o homem ao seu lado extremamente atraente. E delicado, 
que diabos. Havia algo de inegavelmente delicado em sentar no escuro do cinema e ficar de mos dadas.
      E que mal haveria nisso?
      Ela estava sendo muito cuidadosa quando estavam sozinhos, certificando-se de que as coisas no corressem depressa demais, ou numa direo que no fosse de 
sua escolha. No que tivesse de ficar repelindo os ataques dele pensou com uma pontinha de ressentimento. Nash no fizera a menor tentativa de abra-la ou beij-la 
novamente nem de seduzi-la de qualquer outra forma. 
      A no ser que considerasse o fato de que ele sempre parecia estar tocando-a, de um jeito distrado e amigvel. Um jeito que resultava em horas de inquietao, 
quando ia deitar-se depois de ele ir embora.
      Problema seu, disse a si mesma, tentando ignorar o longo e lento repuxo em seu estmago, enquanto Nash deslizava o dedo preguiosamente para cima e para baixo 
em sua mo.
      Mas o lado bom de tudo aquilo era que estava gostando de trabalhar com ele, ajudando-o em suas pesquisas. No apenas porque ele era uma companhia divertida 
com uma inteligncia e um talento que ela respeitava, mas tambm porque isso lhe dava a oportunidade de explicar o que era, a sua prpria maneira.
      E,  claro, Nash no acreditava em nem uma palavra.
      Mas isso no Importava, Morgana disse a si mesma, e parou de prestar ateno ao filme quando o brao de Nash roou levemente no seu, provocando-lhe uma sensao 
de calor. Afinal, ele no precisava acreditar para absorver os conhecimentos dela e escrever uma boa histria. Embora isso a deixasse desapontada, num nvel profundo. 
Se ele acreditasse, e aceitasse, teria sido to confortante.
      Quando o mundo foi salvo e ,as luzes do cinema acenderam-se, Morgana retirou rapidamente a mo. No porque fosse desagradvel estar de mos dadas co- ele, 
mas no estava com disposio de arriscar-se a ouvir nenhum dos comentrios sarcsticos de Sebastian.
      - Uma excelente escolha, Ana - Sebastian falou para a prima.
      - Repita isso depois que meu corao voltar ao normal.
      Sebastian passou o brao em torno de seus ombros, enquanto seguiam devagar pelo corredor at a sada.
      - Ficou com medo?
      _  claro que no. - Ana recusava-se a admitir, dessa vez. - Ficar quase duas horas vendo aquele corpo maravilhoso, nu at a cintura,  o suficiente para deixar 
qualquer mulher com o corao disparado.
      Entraram no saguo iluminado e barulhento.
      _ Pizza! - Sebastian decidiu. Olhou rapidamente para Nash. - Est a fim de comer?
      _ Sempre estou a fim de comer.
      _ timo. - Sebastian abriu a porta e saram para a noite. - Voc paga Eles formavam um trio e tanto, Nash pensou enquanto os quatro devoravam fatias de pizza 
com queijo derretido:
      Discutiam sobre tudo, desde que tipo de pizza pedir at qual dos ataques dos aliengenas tinha sido mais eficaz, no filme que acabaram de assistir. Reparou 
que Morgana e Sebastian gostavam de provocar-se mutuamente tanto quanto estavam gostando da refeio, com Anastcia intercedendo de vez em quando, no papel de rbitro.
      Era bvio que o lao entre eles era muito profundo, pois sob todas as reclamaes, queixas e provocaes havia um afeto indiscutvel.
      Quando Morgana disse a Sebastian "No seja idiota amor", Nash sentiu que, para ela, tanto a palavra idiota como a palavra "amor" continham o mesmo peso. Ouvindo 
a conversa, Nash tentou combater aquela leve punhalada de inveja que sentira quando estava na praia, ao entardecer.
      Cada um deles era filho nico, como ele. No entanto no eram como ele, sozinho.
      Anastsia virou-se, encarando-o. Algo refulgiu em seus olhos por um instante, to semelhante  simpatia que Nash sentiu uma onda de vergonha. Mas isso logo 
desapareceu, e ele concluiu que ela era apenas uma mulher adorvel, com um sorriso fcil.
      - Eles no tm inteno de ser assim to grosseiros ela falou, sorridente. - Apenas no conseguem evitar.
      - Grosseira? - Com os cabelos presos atrs das orelhas, Morgana girou o copo de vinho tinto. - No  grosseria apontar os defeitos de Sebastian. No quando 
eles so to evidentes. - Deu uma palmada na mo do primo, afastando-a do pedao de pizza em seu prato. - Est vendo? falou para Nash. - Ele sempre foi assim, ganancioso.
      - Generoso em demasia - Sebastian discordou.
      - Convencido - ela retrucou, fazendo uma careta para o primo, enquanto cortava um belo pedao de pizza. - Mal humorado.
      - Mentiras! - Pegando o copo de vinho, Sebastian recostou na cadeira. - Sou invejavelmente bem-humorado.
      E voc quem sempre tem os ataques de raiva. Certo, Ana?
      - Bem, na verdade vocs dois...
      - Nem a maturidade foi capaz de corrigir isso - Sebastian interrompeu. - Quando Morgana era criana, se no conseguia ter o que queria comeava a gritar como 
uma desvairada, ou ficava emburrada num canto. O controle nunca foi seu ponto forte.
      - Detesto ter de salientar - Anastsia falou, - mas pelo menos na metade das vezes em que Morgana tinha estes "ataques", era voc quem provocava.
      - E claro. - Impenitente, Sebastian deu de ombros.
      - Era to fcil. - Piscou o olho para Morgana. - E continua sendo.
      - Eu nunca deveria t-lo deixado descer do teto, anos atrs. Nash ia beber o vinho, mas parou em meio ao gesto.
      - O que foi que disse?
      - Uma travessura particularmente maldosa.- Sebastian explicou. At hoje se aborrecia com o fato de a prima ter levado a melhor.
      - Que voc mereceu. - Morgana bebericou o vinho. Ainda nem sei se j o perdoei por aquilo.
      Anastsia foi obrigada a concordar.
      - O que voc fez foi muito feio,Sebastian.
      Vendo-se em minoria, Sebastian relaxou um pouco. E pde at, com algum esforo, extrair um certo humor do acontecimento passado.
      - Eu tinha apenas onze anos. Garotos desta idade tm o direito de fazer pequenas maldades. Alm disso, nem era uma cobra de verdade.
      Morgana torceu o nariz.
      - Parecia verdadeira.
      Rindo baixinho, Sebastian inclinou-se para frente a fim de contar o caso a Nash.
      - Estvamos todos na casa de tia Bryna e tio Matthew para comemorar o incio da primavera, no dia primeiro de maio. Eu admito que estava sempre procurando 
um jeito de irritar a nossa "pestinha" aqui, e sabia que ela tinha pavor de cobras.
      -  bem prprio de voc aproveitar-se de uma pequena fobia - Morgana resmungou.
      - O problema era que a garota no tinha medo de nada... exceto por cobras. - Os olhos de Sebastian, trigueiros como os de um gato, reluziram com bom humor. 
- Ento, j que garotos so sempre garotos, eu deixei uma cobra de borracha bem no meio da cama dela, enquanto ela estava ali deitada,  claro.
      Nash no conseguiu reprimir um sorriso, mas felizmente conseguiu transformar a risada num acesso de tosse, quando viu o olhar ameaador de Morgana.
      - No parece to terrvel assim.
      - Ele fez a cobra sibilar e sacudir-se - Ana intercedeu, mordendo o lbio para tambm conter o riso.
      Sebastian suspirou com nostalgia.
      - Trabalhei naquele encantamento durante semanas. A magia nunca foi meu ponto forte, portanto foi uma tentativa um tanto deplorvel, no fim das contas. Ainda 
assim... Olhou de soslaio para Morgana. - Funcionou.
      Nash descobriu que no tinha absolutamente nenhum comentrio a fazer: Ao que parecia, ele no estava sentado na mesa com trs pessoas muito sensatas, afinal.
      - Ento, depois que parei de gritar e vi que na verdade se tratava de um feitio muito malfeito, mandei Sebastian para o teto do quarto e deixei-o pendurado 
ali, de cabea para baixo. - Havia um misto de orgulho e satisfao na voz de Morgana. - Por quanto tempo voc ficou l, querido?
      - Duas terrveis horas.
      Ela sorriu.
      - E ainda estaria, se minha me no o encontrasse e me obrigasse a faz-lo descer.
      - Pelo restante daquele vero - Anastsia acrescentou, - vocs dois ficaram tentando se superar, e sempre acabavam encrencados.
      Sebastian e Morgana trocaram um sorriso. Depois, Morgana inclinou a cabea e enviou um olhar penetrante para Nash. Podia at ouvir as engrenagens do crebro 
dele movimentando-se.
      - Tem certeza de que no quer um pouco de vinho? _ perguntou.
      - No, obrigado, eu vou dirigir. - Tudo aquilo fora uma encenao para engan-lo, compreendeu de repente, enviando um leve sorriso para Morgana. Mas, por que 
se importaria? Isso fazia com que participasse do grupinho e lhe fornecia novos ngulos para a histria. - Quer dizer que vocs, ahn... pregavam muitas peas uns 
nos outros, quando eram crianas?
      - Quando se tem determinados talentos,  difcil contentar-se com brincadeiras comuns.
      - Mas fosse qual fosse a brincadeira - Sebastian falou para Morgana, - voc sempre trapaceava.
      - Ora,  claro que sim. - Sem ofender-se, Morgana passou-lhe o que sobrara de sua pizza. - Eu gosto de vencer. Est ficando tarde. - Levantou-se para beijar 
cada um dos primos no rosto. - Ser que pode me levar para casa, Nash?
      - E claro. - Era exatamente isso que ele tinha em mente.
      - Tenha cuidado, Kirkland - Sebastian avisou, indo- lente. - Ela gosta de brincar com fogo.
      - J percebi. - Nash pegou a mo de Morgana e os dois afastaram-se.
      Anastsia emitiu um leve suspiro e apoiou o queixo nas mos.
      - Com tantas fascas acendendo-se entre os dois a noite inteira, fico admirada por no termos uma fogueira acesa bem aqui nesta mesa.
      - Haver chamas em breve. -Os olhos de Sebastian ficaram sombrios, tornando-se fixos e quase opacos. - Quer ela goste ou no.
      Imediatamente preocupada, Ana pousou a mo na dele.
      - Mas vai ficar tudo bem com ela, no ?
      Sebastian no estava vendo com tanta clareza como gostaria. Era sempre mais difcil com a famlia, e especialmente com Morgana.
      - Ela acabar com alguns "galos" e arranhes. - E ele sentia por isso. Ento, seus olhos clarearam e o sorriso tranqilo voltou ao seu rosto. - Ela vai superar, 
Ana. Como ela mesma disse, gosta de vencer.
      Morgana no estava pensando em batalhas ou vitrias, mas sim na sensao do ar frio e sedoso batendo contra seu rosto. Reclinando a cabea, olhou para o cu 
escuro, assombrado por uma meia-lua e deslumbrado pelas estrelas.
      Era fcil desfrutar daquele momento. O carro veloz e aberto na estrada sinuosa, o luar sombrio e o vento cheirando a mar. E era. fcil ter prazer ao lado dele, 
daquele homem que dirigia com uma habilidade natural e confiante, que ligara o rdio alto demais, que exalava o perfume da noite e de todos os seus segredos.
      Virando a cabea, Morgana observou-lhe o perfil. Ah, ela bem que gostaria passar os dedos sobre o rosto anguloso, experimentando o formato dos ossos, roando 
um toque sobre os lbios bem desenhados, talvez sentindo a leve aspereza de seu queixo. Teria gostado disso, e muito.
      Ento, por que hesitava? Embora jamais tivesse sido promscua, nem tampouco considerasse cada homem atraente como um amante em potencial, Morgana reconhecia 
o profundo desejo de pertencer a ele. E de qualquer forma, conforme ela havia visto, isso no demoraria muito a acontecer.
      
      A estava sua resposta Morgana percebeu. Ela sempre se rebelaria contra ser um Joguete do destino.
       Mas certamente, se o escolhesse por si prpria, se mantivesse o poder em suas mos, no era o mesmo que ser levada pelo destino. Afinal, ela era dona de si 
      - Por que voc foi  cidade esta noite? - perguntou 
      - Estava um pouco inquieto. Cansado de mim.
       Ela. compreendia tal sentimento. No lhe ocorria com freqncia, mas quando acontecia era insuportvel.
      - O roteiro vai indo bem? 
      - Muito bem. Terei uma Terei uma sinopse para enviar ao meu agente em poucos dias.
      Nash olhou na direo dela, e imediatamente desejou no t-lo feito. Ela estava to linda, to sedutora, com o vento nos cabelos e o luar refletindo em sua 
pele, que ele no queria mais desviar os olhos... No era uma maneira muito sensata de se guiar um veculo.
      - Voc tem sido de grande ajuda.
      - Isso quer dizer que no precisa mais de mim?
      - No. Morgana, eu... .
      Ele interrompeu-se e praguejou baixinho, dando-se conta de que passara a entrada da casa dela s um instante depois. Deu marcha a r, fez a volta e parou, 
deixando o motor do carro ligado. por um momento ficou perdido em pensamentos, em silncio, olhando para a casa onde um nica janela estava iluminada por uma luz 
dourada, e as outras escuras  como breu.algo 
      Se Morgana o convidasse para entrar ele iria, teria de ir. Algo estava acontecendo naquela noite. Algo estivera acontecendo desde o instante em que ele se 
virara e fitara os olhos dela. Isso lhe  dava a sensao perturbadora de ter entrado no roteiro de outra pessoa, cujo final ainda estava para ser escrito.
      - Est mesmo inquieto - ela murmurou  - No combina com voc.
      Num impulso, Morgana estendeu a mo e desligou a chave do motor. A ausncia do rudo montono fez com que o silncio ressoasse na cabea de Nash. Seus corpos 
se roaram, e a promessa de mais provocou um calor em seu estmago.
      - Sabe o que gosto de fazer, quando estou me sentindo assim?
      A voz dela estava mais baixa, e agora parecia lquida o bastante para percorrer a pele dele como um vinho fragrante. Ele virou-se e deparou com aqueles vvidos 
olhos azuis reluzindo sob a luz da lua. E suas mos j se estendiam para ela.
      - O qu?
      Morgana se afastou, escorregando das mos dele como um esprito. Depois de abrir a porta do carro, foi andando lentamente para o lado dele e abaixou-se at 
que seus lbios quase se tocassem.
      - Eu fao uma caminhada. - Com os olhos ainda fixos nos dele, endireitou-se e estendeu-lhe a mo. - Venha comigo. Vou lhe mostrar um lugar mgico.
      Nash poderia ter recusado. Mas sabia que o homem que no sasse do carro e tomasse a mo que lhe era oferecida ainda no nascera.
      Atravessaram o gramado, afastando-se da casa onde a nica luz reluzia, e penetraram nas sombras msticas e no silncio murmurante do bosque de ciprestes. O 
luar adejava por entre as rvores, desenhando estranhas figuras com os galhos retorcidos no cho macio da floresta. Uma brisa muito leve sussurrava atravs das folhas 
e o fez pensar na harpa que Morgana tinha na saleta de estar.
      A mo dela estava quente e firme na sua, enquanto seguia em frente, sem pressa, mas com determinao. .
      - Eu gosto da noite. - Morgana respirou fundo. - Do perfume e do sabor da noite. s vezes acordo de madrugada e venho para c.
      Nash ouvia o barulho das ondas nas rochas, um som constante e rtmico. Por motivos que nem queria compreender, seu prprio corao retumbava inexoravelmente 
no peito.
      Alguma coisa estava acontecendo.
      - As rvores. - Nash achou que at o som de sua voz parecia estranho e misterioso no bosque sombrio. - Eu me apaixonei por elas.
      Morgana parou de andar e fitou-o, curiosa.
      - E mesmo?
      - Eu estive aqui de frias, no ano passado. Queria fugir do calor. E no me cansava de olhar para as rvores. - Encostou a mo numa delas, sentindo a spera 
casca do tronco que se inclinava dramaticamente para frente. - Nunca fui muito chegado  natureza. Sempre morei em cidades grandes, ou prximo a elas. Mas soube 
que teria de viver num lugar onde pudesse olhar pela janela e ver estas rvores.
      - As vezes voltamos para o lugar a que pertencemos. - Morgana recomeou a andar, os passos silenciosos na terra fofa. - Algumas seitas antigas idolatravam 
rvores como estas. -Ela sorriu. - Mas acho que j seja o bastante am-las, apreci-las pela idade que tm, pela sua beleza e tenacidade. Aqui. - Parou novamente 
e virou-se para ele. - Aqui  o centro, o corao. A magia mais pura sempre est no corao.
      Nash no saberia dizer porque compreendia, ou porque acreditava- Talvez fosse por causa da lua, ou do momento. Sabia apenas que sentia um arrepio percorr-lo, 
a mente flutuando. E, em algum lugar no mais profundo de sua memria, soube que j estivera ali antes. Com ela.
      Erguendo a mo, tocou-lhe o rosto, deixando que os dedos deslizassem at o pescoo. Morgana no se moveu, nem para frente, nem para trs. Limitou-se a continuar 
olhando para ele. E esperou.
      - No sei se gosto do que est acontecendo comigo ele disse, em voz baixa.
      - O que est acontecendo?
      - Voc. - Incapaz de resistir, Nash levantou a outra mo e emoldurou-lhe o rosto, prendendo-o entre seus dedos tensos. - Eu sonho com voc. Mesmo durante o 
dia, sonho com voc. No consigo pensar em qualquer outra coisa. Simplesmente acontece.
      Morgana levou a mo at o pulso dele, querendo sentir as batidas fortes e vigorosas.
      - E  to ruim assim?
      - No sei. Sou um perito em evitar complicaes, Morgana. E no quero que isso mude.
      - Ento vamos manter tudo bem simples.
      Nash no teve certeza se foi ela quem se moveu, ou se foi ele, mas de alguma forma Morgana estava em seus braos, e sua boca sorvia a dela. Nenhum sonho jamais 
fora to arrebatador.
      A lngua de Morgana danava sob a dele, incitando-o a ir mais fundo, e depois ela recebeu-o com um gemido que fez o sangue fervilhar em suas veias. Finalmente 
ele tinha o prazer de provar a longa linha do pescoo de Morgana, deslizando a lngua sobre o pulsar que ali latejava, mordiscando a carne sensvel sob a mandbula 
at sentir o primeiro e rpido estremecimento perpass-la. Ento ele mergulhou mais profundamente, mais desesperadamente, quando seus lbios tornaram a se encontrar.
      Como ela podia pensar que teria alguma escolha, algum controle? O que eles estavam entregando um ao outro era to velho quanto o tempo, to novo quanto a primavera. 
      Se ao menos pudesse ser apenas prazer e nada mais, ela pensou debilmente enquanto as sensaes sobrepujavam sua fora de vontade. Mas mesmo quando seu corpo 
latejava com aquele prazer, ela sabia que aquilo era muito, muito mais.
      Nem uma vez, em seus anos como adulta, ela entregara seu corao. E no fora uma proteo egosta, mas sim porque ela sempre estivera a salvo. Mas agora, com 
a lua no cu, com as velhas e silenciosas rvores como testemunhas, ela entregou-o a ele.
      Seus braos tencionaram-se sob a dor aguda e penetrante.
      O nome dele escapou de seus lbios. Naquele momento, Morgana soube porque precisara lev-lo at ali, o seu lugar mais secreto e pessoal. Que lugar. seria mais 
adequado do que aquele, para perder seu corao?
      Ficou abraando-o por mais um instante, deixando seu corpo absorver o que ele poderia lhe dar, desejando ter honrado sua palavra de manter tudo bem simples.
      Porm, nada seria simples, a partir de agora. Para nenhum deles. Tudo o que podia fazer era aproveitar o tempo que ainda restava e preparar a ambos.
      Mas no momento em que ela deveria ter-se afastado, Nash puxou-a para si, tomando-lhe os lbios mais uma vez, e mais outra, enquanto imagens, sons e desejos 
turbilhonavam-lhe a mente.
      - Nash... - Morgana virou a cabea e roou a face carinhosamente na dele. - No pode ser agora.
      A voz baixa penetrou atravs dos bramidos que lhe enchiam a cabea. Nash foi tomado por uma necessidade urgente de atir-la no cho e possu-la naquele momento, 
provar que ela estava enganada. A sbita onda de violncia o assustou. Atnito, afrouxou o abrao, percebendo que seus dedos enterravam-se na pele dela.
      - Desculpe-me. - Ele soltou os braos ao longo do corpo. - Machuquei voc?
      - No. - Emocionada, Morgana beijou-lhe a mo. -  claro que no. No se preocupe.
      Mas ele s podia se preocupar. Nunca, em toda sua vida, tratara Uma mulher com indelicadeza. Havia quem dissesse que ele j agredira seus sentimentos e, se 
fosse verdade ele sentia muito. Mas ningum jamais poderia acus-lo de agredir fisicamente uma mulher.
      No entanto, ele quase a jogara no cho e tomara  fora o que to desesperadamente queria, sem pensar se ela aceitaria ou concordaria com isso.
      Abalado, enfiou as mos nos bolsos.
      - Eu estava certo, realmente no gosto do que est acontecendo. Esta  a segunda vez que a beijo, e a segunda vez que senti que era algo que precisava fazer. 
Da mesma forma que preciso respirar, comer ou dormir.
      Ela teria de ser muito cautelosa, agora.
      - O afeto  to necessrio para a sobrevivncia quanto respirar e comer.
      Nash duvidava, desde que passara a maior parte de sua vida sem isso. Observando-a, balanou a cabea.
      - Sabe de uma coisa, benzinho? Se eu acreditasse que voc  mesmo uma feiticeira, diria que estou enfeitiado.
      Morgana ficou surpresa ao perceber o quanto isso a magoava. Ah, no as palavras, mas sim a distncia que elas abriam entre eles. Por mais que tentasse, no 
conseguia lembrar-se de jamais ter sido magoada por um homem. Talvez fosse isso que significava amar. Das outras vezes ela havia protegido seu corao, mas agora 
ainda poderia faz-lo.
      - Ento, ainda bem que voc no acredita. Foi s um beijo, Nash - Ela sorriu esperando que as sombras ocultassem a tristeza em seus olhos. - No h nada a 
temer
      num beijo. 
      _ Eu quero voc. - A voz dele estava rouca, e as mos permaneciam nos bolsos. Havia nela um desamparo, mesclado com seu desejo. Talvez fosse isso que quase 
o levara  violncia. - Mas pode ser perigoso. .
      Morgana no tinha dvidas quanto a isso.
      _ Quando chegar a hora, vamos descobrir. Estou muito cansada, agora. Vou voltar para casa. 
      _ Dessa vez, quando caminhou atravs do bosque, ela no lhe ofereceu a mo.
      
      CAPTULO 5
      
      Morgana abrira as portas da Wicca pela primeira vez cinco anos e alguns meses antes daquele dia em que Nash as atravessara em busca de uma feiticeira. O sucesso 
da loja devia-se  insistncia de Morgana em fornecer produtos interessantes,  sua disposio de trabalhar duro, e ao seu sincero prazer pelo jogo do comrcio.
      Desde que sua famlia, por mais tempo do que algum poderia lembrar-se com' clareza, era financeiramente bem-sucedida, Morgana poderia ter se dedicado a uma 
srie de empreendimentos mais fteis enquanto sacava o dinheiro dos fundos de investimento. Sua deciso de tornar-se uma mulher de negcios fora bem simples. Ela 
era ambiciosa o bastante, e orgulhosa o suficiente, para desejar ganhar o prprio sustento.
      A escolha por uma loja como aquela fora atraente  Morgana porque lhe permitiria cercar-se de objetos dos quais gostava. Alm disso, desde a sua primeira venda, 
ela descobrira o prazer que sentia em passar estes objetos para outras pessoas que tambm os apreciavam.
      Havia claras vantagens em se possuir o prprio negcio. Um senso de realizao, o orgulho bsico de ser a proprietria, a constante variedade de pessoas que 
entravam e saam de sua vida. Mas sempre onde existe um lado bom, existe tambm o ruim. Se a proprietria for abenoada com um mnimo de senso de responsabilidade, 
 impossvel simplesmente fechar as portas e janelas quando estiver com vontade de ficar sozinha.
      Dentre os muitos dons de Morgana, havia um inegvel senso de responsabilidade.
      Naquele momento, desejava que seus pais tivessem permitido que ela se tornasse uma mulher frvola, displicente e egosta. Se o trabalho deles em cri-la no 
tivesse sido to bem-feito, Morgana realmente teria trancado a porta, pulado em seu carro e dirigido para longe, at que aquela terrvel melancolia melhorasse.
      No estava acostumada a sentir-se transtornada. E, certamente, no gostava da idia de que aquela sensao desagradvel fora provocada por um homem. Por tanto 
tempo quanto conseguia se lembrar, Morgana havia sido capaz de lidar com todos os integrantes do sexo masculino. Era, e ela sorriu com o pensamento, um dom. Mesmo 
quando criana fazia gato-sapato de seu pai e dos seus tios, conseguindo tudo o que queria graas a uma combinao de charme, culpa e obstinao.Sebastian fora um 
pouco mais difcil de dobrar, mas ela sentia que, pelo menos, estavam equilibrados.
      Quando chegou  adolescncia, aprendeu bem depressa como lidar com os rapazes. Que tcnicas utilizaria para demonstrar que estava interessada, ou as que usaria 
para mostrar que no estava. Com o passar dos anos, tudo se tornou uma questo de simplesmente aplicar as mesmas tcnicas, com sutis variaes, aos homens adultos.
      At agora. At Nash aparecer.
      Quando havia comeado a vacilar?, Morgana perguntou-se enquanto embrulhava um longo e fino frasco de leo de banho de ginseng para uma cliente. Quando foi 
que ela seguira aquele pequeno impulso de seu sexto sentido e cruzara aquela mesma sala para falar com ele pela primeira vez? Quando havia cedido ao lampejo de curiosidade 
e atrao, que a levara a beij-lo?
      Talvez tivesse dado seu primeiro. e mais srio passo em falso apenas na noite, anterior, quando se permitira ser guiada pela pura emoo. Quando o levara para 
o bosque, para o lugar onde o ar sussurrava e a lua transbordava.
      Jamais havia levado outro homem para l. E nunca mais levaria novamente.
      Ao menos, refletiu, ela quase poderia acreditar que foram o lugar e a noite que a fizeram pensar que estava apaixonada.
      
      No queria aceitar que uma coisa dessas pudesse lhe acontecer to depressa, ou deix-la com to poucas opes.
      Ela se recusaria a aceitar, e colocaria um ponto final naquilo.
      Morgana quase conseguiu ouvir os espritos rindo. Ignorando a sensao, foi at o balco atender outra cliente.
      Durante toda a manh o movimento foi lento, mas constante. Morgana no sabia se preferia aqueles dias em que os fregueses entravam sem parar, ou quando ela 
e Luna ficavam sozinhas na loja.
      - Acho que deveria culpar voc por tudo isso. - Morgana apoIOU os braos na mesa e inclinou-se at ficar frente a frente com a gata. - Se voc no tivesse 
se mostrado to amigvel, eu no teria presumido que ele era inofensivo.
      Luna limitou-se a mexer a cauda e fit-la com uma expresso inteligente.
      - Mas ele no  nem um pouco inofensivo - Morgana continuou.' - E agora  tarde demais para voltar atrs. Ah,  claro - disse quando Luna piscou, - eu podia 
dizer a ele que nosso acordo est encerrado, inventar desculpas para no v-lo mais. Isso se eu quisesse admitir que sou uma covarde. - Respirou fundo e recostou 
a testa na cabea do animal. - No sou covarde. - Luna ergueu a pata e roou-a no rosto dela. - No tente fazer as pazes. Se este caso fugir ainda mais do meu controle, 
a culpa  toda sua.
      Morgana olhou para cima quando a porta da loja se abriu. Esboou um sorriso de alvio, ao ver que era Mindy.
      - Ol! J so duas horas?
      - Quase. - Mindy guardou a bolsa atrs do balco. _ Ento, como vo as coisas?
      - Razoveis.
      - Estou vendo que voc vendeu aquela pea grande de quartzo rosa.
      - H mais ou menos uma hora. Ela ir para um bom lar, foi um jovem casal de Boston que comprou. Est l nos fundos, pronta para ser despachada.
      - Quer que eu cuide disto agora?
      - No, para falar a verdade estou precisando de uma folga aqui do balco. Eu fao isso, enquanto voc atende os clientes.
      - Tudo bem. Voc parece um pouco deprimida, Morgana.
      Ela arqueou a sobrancelha.
      - Acha mesmo?
      - Acho. Venha aqui, deixe a Madame Mindy dar uma olhada. - Pegando a mo de Morgana, perscrutou a palma com olhos duros como ao. - Ah, no tenho dvidas. 
Problemas com um homem.
      Apesar da exatido da afirmao, uma exatido muito irritante, alis, Morgana sorriu.
      - Detesto duvidar da sua percia na leitura de mo, Madame Mindy, mas voc sempre diz que o problema  com um homem.
      -Eu jogo com as probabilidades - Mindy salientou. Voc ficaria surpresa em saber quantas pessoas estendem a mo em minha direo, s porque trabalho para uma 
feiticeira.
      Intrigada, Morgana inclinou a cabea.
      - Imagino que ficaria, sim.
      - Bem, muitas delas tm receio de abord-la, ao passo que eu no represento um perigo real. Creio que pensam que seja algo contagioso, mas no o bastante para 
se preocuparem. Como pegar s um pouco de um resfriado, ou algo assim.
      Pela primeira vez em horas, Morgana teve vontade de rir.
      - Entendi. Mas suponho que ficariam desapontadas ao saber que eu no leio as mos.
      - Por mim  que no vo saber. - Mindy pegou um espelho enfeitado de jade e prata e checou a aparncia. Mas vou lhe dizer uma coisa, querida, no preciso ser 
uma cartomante para ver um homem alto, loiro, musculoso e com um olhar de matar. - Ajeitou um cachinho de cabelo no meio da testa, antes de voltar-se para Morgana. 
- Ele est lhe dando trabalho?
      - No. Nada com que eu no possa lidar.
      - Eles so fceis de lidar. - Depois de guardar o espelho, Mindy desembrulhou um tablete de goma de mascar. At a hora em que se tornam realmente importantes 
acrescentou, e depois lanou um sorriso para Morgana. Basta dizer e eu lhe preparo uma boa "interferncia".
      Morgana deu um tapinha no rosto de Mindy, com um sorriso divertido.
      - No, obrigada. Prefiro fazer do meu jeito.
      Sentindo-se um pouco mais animada, Morgana foi para a sala dos fundos. Ora, pensou, por que estava to preocupada? Ela podia mesmo lidar com aquilo. E o faria. 
Afinal, no conhecia Nash o suficiente para que ele fosse realmente importante.
      
      Ele tinha muito com que se ocupar, Nash disse a si mesmo. Muito. Estava deitado no sof, um sof enorme, com almofadas fofas e gastas que comprara numa loja 
de mveis usados por t-lo achado perfeito para cochilos no meio da tarde. Havia livros espalhados em seu colo e amontoados no cho. Do outro lado da sala, as agonias 
e sofrimentos patticos de uma novela ocupavam a tela da tev. Uma garrafa de refrigerante permanecia de planto na mesinha de centro atulhada, para o caso de ele 
querer saciar a sede.
      No cmodo ao lado, seu computador sobre a mesa parecia mergulhado em depresso profunda, pela falta de ateno.
      Nash achou que quase podia ouvi-lo gemer de tristeza.
      Mas no era como se no estivesse trabalhando. Com gestos lentos e preguiosos, ele arrancou uma folha de um bloco e comeou a dobr-la. Podia estar deitado 
no sof, podia ter passado a maior parte da manh olhando para o vazio. Mas estava pensando. Talvez estivesse com alguma dificuldade em escrever a sinopse; mas 
no que estivesse sofrendo de um bloqueio ou algo assim. Apenas precisava deixar as idias "cozinharem" por algum tempo.
      Fazendo a ltima dobra no papel, estreitou os olhos e atirou o aviozinho no ar. Para animar-se, acrescentou efeitos sonoros enquanto o avio de papel vacilava 
no espao e caa no cho, sobre uma pilha de outros modelos semelhantes.
      - Isso  sabotagem - ele resmungou. - Deve haver um espio na linha de montagem. - Virando-se numa posio mais confortvel, comeou a construir outro aviozinho, 
enquanto a mente divagava.
      Cena interior, dia. O enorme e ressoante hangar est deserto. Uma luz mortia penetra atravs da porta e projeta-se obliquamente sobre a carcaa prateada de 
um jato de bombardeio. Passos lentos aproximam-se. Conforme ficam mais prximos, percebe-se neles algo de familiar, algo feminino.
      Saltos pontiagudos batendo no piso de concreto. A mulher esgueira-se pela entrada, da luz para a sombra. A superfcie lustrosa e a aba cada de um chapu ocultam-lhe 
o rosto, mas no o corpo apertado no curto vestido de couro vermelho. Longas e bem torneadas pernas atravessam o piso do hangar.Numa das mos delicadas, ela traz 
uma pasta de couro preto.
      Depois de olhar vagarosamente  sua volta, dirige-se para o avio. A saia do vestido ergue-se na altura das coxas sedosas e brancas quando ela sobe na cabine. 
H determinao e eficincia em seus movimentos. Na maneira como desliza para o assento do piloto e abre o fecho da pasta de couro.
      Dentro da pasta est uma bomba, pequena e mortal, que ela esconde sob o painel de instrumentos. Ela comea a rir, um som quente, sedutor.
      A cmera aproxima-se de seu rosto.
      O rosto de Morgana.
      Praguejando, Nash atirou para o alto o aviozinho, que imediatamente caiu de ponta no cho. O que ele estava fazendo?, perguntou-se. Inventando histrias sobre 
ela. Entregando-se a um simbolismo barato. Pois, era bvio, Morgana entrara em sua cabine e provocara uma exploso. No havia motivos para passar o dia inteiro pensando 
nela.
      E precisava trabalhar, no precisava?
      Determinado a fazer exatamente isso, Nash virou no sof, derrubando os livros no cho. Desligou a tev com o controle remoto e depois pegou o que restava de 
seu bloco. Apertou o boto do gravador. Levou menos de cinco segundos para perceber seu erro, e tornou a desligar. No estava em condies de ouvir a voz de Morgana.
      Levantou-se, espalhando os livros no piso, e desviou-se deles. Sim, tudo bem, ele estava pensando. Estava pensando que tinha de sair daquela casa. E sabia 
exatamente para onde queria ir.
      A escolha era sua, assegurou-se enquanto pegava a chave do carro. Estava tomando uma deciso consciente. Quando se tem uma coceira,  melhor coar logo de 
uma vez.
      
      O humor de Morgana havia melhorado tanto que ela comeou a cantarolar com a msica do rdio, que ligara bem baixinho. Era isso mesmo que precisava, pensou. 
Uma xcara do calmante ch de camomila, uma hora de solido e uma tarefa agradvel e construtiva, Depois de empacotar a pea de quartzo e etiquet-la para ser enviada 
pelo correio, pegou o livro de estoque. Poderia passar a tarde inteira bem satisfeita, bebericando o ch, ouvindo a msica e examinando seu estoque. E tinha certeza 
de que era o que faria, se no tivesse sido interrompida.
      Se estivesse sintonizada, talvez tivesse se preparado para ver Nash entrar pela porta. Mas a verdade era que qualquer planejamento prvio de nada adiantaria, 
no instante em que ele parou ao lado da escrivaninha, a fez levantar-se e plantou um longo e firme beijo em sua boca surpresa.
      - Isso - ele falou quando Morgana fez uma pausa para respirar - foi idia minha.
      Com a sensibilidade aguada, Morgana conseguiu assentir a cabea.
      - Estou vendo.
      Nash deslizou as mos at os quadris dela, mantendo-a presa contra si.
      - E gostei muito.
      - Que bom que gostou. - Morgana espiou por sobre o ombro e reparou que Mindy estava parada na porta, com um sorrisinho malicioso no rosto. - Posso cuidar disso, 
Mindy.
      - Ah, tenho certeza que sim. - Com uma rpida piscadela, Mindy saiu e fechou a porta.
      - Bem, agora... - Tentando se recompor, Morgana pousou as mos no peito dele, afastando-o. Preferia que ele no detectasse o fato de que seu corao disparava 
e seus ossos pareciam prestes a derreter. No havia como manter o controle, naquele caso. - H mais alguma coisa?
      - Acho que h muita coisa. - Com os olhos fixos nos dela, Nash empurrou-a contra a escrivaninha. - Quando quer comear?
      Morgana teve de sorrir.
      - Puxa, isso sim  ir direto ao ponto.
      - Pode chamar como quiser. Eu acho que  assim. Como Morgana estava usando sapatos de salto alto, os dois ficavam da mesma altura, Nash precisou apenas inclinar-se 
um pouco para morder de leve o lbio dela. Quero voc, e no sei como vou conseguir pensar direito novamente, a no ser que passe muitas noites fazendo amor com 
voc.
      Um arrepio de excitao comeou levemente e foi espalhando-se por ela. Morgana teve de agarrar-se  beirada da escrivaninha, para manter o equilbrio. Porm, 
quando falou, a voz era baixa e confiante.
      - Pois eu posso afirmar que, depois que fizermos amor, nunca mais voc vai conseguir pensar direito.
      Ele tomou-lhe o rosto entre as mos e roou os lbios nos dela.
      - Vou correr este risco.
      - Pode ser. - Morgana teve de respirar fundo, para recuperar o flego. - Mas eu ainda no decidi se quero me arriscar.
      Os lbios de Nash curvaram-se sobre os dela. Ele sentiu um rpido tremor, em reao.
      - Viva perigosamente, Morgana.
      - Eu vivo. - Por um instante, ela permitiu-se desfrutar do que ele lhe oferecia. - O que voc diria se eu lhe garantisse que ainda no  a hora certa? E que 
ns dois saberemos, quando este momento chegar?
      As mos dele deslizaram para cima, de forma que os dedos acariciassem a curva de seus seios.
      - Eu diria que voc est evitando encarar a situao.
      - Pois est errado. - Encantada, pois a carcia era incrivelmente suave, ela pressionou o rosto no dele. - Acredite em mim, Nash, voc est errado.
      - Para o inferno com a hora certa. Venha para casa comigo, Morgana.
      Ela suspirou, enquanto se afastava.
      - Est bem, eu vou. - Balanou a cabea, quando o olhar dele ficou mais profundo. - Mas para ajud-lo com seu trabalho, e no para dormir com voc. Hoje no.
      Sorrindo, Nash inclinou-se mais e mordiscou-lhe a orelha.
      - Isso me dar bastante chance de faz-la mudar de idia.
      Os olhos dela estavam calmos, quase tristes, quando se afastou.
      - Talvez seja voc quem mude de idia, antes que tudo se acabe. Vou dizer a Mindy que cuide da loja pelo resto do dia.
      Morgana insistiu em ir com o prprio carro, seguindo logo atrs dele com Luna enroscada no assento de passageiro. Ela lhe daria duas horas, prometeu a si mesma. 
Somente duas horas. Antes de ir embora, faria o melhor possvel para clarear-lhe a mente, para que ele pudesse trabalhar.
      Gostou da casa dele, com a grama crescida demais, clamando por um jardineiro, a construo em estuque com janelas em forma de arco e as telhas vermelhas. Ficava 
mais perto do mar do que a dela, ento a msica das ondas podia ser ouvida a todo volume. No jardim lateral, havia um par de ciprestes inclinados, to prximos que 
pareciam dois amantes se buscando.
      Combinava com ele, pensou enquanto saa do carro e atravessava o gramado que ia at a altura de seus tornozelos.
      - H quanto tempo est morando aqui? - perguntou.
      - Uns dois meses; - Ele olhou em volta do jardim. Preciso comprar um cortador de grama.
      Se demorasse muito, ele iria precisar de uma ceifadeira para aquele matagal.
      - E, precisa mesmo.
      - Mas acho que gosto desta aparncia natural.
      - Voc  preguioso.
      Morgana sentiu pena dos narcisos que lutavam para manter as flores acima das ervas daninhas. Encaminhou-se para a porta da frente, com Luna seguindo-a majestosamente.
      - Preciso ficar mais motivado - ele disse, abrindo a porta. - Sempre morei em apartamentos, ou em condomnios. Esta  a primeira casa que tenho.
      Morgana olhou em volta, vendo as paredes claras do vestbulo, a madeira escura do corrimo da escada. que subia em curva para o andar superior, e a varanda 
com balco.
      - Pelo menos escolheu bem. Onde voc trabalha?
      - Por a.
      - Humm...
      Ela seguiu lentamente pelo corredor e espiou pela primeira porta em arco. Era uma sala ampla e desarrumada, com grandes janelas sem cortinas e o piso de madeira 
sem nenhum tapete. Sinais, Morgana pensou, de um homem que ainda no decidira se iria realmente se instalar.
      Os mveis no combinavam uns com. os outros, e estavam repletos de livros, papis, roupas e pratos sujos... provavelmente h muito esquecidos ali. Mais livros 
tinham sido guardados de qualquer jeito nas estantes embutidas numa das paredes. E havia brinquedos, ela reparou. Sempre pensava nos seus prprios objetos como sendo 
brinquedos. Coisinhas que lhe davam prazer, acalmavam-lhe os nimos, serviam como passatempo. ' Notou as belas e estranhas mscaras penduradas na parede, uma extica 
gravura de ninfas de Maxfield Parrish, um acessrio usado num dos filmes dele, imaginou que fosse uma pata de lobo de "O Transformador". Nash utilizava a pea como 
peso de papel. Havia uma caixinha de prata no formato de um esquife junto ao Oscar que ele ganhara. Os dois objetos estavam precisando de uma boa limpeza. Com os 
lbios apertados, Morgana pegou o boneco de vodu, com o alfinete ainda espetado mortalmente no corao.
      - Algum que eu conheo?
      Ele sorriu, contente por ela estar ali e acostumado demais  prpria baguna para se sentir envergonhado.
      _ Pode ser qualquer um - respondeu. - Normalmente  um produtor, s vezes um poltico. Uma vez foi um fiscal do Imposto de Renda. Sabe, faz tempo que quero 
lhe dizer uma coisa - acrescentou, os olhos deslizando pelo vestido fino e curto de seda prpura. - Voc tem muito bom gosto para roupas.
      _ Fico contente que goste. - Divertida, Morgana deixou o desafortunado boneco onde estava, afagou-lhe a cabea desfigurada, e depois pegou um mao quase esfarrapado 
de cartas de tar.
      - Voc l as cartas?
      _ No. Ganhei de presente. Parece que pertenceram a Houdini, ou algo assim.
      _ Humm. - Ela manuseou as cartas, sentindo um esmaecido calor de antigo poder na ponta dos dedos. - Se tiver curiosidade em saber a quem realmente pertenceu 
o baralho, pergunte a Sebastian um dia destes. Ele poder lhe dizer. Venha aqui. - Estendeu as cartas para ele. Embaralhe e corte.
      Disposto a entrar na brincadeira, Nash fez o que ela disse.
      - O que vamos jogar?
      Morgana limitou-se a sorrir e pegou as cartas de volta.
      - J que as cadeiras esto todas ocupadas, vamos sentar no cho. - Ajoelhou-se, fazendo um gesto para que ele a acompanhasse. Depois de jogar os cabelos para 
trs, tirou do mao de cartas uma Cruz Celta. - Voc est preocupado - disse. - Mas sua criatividade no se esgotou, nem est bloqueada. Mudanas vo ocorrer. - 
Ergueu os olhos para ele. Aquele fascinante tom de azul irlands era capaz de persuadir at um homem normal a acreditar em qualquer coisa. - Talvez sejam as mudanas 
mais importantes de sua vida, e no sero fceis de aceitar.
      No eram 'mais as cartas que ela lia, mas sim a plida luz da vidncia, que brilhava muito mais para Sebastian.
      - Voc precisa ter em mente que algumas coisas so passadas atravs do sangue e outras so perdidas. No somos sempre o todo das pessoas que nos conceberam. 
- Seu olhar transformou-se, suavizando-se enquanto ela pousava a mo sobre a dele. - E voc no est to sozinho quanto pensa. Nunca esteve.
      Nash no podia levar na brincadeira algo que se aproximava tanto da verdade. Em vez disso, evitou completamente o assunto, pegando-lhe a mo e levando-a aos 
lbios.
      - Eu no trouxe voc aqui para ler minha sorte.
      - Sei porque voc me convidou, e isso no vai acontecer. Ainda. - Com uma pontada de tristeza, ela retirou a mo. - E no estou lendo sua sorte, estou falando 
do presente. - Com calma, juntou novamente as cartas. - Irei ajud-lo se puder, e da maneira que posso. Fale-me sobre a dificuldade que est encontrando em sua histria.
      - Alm do fato de que fico pensando em voc quando deveria estar criando um roteiro?
      - Sim. - Morgana encolheu as pernas sob o corpo. Alm disso.
      - Creio que seja uma questo de motivao. Cassandra.  assim que decidi cham-la. Ela  uma feiticeira porque deseja ter poder, ou porque quer mudar as coisas? 
Estaria procurando vingana, amor, ou apenas uma maneira de se safar?
      - Por que precisa ser uma destas coisas? Por que ela no pode simplesmente aceitar os dons que lhe foram concedidos?
      - Assim  fcil demais.
      Morgana balanou a cabea.
      - No , no. E mais fcil, e muito mais simples, ser como as outras pessoas. Certa vez, quando eu era bem pequena, algumas mes proibiram que suas filhas 
brincassem comigo. Eu era uma m influncia. Era estranha, diferente. O fato de no ser parte de um todo me deixava muito magoada.
      Nash assentiu, compreendendo.
      - Pois eu era sempre aquele garoto que acaba de chegar no bairro. Nunca ficava num lugar por tempo suficiente de ser aceito pelos outros meninos. Algum sempre 
est querendo bancar o "valento" com o garoto recm-chegado, e no me pergunte por qu; Com as mudanas constantes, eu acabava me sentindo deslocado, atrasado na 
escola, desejando ter idade bastante para poder ir embora. - Irritado consigo mesmo, ele interrompeu-se. - Bem, voltando a falar de Cassandra...
      - Como voc suportou? - Morgana sempre tivera Anastsia, Sebastian, seus pais e tios, e um profundo senso de pertencer a uma famlia.
      Com um movimento inquieto dos ombros, Nash estendeu a mo e tocou o amuleto dela.
      - Eu fugia. E, desde que em nove de cada dez vezes eu acabava levando um chute no traseiro, aprendi a fugir para lugares seguros. Para os livros, ou para o 
cinema, ou apenaS para dentro da minha imaginao. Assim que tive idade suficiente, arrumei um emprego num cinema, vendendo ingressos. Desta forma, recebia um salrio 
para ver os filmes. Quando as lembranas perturbadoras afastaram-se de seus olhos, ele sorriu. - Eu adoro cinema. Simplesmente adoro.
      Morgana tambm sorriu.
      - Ento, agora, voc  pago para escrever os filmes.
      - Um jeito perfeito de se cultivar o hbito. Isto , se eu algum dia conseguir ao menos esboar este roteiro. - Com um movimento sutil, Nash pegou uma mecha 
dos cabelos dela e enrolou-a em torno do pulso. - O que eu preciso  de inspirao - murmurou, puxando-a para um beijo.
      - O que voc precisa - ela disse -  de concentrao.
      - Estou me concentrando. - Ele tocou-lhe os lbios mordendo-os de leve, - Acredite, Morgana, estou me concentrando. Voc no quer ser responsvel por tolher 
a criatividade de um gnio, no ?
      - Claro que no. - Estava na hora, ela decidiu, de Nash entender exatamente em que estava se metendo. E talvez isso tambm o ajudasse a abrir a mente para 
a histria. - Inspirao - disse, deslizando as mos em torno do pescoo dele. - Chegando.
      E eles tambm. chegaram. Quando seus lbios encontraram-se, Morgana fez com que seus corpos se elevassem a quinze centmetros do cho. Nash estava ocupado 
demais em desfrutar o beijo para perceber. Colando-se a ele, Morgana tambm esqueceu de si mesma por tempo o bastante de. perder-se no calor do momento; Quando interrompeu 
o beIJO, estavam flutuando a meio caminho do teto.
      - Acho melhor pararmos.
      Ele beijou-lhe a nuca.
      - Por qu?
      Ela olhou para baixo de propsito.
      - Esqueci de perguntar se voc tem medo de altura.
      Morgana desejou poder capturar a expresso do rosto dele quando seguiu seu olhar, os olhos comicamente arregalados e a boca aberta. E a torrente de blasfmias 
que se seguiu. Enquanto Nash as enunciava, Morgana levou-os suavemente para baixo.
      Os joelhos dele vacilaram, antes que conseguisse recuperar o controle. Plido, ele agarrou-a pelos ombros. Os msculos de seu estmago tencionavam-se como 
cordas esticadas.
      - Como diabos voc conseguiu fazer isso?
      - Um truque de criana. Isto , de um determinado tipo de crIana. - Mas ela foi piedosa o bastante para acariciar-lhe a face. - Lembra-se daquela histria 
em que o menino gritava "Lobo!", Nash? Um dia o lobo apareceu de verdade. Bem, voc brincou com coisas, vamos chamar de paranormais, durante anos. E desta vez deparou-se 
com uma feiticeira verdadeira.
      Bem devagar, e com muita segurana, ele balanou a cabea de um lado para outro. Mas os dedos nos ombros dela tremiam levemente.
      - Isso  besteira.
      Morgana exalou um suspiro. .
      _ Tudo bem. Deixe-me pensar... Algo simples, mas refinado. - Fechou os olhos e estendeu as mos.
      Por um instante, ela era apenas uma mulher, uma bela mulher parada no centro de uma sala em desordem, com os braos graciosamente levantados, as palmas levemente 
fechadas. Ento, ela mudou. Deus, ele podia ver a mudana! A beleza intensificou-se. Um truque com a luz, ele tentou convencer-se. A maneira como ela sorria, com 
os lbios cheios e limpos curvando"se, os clios ensombrecendo-lhe as faces os cabelos caindo naturalmente at a cintura.
      Mas agora os cabelos esvoaavam, suavemente a princpio, como se atingidos por uma brisa brincalhona. Depois, estavam voando, em torno do seu rosto, por trs 
do rosto, como um longo e maravilhoso rio. Nash teve a imagem de uma deslumbrante sereia entalhada na proa de uma antiga embarcao.
      Mas no havia vento soprando. Ainda assim, Nash o sentiu. Provocava um frio em sua pele, feria-lhe o rosto. Podia ouvi-lo assoviar enquanto perpassava a sala. 
Quando engoliu em seco ouviu tambm um estalo na garganta.
      Morgana permanecia parada, imvel. Uma esmaecida luz dourada tremeluziu  sua volta, quando Iniciou um cntico. Enquanto o sol brilhava atravs das altas janelas, 
macios flocos de neve comearam a cair. Vindos do teto. Eles giravam em torno da cabea de Nash, danavam em sua pele, e ele ofegou, congelado pelo choque.
      - Pare com isso - ordenou com voz trmula, desabando numa cadeira.
      Morgana abaixou os braos, abriu os olhos. A mini-nevasca parou, como se jamais tivesse existido. O vento silenciou e morreu. Como ela esperava, Nash a encarava 
como se ela tivesse trs cabeas.
      - Acho que exagerei um pouco - ela concedeu.
      - Eu... Voc... - Nash lutava para ter controle da prpria fala. - O que foi que voc fez?
      - Uma invocao dos elementos, bastante bsica. Nash no estava mais to plido, ela reparou, mas os olhos ainda pareciam grandes demais para o restante do 
rosto.
      - No pretendia assust-lo.
      - Voc no est me assustando. Est me deixando desnorteado, isso sim - ele admitiu.
      Sacudiu-se inteiro, como um cachorro molhado, e ordenou ao crebro que comeasse a funcionar. Se tivesse visto o que viu, deveria haver uma explicao. Morgana 
no teria como entrar na casa dele e preparar o truque com antecedncia.
      Tinha de haver uma explicao.
      Nash levantou-se da cadeira e comeou a vasculhar a sala. Talvez seus movimentos estivessem um tanto desajeitados, talvez as juntas parecessem enferrujadas. 
Mas estava se mexendo.
      - Ok, benzinho, como foi que realizou o truque? Foi timo, e eu aceito as brincadeiras como qualquer outra pessoa, mas gosto de saber do segredo do truque.
      - Nash. - A voz dela era baixa, e extremamente sedutora. - Pare. Olhe para mim.
      Ele virou-se, olhou, e soube. Embora no fosse possvel, no fosse racional, ele sabia. Exalou um longo e cauteloso suspiro.
      - Meu Deus,  de verdade. No ?
      - Sim. No quer sentar-se?
      - No. - Mas ele sentou na mesinha de centro. - Tudo o que voc tem me falado... No estava inventando nada daquilo.
      - No, eu no inventei nada. Nasci feiticeira, como minha me, meu pai, como a me da minha me e a me dela, por muitas geraes atrs. - Morgana sorriu com 
delicadeza. - No saio por a voando em cabos de vassoura, exceto talvez por brincadeira. E no fao feitios contra jovens princesas, nem distribuo mas envenenadas.
      Isso no era realmente possvel. Ou era?
      - Faa mais alguma coisa.
      Um lampejo de impacincia perpassou o rosto dela.
      - Tampouco sou uma foca amestrada.
      - Faa mais alguma coisa- ele insistiu, e tentou pensar em opes. - Voc consegue desaparecer, ou...
      - Ora, Nash, sinceramente...
      Ele estava de p outra vez.
      - Escute, d-me uma chance. Estou tentando ajud-la. Talvez voc pudesse... - Um livro voou para fora da estante, indo bater direto na cabea dele. Fazendo 
uma careta de dor, Nash esfregou o lugar atingido. - Tudo bem, tudo bem. No precisa se incomodar.
      - Isto no  um espetculo de circo - ela disse, com firmeza. - Apenas fiz uma demonstrao drstica e bvia, porque voc  um cabea-dura. Voc recusava-se 
a acreditar e, desde que estamos desenvolvendo algum tipo de relacionamento, prefiro que acredite. - Morgana alisou a saia do vestido. - E, agora que acredita, podemos 
nos dar um tempo para pensar a respeito, antes de seguirmos em frente.
      - Seguir em frente. - ele repetiu. - Talvez o prximo passo seja conversarmos sobre isso.
      - Agora no. - Ele j havia retrocedido um passo, Morgana pensou, e nem mesmo sabia.
      - Mas que droga, Morgana, voc no pode atirar-me tudo isso de repente, e depois sair calmamente. Meu Deus, voc  uma feiticeira!
      - Sou, sim. - Ela jogou os cabelos para trs. - Creio que isto j est bem estabelecido.
      A cabea de Nash comeou a girar outra vez. A realidade fizera uma curva longa e lenta.
      - Tenho milhes de perguntas.
      Ela pegou a bolsa.
      - Voc j me fez vrias, dentre estes milhes. Escute as gravaes. Todas as respostas que lhe dei so verdadeiras. 
      - No quero ouvir as gravaes, quero conversar com voc.
      - No momento, s importa o que eu quero. - Ela abriu a bolsa e retirou uma esmeralda pequena, presa numa correntinha de prata. Deveria saber que houvera um 
motivo para ter se sentido compelida a guard-la na bolsa, naquela manh. - Aqui est. - Aproximando-se dele, passou a correntinha pela sua cabea.
      - Obrigado, mas no gosto de usar jias.
      - Ento considere como um amuleto. - Morgana beijou-o nas duas faces.
      Nash examinou a pedra, desconfiado.
      - Que tipo de amuleto?
      - Para iluminar sua mente, incentivar a criatividade e... Est vendo esta pedrinha roxa acima da esmeralda?
      - Sim.
      -  uma ametista. - Ela sorriu, roando os lbios nos dele. - Serve, para proteg-lo de feitiaria. - Com a gata j aos seus ps, Morgana encaminhou-se para 
a porta. - V dormir por uma hora, Nash. Seu crebro est cansado. Quando acordar, ir escrever. E quando chegar o momento certo, voc ir me encontrar. - Desapareceu 
pela porta.
      Franzindo a testa, Nash pegou a pedra verde e olhou-a novamente. Iluminar a mente. Tudo bem, estava precisando disso. Naquele instante, seus pensamentos estavam 
to claros quanto fumaa.
      Passou o dedo pela ametista que fazia companhia  esmeralda. Proteo contra feitiarias... Levantou a cabea e olhou pela janela, a tempo de ver o carro de 
Morgana se afastar.
      Tinha certeza de que precisaria disso, tambm.
      
      CAPTULO 6
      
      O que ele realmente precisava era pensar, e no dormir. No entanto, acabou concluindo que homem nenhum seria capaz de pensar, depois do que acontecera nos 
ltimos quinze minutos. Ora, qualquer um dos parapsiclogos que ele entrevistara atravs dos anos teria dado tudo para ter apenas uma pequena amostra da exibio 
feita por Morgana.
      Mas esse no seria o primeiro passo racional para tentar desacreditar o que havia visto?
      Voltou lentamente para a sala a fim de examinar o teto com mais ateno. No podia negar o que vira, o que sentira.
      Mas, talvez com o tempo, pudesse formular algumas alternativas lgicas. .
      Dando incio a tal processo, assumiu sua posio favorita para a meditao. Deitou no sof. Hipnotismo. No gostava da idia de que poderia ter sido levado 
a um transe, ou de ter sofrido uma alucinao, mas era uma possibilidade. Bem mais fcil de se acreditar, agora que estava novamente sozinho.
      E se no acreditasse nisto, ou em qualquer outra explicao lgica, ele teria de aceitar que Morgana era exatamente o que sempre afirmara ser.
      . Uma feiticeira cujos dons foram herdados, possuindo o sangue dos duendes.
      Nash tirou os sapatos e tentou refletir. Mas Morgana preenchia-lhe todos os pensamentos. Seu rosto, seu gosto, a luz sombria e misteriosa que surgira em seus 
olhos, antes que ela os fechasse e erguesse os braos para o alto.
      Era a mesma luz, ele lembrou-se agora, que aparecera nos olhos dela quando fizera o truque com a garrafa de conhaque.
      Truques, disse a si mesmo enquanto seu corao dava um pulo desagradvel no peito. Era mais sensato presumir que fossem truques e tentar racionalizar a maneira 
como ela os produzira. Como uma mulher conseguiria erguer um homem de mais setenta quilos a quinze centmetros do cho?
      Telecinsia. Nash sempre pensara que havia grandes possibilidades, neste campo. Aps suas pesquisas preliminares para o roteiro do filme "O Presente Obscuro", 
ele passara a acreditar na existncia de certas pessoas capazes de usar a mente, ou as emoes, para mover objetos. Uma explicao mais lgica para a existncia 
de poltergeists, na sua opinio. E os cientistas haviam empreendido estudos exaustivos com quadros que voavam pela sala, livros que saam sozinhos de estantes, e 
coisas assim. Geralmente so jovens garotas que possuem esse talento especial. As jovens tornam-se mulheres. E Mor,gana era, definitivamente, uma mulher.
      Nash calculou que um pesquisador desses fenmenos exigiria bem mais do que apenas sua palavra para acreditar que Morgana o levantara, e tambm a si mesma, 
do cho. Ainda assim, talvez pudesse...
      Interrompeu-se, percebendo que estava pensando e reagindo da mesma maneira que o fictcio Jonathan McGillis pensava e reagia em sua histria. Era isso que 
Morgana queria?, perguntou-se.
      Escute as gravaes, ela lhe dissera. Tudo bem, ento era o que faria. Virando-se no sof, apertou os botes do gravador at voltar a fita para o comeo.
      A voz aveludada de Morgana fluiu do pequeno aparelho.
      - No  necessrio pertencer a uma conveno de bruxas para ser uma feiticeira, do mesmo jeito que ningum precisa fazer parte de um clube masculino para ser 
um homem. Alguns acham recompensador e confortvel fazer parte de um clube, outros simplesmente desfrutam dos aspectos sociais. - Houve uma breve pausa, depois o 
farfalhar de seda, quando ela mudou de posio. - Voc faz parte de algum clube, Nash?
      - No. Tais grupos geralmente possuem regras feitas por outras pessoas. E adoram delegar tarefas.
      O riso suave de Morgana flutuou pela sala.
      - E existem aquelas, dentre ns, que preferem a prpria companhia, do seu prprio jeito. A histria das convenes, no entanto,  muito antiga. Minha tatarav 
era uma alta sacerdotisa de sua assemblia na Irlanda, e depois, a filha dela tambm. Uma taa sabtica, um basto, e mais alguns objetos cerimoniais foram passados 
para mim. Voc deve ter reparado no prato ritual, pendurado na parede do corredor. Ele data da poca anterior ao incio da era das fogueiras.
      - Era das fogueiras?
      - Sim, a efetiva perseguio s feiticeiras. Comeou no sculo quatorze e prosseguiu pelos trezentos anos seguintes. A histria mostra que, periodicamente, 
a humanidade tem necessidade de perseguir algum. Imagino que essa tenha sido a nossa vez.
      Morgana continuou falando, ele continuou perguntando, mas Nash comeou sentir dificuldade de acompanhar as palavras. A voz dela era to sedutora... Uma voz 
feita para o luar, para segredos, para quentes promessas noturnas. Se fechasse os olhos, quase podia acreditar que ela estava ali, enroscada ao seu lado no sof, 
com as longas e sensuais pernas entrelaadas nas dele, o hlito quente em seu rosto.
      Nash adormeceu com um sorriso nos lbios.
      Quando acordou, quase duas horas tinham se passado. Sentindo os olhos pesados de sono, esfregou as mos no rosto e praguejou ao sentir o pescoo dolorido. 
Piscou vrias vezes, olhando no relgio enquanto obrigava-se a sentar, meio escarrapachado, no sof.
      No devia se surpreender por ter dormido to pesado, pensou. Nos ltimos dias, seu sono limitava-se a rpidas cochiladas. Automaticamente, estendeu a mo para 
a garrafa na mesa e bebeu um longo gole do refrigerante morno.
      Talvez tudo tivesse sido um sonho. Recostou no sof, admirado ao perceber quo rapidamente aquela sonolncia do meio da tarde desaparecia de sua mente. Tudo 
aquilo poderia ter sido um sonho. Exceto por... Seus dedos tocaram a pedra que pendia da corrente em seu peito. Morgana deixara aquilo atrs de si, bem como o perfume 
vago e persistente, que era exclusivamente dela.
      Tudo bem, ento, ele decidiu. Iria parar de retroceder e de duvidar da prpria sanidade mental. Ela havia feito o que fizera. E ele havia visto o que vira.
      No era assim to complicado, na verdade. Mais uma questo de acostumar o pensamento e aceitar algo novo. Tempos atrs as pessoas acreditavam que viagens espaciais 
eram apenas frutos da fantasia. Por outro lado, h muitos sculos a feitiaria j era aceita sem questionamentos.
      Talvez a realidade tivesse muito a ver com o sculo vivido. Tal possibilidade fez com que seu crebro se acionasse.
      Nash bebeu mais um gole do refrigerante e fez uma careta quando recolocou a tampa na garrafa. No estava apenas com sede, percebeu. Estava com fome. Faminto.
      E muito, muito mais importante do que seu estmago, era a sua mente. A histria inteira parecia desenrolar-se dentro dela, linha por linha. Ele podia v-la, 
realmente enxerg-la claramente, pela primeira vez. Sentindo o rpido frmito de excitao que sempre surgia quando uma histria se abria para ele, levantou-se num 
salto e foi para a cozinha.
      Iria fazer um sanduche gigantesco, preparar o caf mais forte do planeta, e depois comearia a trabalhar.
      
      Morgana sentou-se no terrao ensolarado da casa de Anastsia, invejando e admirando o jardim luxuriante da prima e bebendo um copo de um excelente ch de ervas 
gelado. Daquele ponto em Pescadaro Point conseguia avistar as guas intensamente azuis da baa de Carmel e ver os barcos balanando e deslizando sob a leve brisa 
de primavera.
      Ali, estava bem escondida dos roteiros tursticos, parecendo a um mundo de distncia do burburinho da Cannery Row, das multides e aromas do Fisherman's Wharf. 
No abrigo do terrao, junto s rvores e flores, no ouvia sequer o rudo de um nico carro. Apenas os pssaros, as abelhas, a gua e o vento.
      Ela entendia porque Anastsia morava ali onde existiam a serenidade e o isolamento to necessrios  sua prima mais nova. Ah, sim, havia o cenrio dramtico 
do encontro da terra e do mar, das rvores retorcidas, os gritos altos das gaivotas. Mas havia tambm a paz por trs dos velhos muros que circundavam a propriedade. 
A hera silenciosa e constante subia pelas paredes da casa. Flores vistosas e ervas perfumadas forravam os canteiros que Ana cuidava com tanto carinho.
      Morgana nunca deixava de se sentir  vontade ali e, inevitavelmente, era para onde sempre se deixava levar quando seu corao se tumultuava. O local, no pela 
primeira vez ela pensou, era muito parecido com Anastsia. Adorvel, acolhedor, sem nenhuma malcia ou maldade.
      - Sados do forno! - Ana anunciou, trazendo uma bandeja ao atravessar a porta da varanda.
      - Ah, meu Deus, Ana... biscoitos de chocolate. Os meus preferidos! 
      Com um risinho de alegria, Anastsia deixou a bandeja na mesa de tampo de vidro.
      - Senti um impulso de fazer os biscoitos hoje cedo. Agora entendo por qu. 
       Mais do que disposta, Morgana deu a primeira mordida no biscoito. Seus olhos fecharam-se enquanto o chocolate cremoso derretia-se em sua boca.
      - Abenoada seja. .
      - Ento... - Ana sentou-se de forma que podia avistar o jardim, o gramado e toda a extenso da baa. - Fiquei surpresa ao v-la por aqui no meio do dia.
      - Aproveitei para tirar um longo intervalo do almoo.
      - Morgana deu mais uma mordida no biscoito. - Mindy tem tudo sob controle.
      - E voc?
      - Eu no tenho sempre?
      Ana pousou a mo sobre a de Morgana. E antes .que a Etna tentasse afast-la, sentiu pequenas fagulhas de tristeza.
      - No posso evitar sentir o quanto voc esta inquieta, Morgana! Estamos prximas demais.
      - E claro que no pode. Do mesmo Jeito que eu no pude evitar vir aqui hoje, mesmo sabendo que estaria lhe trazendo problemas.
      - Eu gostaria de ajud-la.
      - Bem voc  a herbalista - Morgana falou, com um sorriso. - Que tal um pouco de essncia de Helleborus Niger?
      Ana tambm sorriu. A erva Helleborus, mais conhecida como "helboro-negro", supostamente tinha o poder de curar a loucura.
      -Est preocupada com sua sanidade, querida?
      - No mnimo. - Encolhendo os ombros, Morgana pegou outro biscoito. - Ou poderia escolher o modo mais fcil e preparar uma mistura de rosa e anglica, com uma 
pitadinha de ginseng e poeira de lua  gosto.
      - Uma poo do amor? - Ana tambm experimentou um biscoito. - Para algum que eu conheo?
      - Nash,  claro.
      -  claro. As coisas no vo indo bem?
      Uma leve ruga apareceu na testa de Morgana.
      - No sei como vo as coisas. S sei que eu preferia no ser to escrupulosa. Afinal, "amarrar" um homem  um procedimento bastante simples.
      - Mas no muito satisfatrio.
      - No - Morgana admitiu. - No posso imaginar como seria. Portanto, tenho de me contentar com a maneira normal.
      Enquanto bebia o ch revigorante, observou as velas brancas enfunadas dos barcos que se espalhavam pela baa. Sempre se considerara uma pessoa livre como eles. 
Livre, assim. Mas agora, embora no tivesse feito nenhum feitio, ela prpria estava enfeitiada.
      - Para dizer a verdade, Ana, nunca pensei seriamente em como seria ter um homem apaixonado por mim.Apaixonado de verdade. O problema  que, desta vez, meu 
corao est envolvido demais para meu gosto.
      E no havia qualquer remdio que pudesse oferecer, Anastsia pensou, para aquele tipo de enfermidade.
      -- Voc j falou com ele?
      Surpresa com a dor rpida e intensa que lhe atingiu o peito, Morgana fechou os olhos.
      - No posso falar nada, quando eu mesma no tenho certeza absoluta. Assim, fico esperando. "Brilho da lua na luz do alvorecer" - ela entoou. -- "Noite no dia 
e dia na noite. At que o corao dele ao meu esteja entrelaado, nem paz ou descanso poderei encontrar". - Abriu os olhos e esboou um sorriso.- Isso sempre me 
pareceu excessivamente dramtico, antes.
      - Encontrar o amor  como encontrar o ar. E impossvel sobreviver sem ele.
      - Mas quanto  o bastante? - Esta era a pergunta que mais a perturbara naqueles dias, desde que deixara Nash.
      - Como sabemos quanto  o bastante?
      - Quando estamos felizes, eu acho.
      Morgana pensou que a resposta provavelmente estava certa, mas seria atingvel? .
      - Voc acha que fomos mimadas demais, Ana?
      - Mimadas? Em que sentido?
      - Em relao s nossas... nossas expectativas, suponho. - Morgana fez um gesto de desamparo. - Pelos nossos pais, os meus, os seus e os de Sebastian. Sempre 
existiu tanto amor, apoio, compreenso e respeito. Alm da alegria de amar e a generosidade. No  assim para todo mundo.
      - No creio que saber que o amor pode ser profundo e verdadeiro, e tambm duradouro, signifique ter sido mimada.
      - Mas no seria o suficiente para ns nos contentarmos com o temporrio? Com a afeio e a paixo? - Morgana franziu a testa, observando uma abelha cortejar 
a haste de uma flor. - Acho que deveria ser.
      - Para algumas pessoas. Voc teria de ter certeza de que seria o bastante para voc.
      Morgana levantou-se com um resmungo de irritao.
      - Isso tudo  to exasperante. Odeio no estar no controle.
      Um sorriso iluminou o rosto de Anastsia, enquanto tambm se levantava.
      - Pois tenho certeza de que voc est no controle, querida. Por tanto tempo quanto sou capaz de me lembrar, voc sempre conseguiu o que queria, somente com 
a fora de sua personalidade.
      Morgana enviou-lhe um rpido olhar.
      - Imagino que esteja dizendo que eu era tirnica e irritante.
      - De maneira alguma. Sebastian era tirnico e irritante. - Ana inclinou de leve a cabea. - Digamos apenas que voc era... e ... voluntariosa.
      Longe de ser apaziguada, Morgana abaixou-se para sentir o perfume de uma penia totalmente desabrochada.
      - Creio que deveria considerar isso como um elogio. Mas o fato de ser voluntariosa no me ajuda muito, no momento.
      - Seguiu pelo estreito caminho de pedras que serpenteava atravs dos canteiros floridos e do emaranhado das trepadeiras. - H mais de uma semana que no o 
vejo, Ana. Meu Deus... - acrescentou. - Estou parecendo uma dessas choronas que vivem se lamentando.
      Ana teve de rir, enquanto dava um rpido abrao na prima.
      - No, nada disso. Voc est parecendo apenas uma mulher impaciente.
      - Bem, estou mesmo impaciente - Morgana admitiu. Embora eu estivesse preparada para evit-lo se fosse necessrio, no tem sido necessrio. - Olhou para Ana 
com um ar pesaroso. - E uma boa alfinetada no meu orgulho.
      - Voc ligou para ele?
      - No. - Morgana comprimiu os lbios. - No incio, no liguei porque pensei que seria melhor dar um pouco de tempo a ns dois. Depois... - Ela sempre fora 
capaz de rir de si mesma, e foi o que fez naquele momento. - Bem, depois no liguei porque estava morrendo de raiva por ele no ter tentado arrombar minha porta. 
Ele telefonou algumas vezes, na loja e em casa. Mas apenas dispara duas ou trs perguntas sobre feitiaria, e limita-se a resmungar e murmurar enquanto eu respondo. 
Resmunga, depois desliga. - Ela enfiou as mos nos bolsos da saia. - Posso at ouvir as minsculas engrenagens daquele crebro minsculo girando.
      - Ento ele est trabalhando. Imagino que um escritor se torne bastante absorvido consigo mesmo, enquanto escreve uma histria.
      - Ana - Morgana falou, pacientemente, - tente manter-se dentro da programao. Voc deve sentir pena de mim, e no procurar desculpas para ele.
      Obediente, Ana fez uma expresso de tristeza.
      - No sei o que deu em mim.
      - E este seu corao mole, como sempre. - Morgana beijou-a no rosto. - Mas eu a perdo por isso.
      Enquanto caminhavam, uma vistosa borboleta amarela esvoaou diante delas. Distrada, Ana estendeu a mo e a borboleta pousou timidamente em sua palma. Ela 
parou para acariciar as frgeis asas.
      - Por que voc no me conta o que pretende fazer a respeito deste escritor auto-absorvido que a est deixando to maluca?
      Encolhendo os ombros, Morgana roou o dedo sobre as ptalas de uma glicnia.
      _ Estive pensando em passar algumas semanas na Irlanda.
      Ana liberou a borboleta com suas melhores bnos, depois se virou para a prima.
      - Eu lhe desejaria uma boa viagem, mas tambm gostaria de lembr-la de que fugir apenas adia o problema. No o soluciona.
      _ E  por isso que ainda no comecei a arrumar as malas. - Morgana suspirou. - Ana, quando o vi pela ltima vez, ele acreditou que eu sou o que sou. Quis dar-lhe 
um tempo para acostumar-se com a idia.
      E este era o ponto crucial, Ana pensou. Passou o brao em torno da cintura da prima, num gesto de carinho.
      - Talvez ele precise de mais alguns dias - falou, cautelosa. - Pode ser que ainda no tenha sido capaz de aceitar este fato.
      - Eu sei. - O olhar de Morgana estendeu-separa o horizonte, onde o mar encontrava o cu. Era impossvel saber exatamente o que haveria alm do horizonte. - 
Ana, ns seremos amantes antes do amanhecer. Disto eu tenho certeza. O que ainda no sei  se irei me sentir feliz ou miservel, depois desta noite.
      
      Nash estava eufrico. Pelo que podia se lembrar, nunca antes uma histria flura de sua mente com tanta velocidade e clareza. A sinopse, que ele terminara 
numa nica e estonteante noite em claro, j se encontrava na mesa de seu empresrio. E, graas aos seus sucessos anteriores, Nash no se preocupava com a venda, 
que, num animado telefonema, seu empresrio lhe dissera estar iminente. A verdade era que, pela primeira vez, Nash nem mesmo pensava na venda do roteiro, em sua 
produo e na filmagem subseqente.
      Estava absorvido demais com a histria.
      Ele escrevia o tempo todo. Via-se compelido a acordar s trs da madrugada para atacar o teclado do computador, engolindo xcaras de caf no meio da tarde 
com a histria ainda zunindo em sua mente como um enxame de abelhas. Comia qualquer coisa que encontrava  mo, dormia quando os olhos recusavam-se a ficar abertos, 
e vivia imerso na distorcida realidade de sua prpria imaginao.
      Se sonhava, era com fragmentos surrealistas, com imagens erticas de si mesmo e Morgana deslocando-se suavemente atravs do mundo fictcio que ele era compelido 
a criar.
      E acordava sempre a desejando, s vezes de maneira quase insuportvel. Depois, descobria-se novamente arrastado a completar aquela tarefa que, a princpio, 
os reunira.
      s vezes, um pouco antes de cair num sono exausto, achava que podia ouvir a voz dela.
      Ainda no  o momento.
      Mas pressentia que o momento estava prximo.
      Quando o telefone tocava, Nash o ignorava, e depois raramente dava-se ao trabalho de responder aos recados deixados na secretria eletrnica. Se sentia necessidade 
de um pouco de ar fresco, levava o laptop para a varanda. E, caso tivesse imaginado um meio, o levaria at para o chuveiro, quando ia tomar banho.
      No final, arrebatou o primeiro rascunho de sua impressora,  medida que cada folha de papel saa. Alguns acertos aqui, pensou, rabiscando anotaes nas margens. 
Um pequeno ajuste ali, e estaria terminado. Mas, enquanto lia, ele sabia. Sabia que nunca antes escrevera algo to bom.
      Nem tampouco conseguira concluir um projeto com tanta rapidez. Desde o primeiro momento em que havia sentado para comear o roteiro, apenas dez dias tinham 
se passado. Talvez ele tivesse dormido apenas trinta ou quarenta horas ao todo, naqueles dez dias, mas no se sentia cansado.
      Sentia-se exultante.
      Depois de juntar toda papelada, Nash procurou um envelope. Vasculhou por entre os livros, anotaes e pratos sujos que estavam espalhados sobre a escrivaninha.
      Tinha um nico pensamento, agora: levar o roteiro para Morgana. De um jeito ou de outro, fora ela quem o inspirara a escrev-lo, e seria a primeira pessoa 
a ler.
      Encontrou um envelope de papel grosso coberto de anotaes e restos de macarro. Depois de jogar o mao de papis dentro do envelope, saiu do escritrio. E, 
por sorte, passou pelo espelho do vestbulo e olhou seu reflexo de relance.
      Seus cabelos estavam compridos demais e, no rosto, havia o princpio de uma barba bastante respeitvel. Que, conforme ele esfregava a mo curiosa pelo queixo, 
o fez considerar seriamente a possibilidade de deix-la crescer. Mas nada disso seria to mal, se ele no estivesse parado no vestbulo, segurando um envelope de 
papel pardo na mo e... sem mais nada no corpo alm de uma cueca samba cano vermelha e a corrente de prata que Morgana lhe dera.
      No fim das contas, pensou, era melhor demorar-se um pouco mais para tomar um banho e vestir-se.
      Trinta minutos depois desceu as escadas apressadamente, usando um traje um pouco mais conservador: calas jeans e um bluso de malha azul-marinho, que tinha 
apenas um furo pequeno na manga esquerda. Tinha de admitir que a viso de seu quarto, do banheiro e do restante da casa fora um choque, at mesmo para ele. Dava 
a impresso de que um exrcito particularmente indisciplinado havia acampado por ali nas ltimas semanas.
      Nash tivera sorte de encontrar algumas peas de roupa que no estavam completamente sujas, emboladas ou chutadas para baixo da cama. Obviamente, no havia 
nenhuma toalha de banho limpa, por isso fora obrigado a contentar-se com trs toalhas de rosto. Ainda assim, conseguira localizar o aparelho de barba, o pente e 
dois sapatos que faziam parte do mesmo par, de forma que as coisas no estavam to ruins quanto pareciam.
      Perdeu mais quinze frustrantes minutos tentando encontrar as chaves do carro. S Deus sabia como tinham ido parar na segunda prateleira da geladeira, ao lado 
de um pssego embolorado, mas era ali que estavam. Nash tambm reparou que aquele triste pssego, e uma caixa de leite vazia, eram tudo o que restava na geladeira, 
depois que pegou as chaves.
      Mas haveria tempo de pensar nisso mais tarde.
      Pegando o roteiro, encaminhou-se para a porta.
      Somente quando ligou o motor do carro, e o painel iluminou-se, ele deu-se conta de que era quase meia-noite. Hesitou, considerando a possibilidade de ligar 
para ela primeiro, ou simplesmente adiar a visita para a manh seguinte.
      Ao diabo com isso, decidiu, manobrando o carro para a rua. Ele a queria agora.
      
      H alguns quilmetros de distncia, Morgana estava fechando a porta atrs de si e saindo para a luz prateada da lua cheia. Enquanto se afastava da casa, o 
manto cerimonial esvoaava em torno de seu corpo, cingido  cintura por um cinto de cristais. Nos braos, ela levava uma cesta simples que continha tudo o que precisaria 
para observar o equincio de primavera.
      Era uma noite de alegria, de celebrao, de dar graas pela renovao que a primavera proporcionava  terra. Mas seus olhos estavam preocupados. Naquela noite, 
em que a luz e a escurido equilibravam-se, sua vida iria mudar. Morgana sabia disso, embora no tivesse tornado a olhar. No havia necessidade de olhar, quando 
seu corao j lhe dissera tudo.
      Era difcil admitir que quase se recusara a sair de dentro de casa. Seria um desafio ao destino, pensou. Mas esta teria sido a opo dos covardes. Iria adiante 
com o ritual, como ela prpria, e outras como ela, haviam feito por toda eternidade.
      Ele viria quando tivesse de vir. E ela aceitaria.
      Sombras retorcidas espalhavam-se pelo gramado enquanto Morgana caminhava na direo do bosque. Havia o cheiro de primavera no ar da noite. As flores noturnas, 
a maresia, a fragrncia da terra que ela mesma revolvera para o plantio.
      Ouviu o pio de uma coruja, baixo e solitrio. Mas no olhou para as asas brancas. Ainda no.
      Outros sons enchiam o ar, o suave 'suspirar do vento atravs das rvores, roando as folhas, acariciando os galhos. E o murmrio da msica que apenas determinados 
ouvidos conseguiam captar. A msica das fadas, a msica que era mais antiga que o homem.
      Ela' no estava sozinha, ali, no bosque sombrio sob o turbilho de estrelas que inundava o cu. Nunca estivera sozinha, ali.
       medida que se aproximava do lugar de magia, seu nimo modificava-se, e a nuvem de preocupao esvaiu-se de seus olhos. Deixando a cesta no cho, resguardou 
um momento para si mesma. Ficou imvel, com os olhos fechados, os braos relaxados ao longo do corpo, e aspirou profundamente o perfume e a beleza da noite.
      Ela podia ver, mesmo com os olhos fechados, a lua branca navegando atravs do negro oceano do firmamento. Podia ver a luz generosa que a lua esparramava pelas 
rvores e, atravs delas, para ela. E o poder que florescia dentro de si era to fresco, to puro e lindo quanto a luz do luar.
      Serenamente, Morgana abriu a cesta. Retirou de dentro um lenol branco com barrado de prata, que pertencia a sua famlia por muitas geraes. Alguns dizia.m 
que fora um presente que o mago Merlin ganhara do Jovem reI a quem tanto amava. Depois de estender o tecido branco sobre a relva, ela ajoelhou-se.
      Uma pequena fatia de bolo, um frasco transparente contendo vinho, velas, a faca da bruxa com inscries no cabo, o prato e a taa rituais, uma pequena grinalda 
_de botes de gardnias entrelaados. Outras flores em boto... esporinhas, ramos de alecrim e tomilho. Tudo isso ela espalhou, juntamente com ptalas de rosa, sobre 
a manta branca.
      Isso feito levantou-se para formar o circulo. Sentia o poder latejando em seus dedos, mais quente, cada vez mais urgente. Quando o crculo foi completado, 
ela posicionou as velas, puras como gelo, em toda sua borda. Quatorze ao todo, para simbolizar os dias entre a lua cheia e a lua minguante. Devagar, caminhou ao 
lado delas, estendendo a mo.
      Uma por uma as velas acenderam-se, com uma frgil chama no incio, que depois se tornou firme e constante. Morgana ficou no centro do crculo de luz. Abriu 
o cinto de cristais, que escorregou como um cordo de fogo. Retirou os braos do fino manto, e este caiu aos seus ps com a leveza da neve derretida.
      As luzes das velas refletiam em seu corpo como ouro, quando ela iniciou a dana secular.
      
      Nash parou diante da casa de Morgana quando faltavam cinco minutos para meia-noite. Praguejou baixinho, ao ver que no havia nem uma nica luz em nenhuma das 
janelas.
      Teria de acord-la, pensou filosoficamente. De qualquer forma, quanto tempo uma feiticeira precisava dormir? Sorriu consigo mesmo: era algo que teria de perguntar 
a ela.
      Ainda assim, Morgana era uma mulher. E as mulheres tinham a tendncia de irritar-se muito se um sujeito aparecesse no meio da noite para arranc-las da cama. 
Talvez ajudasse um pouco se levasse alguma coisa para suavizar o choque.
      Inspirado, Nash enfiou o envelope em baixo do brao e foi inspecionar o canteiro de flores. Duvidava que ela percebesse que ele roubara alguns botes. Afinal, 
parecia haver centenas deles. Banhado pelo perfume que exalavam, ele animou-se demais e acabou juntando um enorme buqu de tulipas, ervilhas-doces, narcisos e dlias.
      Satisfeito com a boa idia que tivera, ajeitou o mao de flores no brao e apressou-se na direo da porta. Pan latiu duas vezes antes que ele batesse. Mas 
nenhuma luz seguiu-se  saudao do cachorro, ou s batidas que Nash deu na porta.
      Ele olhou para trs num relance, querendo certificar-se ge que o carro dela estava na garagem, e bateu novamente.  bem provvel que ela durma como uma pedra, 
pensou, sentindo o primeiro lampejo de irritao. Havia algo que o compelia, uma espcie de urgncia. Tinha de v-la, e precisava ser naquela noite.
      Recusando-se a desistir, deixou o envelope com o roteiro sobre um pilar e tentou abrir a maaneta da porta. Pan tornou a latir mas, para Nash, o latido do 
co soava mais divertido do que zangado. Vendo que a porta estava trancada, ele comeou a fazer a volta pela casa. Iria entrar de qualquer jeito, e a encontraria 
antes que a noite terminasse.
      Um sbito mpeto de imediatismo apressou-lhe os passos, mas em algum ponto entre a frente da casa e o terrao lateral, Nash apanhou-se olhando na direo do 
bosque.
      Era para l que precisava ir. Tinha de ir. Embora a razo lhe dissesse que era uma grande tolice embrenhar-se por entre as rvores no meio da noite, Nash seguiu 
seu corao.
      Talvez fossem as sombras, ou o suspiro do vento, que obrigaram-no a mexer-se sem fazer barulho. Sentia como se fosse uma blasfmia provocar rudos desnecessrios. 
Havia algo de especial no ar, ali, naquela noite, que era quase insuportavelmente belo.
      No entanto, a cada passo que dava, o sangue parecia pulsar com mais rapidez em suas veias.
      Ento ele viu,  distncia, uma brancura vaga e espectral.
      Estava prestes a chamar por Morgana, mas um movimento farfalhante obrigou-o a olhar para cima. Ali, num galho retorcido de cipreste, pousava uma enorme coruja 
branca. Enquanto Nash a observava, a ave elevou-se silenciosamente do seu poleiro e voou na direo do centro do bosque.
       Nash sentia o pulso martelando nos ouvidos e o corao arremessando-se contra o peito. Sabia que, mesmo se desse meia-volta e fosse embora, seria novamente 
levado para aquele ponto.
      Ento, seguiu em frente.
      Ela estava ali, ajoelhada num lenol branco. O luar derramava-se sobre ela como um vinho prateado. Outra vez ele quis chamar-lhe o nome, mas a viso de Morgana 
formando um crculo de velas, com jias na cintura e flores nos cabelos, deixou-o mudo.
      Abrigado pelas sombras, permaneceu imvel enquanto ela fazia com que as pequenas chamas reluzissem na ponta das velas brancas. Enquanto ela despia o manto, 
ficando gloriosamente nua no centro das chamas e passava a mover-se, numa dana to graciosa que lhe tirou o flego. 
      A luz da lua deslizava sobre a pele de Morgana, brincava com seus seios, acariciava-lhe os quadris. Seus cabelos caam como uma cascata de bano, cobrindo-lhe 
as costas quando ela ergueu o rosto para as estrelas.
      E Nash lembrou-se de seu sonho, uma lembrana to ntida que a fantasia e a realidade mesclaram-se numa nica imagem poderosa, com Morgana danando em seu 
centro. O perfume das flores intensificou-se, a ponto de deix-lo zonzo. Por um instante, sua viso nublou-se. Ele balanou a cabea, tentando clare-la e esforando-se 
para focalizar o que via.
      A imagem havia mudado. Morgana ajoelhava-se novamente, bebendo de uma taa de prata enquanto as chamas das velas elevavam-se a um ponto impossivelmente alto, 
rodeando-a como barras douradas. Atravs delas Nash podia ver o brilho de sua pele, o reluzir da prata entre seus seios, em seus pulsos. Podia ouvir-lhe a voz, entoando 
um doce cntico.
      Por um momento, o bosque inundou-se com um brilho etreo, suave. Diferente da luz, diferente das sombras, pulsava e tremeluzia, brilhando como a lmina de 
uma espada sob o sol. E Nash sentia o calor dessa luz banhando-lhe o rosto.
      Ento as chamas das velas diminuram outra vez, transformando-se em pequenos pontos de luz, e o soar do cntico ecoou no silncio.
      Morgana levantou-se. Vestiu o manto branco, prendeu o cinto:
      A coruja, a enorme ave branca que ele esquecera em sua fascinao com a mulher, gritou duas vezes antes de voar como uma nuvem imaculada atravs da noite.
      Morgana virou-se, a respirao elevando-se em sua garganta. Nash saiu das sombras, com o corao disparando em seu peito.
      Por um breve instante, ela hesitou. Um aviso lhe foi sussurrado. Aquela noite lhe traria prazer. Mais do que ela jamais experimentara. E seu preo seria a 
dor. Maior do que ela desejaria.
      Ento, Morgana sorriu e deu um passo para fora do crculo.
      
      CAPTULO 7
      
      Milhares de pensamentos irromperam na mente de Nash, como uma avalanche. Milhares de sensaes inundaram-lhe o corao. Conforme Morgana encaminhava-se para 
ele, o manto flutuando em torno de si como poeira de estrelas, todos os seus pensamentos, todas as suas sensaes estilhaaram-se e mesclaram-se, formando um s 
intuito: ela.
      Nash queria falar, dizer-lhe alguma coisa, qualquer coisa que pudesse explicar como se sentia naquele momento. Mas seu corao parecia ter saltado na garganta, 
tornando as palavras impossveis. Ele sabia que isso ia alm do simples desejo de um homem por uma mulher mas, ainda assim, o que quer que estivesse espiralando 
em torno dele estava to distante de suas experincias anteriores que tinha certeza de que jamais poderia descrever ou explicar o que sentia.
      Sabia apenas que naquele lugar mgico, naquele momento de encantamento, havia somente uma mulher. Uma voz baixa e paciente sussurrou no fundo de sua alma, 
dizendo que sempre houvera apenas uma mulher, e que estivera esperando por ela durante toda sua vida.
      Morgana parou, a poucos centmetros dele. Sombras suaves e silenciosas bailavam entre eles. Bastava-lhe apenas dar um passo para dentro daquela dana lenta 
para estar nos braos dele. Nash no a recusaria. E ela temia ter ultrapassado o ponto onde ainda seria possvel recus-la.
      Seus olhos permaneceram fixos nos dele, embora as pequenas garras de seus nervos lhe beliscassem a pele. Nash parecia atnito, ela percebeu, e mal poderia 
culp-la. Se ele estivesse sentindo uma frao que fosse do desejo e dos temores que a invadiam, tinha todo o direito de estar assim.
      No seria fcil para nenhum deles, ela sabia. Depois daquela noite, o vnculo estaria selado. Quaisquer decises que fossem tomadas no futuro, por qualquer 
um deles, seriam incapazes de desfazer aquele elo.
      Morgana estendeu a mo e tocou as flores que ele ainda trazia nos braos. Imaginou se Nash saberia que, pelos botes que escolhera, estava lhe oferecendo amor, 
paixo, fidelidade e esperana.
      - As flores colhidas ao luar contm os encantos e os segredos da noite.
      Nash havia se esquecido das flores. Como algum que desperta de um sonho, baixou os olhos para elas.
      - Eu as roubei do seu jardim.
      Ela sorriu lindamente. Ele no conhecia a linguagem das flores, pensou. Mesmo assim, suas mos foram guiadas.
      - Isso no torna o perfume delas menos doce, nem o presente menos afetuoso. - Levou a mo para o rosto dele, tocando-o. - Voc soube onde me encontrar.
      - Eu... Sim. - Nash no podia negar o impulso urgente que o levara para o bosque.- Sim, eu soube.
      - E por que veio?
      - Eu queria... - Ele lembrou-se da pressa frentica em sair de casa, de sua impacincia para v-la. Mas, no, era algo mais bsico que isso. E infinitamente 
mais simples.
      - Eu precisava de voc.
      Pela primeira vez, o olhar de Morgana vacilou. Podia sentir a necessidade irradiando dele como um calor, para aquec-la e seduzi-la. E poderia, se ela nada 
fizesse para impedir, uni-la a ele com tanta firmeza que nenhum feitio, nenhum encanto jamais a libertaria.
      Seu poder no era absoluto. Seus prprios desejos no eram sempre realizados. Aceit-lo naquela noite seria arriscar tudo, incluindo seu poder de permanecer 
sozinha.
      At aquela noite, a liberdade sempre fora o seu bem mais precioso. E agora, erguendo os olhos novamente para Nash, ela rejeitou esse bem.
      - O que lhe darei esta noite ser entregue de corao aberto. E o que eu aceitar de voc esta noite ser tomado sem arrependimentos. - Os olhos dela reluziram 
com as vises que ele no podia enxergar. - Lembre-se disso. Venha comigo. - Pegou a mo dele e levou-o para o interior do crculo de luz.
      No instante em que Nash passou pelas chamas, sentiu a mudana. O ar era mais puro, ali, com um perfume mais lmpido, como se ele tivesse subido ao pico de 
uma montanha muito alta, inatingvel. At as estrelas pareciam mais prximas, e ele pde ver a trilha formada pelos raios do luar, traos prateados e luminosos atravs 
das rvores frondosas.
      Mas Morgana era a mesma, segurando-lhe a mo com firmeza.
      - Que lugar  este? - Instintivamente, ele baixou a voz num sussurro, no por medo, mas por reverncia. O som parecia flutuar, mesclando-se com os acordes 
de harpa que enchiam o ar.
      - No precisa ter um nome. - Morgana retirou a mo da dele. - Existem muitas formas de magia - disse, abrindo o cinto de cristais. - Ns vamos fazer a nossa, 
aqui. Sorriu novamente. - Sem fazer mal a ningum.
      Lentamente, ela deixou o cordo de cristal na beirada do lenol branco, depois virou o rosto para Nash. Com o luar brilhando em seus olhos, abriu os braos.
      Enlaou-o, e os lbios que ofereceu eram quentes e macios. Nash pde sentir neles a doura do vinho que ela bebera, bem como o sabor prprio dela, mais denso 
e potente. Imaginou que homem algum poderia sobreviver sem ter provado aquele gosto intoxicante. Sua cabea girava, enquanto Morgana o incitava a provar ainda mais 
profundamente.
      Com um gemido que parecia vir de sua alma, ele abraou-a com mais fora, amassando as flores entre eles, de forma que o ar noturno intensificou-se com o perfume. 
Seus lbios colavam-se aos dela, antes de mover-se freneticamente pelo rosto.
      Mesmo com as plpebras cerradas, Morgana podia ver a dana das chamas das velas e a sombra nica que seu corpo e o de Nash formavam. Ouvia a profunda e pura 
ressonncia da brisa cantando atravs das folhas, a msica da noite, que era seu prprio tipo de magia. E ouviu seu nome sendo sussurrado atravs dos lbios que, 
uma vez mais, procuraram os seus.
      Porm, o que Morgana sentia era muito mais real. Ela entregava a Nash aquele poo de emoes, como jamais entregara a ningum. E quando sentiu que aquele poo 
enchera-se at a borda e depois transbordara, transformando-se num regado tranqilo e constante, inquietou-se.
      Por um instante, Morgana teve medo de afogar-se nele, e o medo provocou-lhe um estremecimento. Murmurando seu nome, Nash puxou-a mais para si. Fosse por necessidade 
ou conforto, ela no sabia, mas o fato  que se acalmou novamente. E aceitou o destino que a esperava.
      O encantador transformou-se no encantado.
      Nash estava lutando contra alguma fera enraivecida que se agarrava s suas entranhas, exigindo que ele a tomasse rapidamente, que se saciasse. Nunca, jamais 
havia experimentado um desejo to violento e devastador por nada, nem ningum, como sentia por Morgana naquele reluzente crculo de luz.
      Prendeu as mos entre os cabelos macios, para impedi-las de arrancar-lhe o manto. Um lampejo oculto em seu instinto lhe dizia que Morgana aceitaria a pressa, 
que responderia ao suplcio de seu apetite voraz. Mas no era assim que deveria ser. No ali, nem naquele momento.
      Pressionando o rosto na curva do pescoo dela, abraou-a com fora e combateu a ansiedade.
      O fato de compreender no fazia com que o corao de Morgana batesse com menos intensidade. O desejo dele de tom-la batalhava com o desejo de doar, e ambos 
estavam plenos de poder. A escolha dele faria a diferena. E, embora no pudesse ver, ela sabia que a tessitura do ato de amor daquela noite significaria muito para 
eles, no futuro.
      - Nash, eu...
      Ele balanou a cabea, depois se inclinou um pouco para trs e segurou-lhe o rosto entre as mos. Elas no estavam firmes. Nem a respirao dele. Os olhos 
estavam sombrios, intensos.
      - Voc me d um medo danado - Nash conseguiu dizer. - Estou com um medo danado de mim mesmo, tambm.
      E diferente agora, Morgana. Voc entende?
      - Entendo, sim.  importante.
      -  importante. - Ele exalou um longo e trmulo suspiro. - Tenho medo de machuc-la.
      Voc ir me machucar. Tal certeza percorreu-a por inteiro. O sofrimento viria, no importavam todas as defesas que usasse. Mas no naquela noite.
      - No vai, no. - Ela beijou-o delicadamente.
      No, Nash pensou roando o rosto contra o dela. No iria, no poderia. Embora o desejo continuasse latejando em seu sangue, a intensidade diminura. Suas mos 
estavam firmes novamente quando deslizou o manto pelos ombros dela, fazendo-o escorregar pelos braos at que casse ao cho. 
      O prazer de olhar para ela era como um punho aveludado apertando-lhe o peito. Nash havia visto o corpo de Morgana antes, quando a observara danar nua no crculo. 
Mas, ento, havia sido como um sonho, como se ela fosse um esprito maravilhoso, fora de seu alcance.
      Mas agora ela era apenas uma mulher, e suas mos no a trespassariam se a tocasse.
      Primeiro, o rosto. Nash tocou-lhe as faces levemente, depois os lbios,. o queixo, explorando o pescoo delicado. E ela era real. Ele no sentira o hlito 
quente contra a sua pele? E no estava sentindo, agora, o rpido pulsar no ponto em que seus dedos se demoravam?
      Feiticeira ou mortal, ela era sua, para acariciar, para desfrutar, para ter prazer. Era o destino estarem ali, cercados pelas velhas e silenciosas rvores, 
pela luz obscurecida. Pela magia.
      O brilho dos olhos de Morgana modificou-se, como de uma mulher assoberbada pelo desejo e antecipao. Nash observou-os enquanto trilhava os dedos curiosos 
pela curva de seus ombros, pelos braos, e depois refazendo o caminho. Ela passou a respirar mais rpido, com os lbios entreabertos.
      Com a mesma lentido, com a mesma delicadeza, Nash continuou tocando-a at os seios. Morgana ofegou, contendo um gemido, e vacilou nos braos dele, porm Nash 
no fez nenhum gesto para possu-la. Limitava-se a acariciar pacientemente as curvas macias, roando a ponta do dedo nos mamilos que enrijeciam, doloridos, em resposta.
      Morgana no conseguia se mover. Mesmo se os ces do inferno tivessem irrompido por entre as rvores, com as mandbulas expostas, ela teria permanecido como 
estava, o corpo latejando, os olhos fixos nos dele. Como ele sabia? Como poderia saber que estava enfeitiando-a com to delicada ternura?
      Nada mais importava para ela, exceto Nash. Podia ver somente o rosto dele, sentir apenas as suas mos. A cada vez que aspirava o ar, trmula e incerta, mais 
se preenchia com ele.
      Nash prosseguiu com a explorao no corpo feminino, descendo petas costas, onde os cabelos emaranharam-se em suas mos, sentindo-a estremecer. Perguntou-se 
por que tinha achado necessrio falar, quando podia lhe dizer muito mais com um simples toque.
      O corpo de Morgana era um banquete de curvas, pele macia, msculos firmes e sutis. Mas ele j no sentia mais a urgncia de saciar a fome. Era bem melhor assim, 
ter tempo de provar, de saborear... de seduzir. E que maior poder um homem almejaria, do que sentir a pele de uma mulher aquecer-se sob suas mos?
      Ele prosseguiu a trilha at os quadris dela, deixando os dedos roarem as coxas longas e macias, mudando o curso do retorno de forma que pudesse absorver todos 
os pequenos lampejos de prazer, ao descobrir que ela j estava quente e mida para ele.
      Quando ela dobrou os joelhos, Nash puxou-a mais para si, fazendo-a deitar no lenol para que pudesse iniciar a mesma gloriosa jornada com os lbios.
      Mergulhada nas sensaes, Morgana arrancou-lhe o suter, querendo sentir a delcia da pele dele contra a sua. Os msculos estavam tensos, provando-lhe que 
a gentileza com que ele a acariciava exigia mais fora do que teria exigido a paixo selvagem. Ela murmurou alguma coisa, e Nash ergueu-se levemente, para que Morgana 
pudesse empurrar- lhe a cala jeans at os quadris e depois tir-la, deixando-o to vulnervel quanto ela prpria.
      O prazer doce, inconsciente. Delcias longas, prolongadas. A lua derramava sua frgil luz enquanto ambos ofereciam-se mutuamente os presentes mais preciosos. 
As flores espalhadas no lenol exalavam perfumes exticos, que se mesclavam com as fragrncias da noite. E, embora a brisa agitasse as folhas, as chamas que os rodeavam 
permaneciam constantes e fiis.
      Mesmo quando a paixo abateu-se sobre eles, fazendo com que rolassem sobre os botes de flores e a seda, no havia pressa. Em algum lugar nas sombras, a coruja 
gritou novamente, e o anel de chamas elevou-se como lanas. Fechando-se sobre eles, abrigando-os de tudo o mais.
      O corpo de Morgana tremia, mas no havia mais medo ou nervosismo. Seus braos enlaaram-no quando ele a penetrou.
      Com o sangue pulsando em seus ouvidos, Nash viu os olhos dela abrirem-se subitamente, viu as estrelas douradas reluzindo contra o azul profundo, to magnficas 
quanto aquelas que brilhavam no cu. Baixou os lbios para os dela, enquanto moviam-se juntos numa dana mais antiga e mais poderosa que qualquer outra existente.
      Ela sentiu a beleza, a magia que era mais potente do que qualquer coisa que pudesse conjurar. Ele a preencheu por inteiro, completamente. Mesmo quando a dor 
os reuniu, a ternura permaneceu. Duas lgrimas translcidas escaparam dos olhos dela, quando arqueou o corpo para ele, deixando o corpo voar com o alvio final e 
assombroso. Ouviu-o dizer seu nome, como uma prece, enquanto derramava-se dentro dela.
      Quando Nash mergulhou o rosto em seus cabelos, Morgana viu o brilho de uma estrela cadente, cruzando o cu de veludo como uma chama ardente.
      
      O tempo passou. Minutos, horas, no importava. Tudo o que Nash sabia era que Morgana parecia to suave como um sonho sob ele, o corpo relaxado mas ainda enroscado 
no seu. Imaginou como seria maravilhoso se pudessem ficar exatamente daquela maneira at o amanhecer.
      Depois pensou, um pouco mais prtico, que provavelmente acabaria esmagando-a.
      Quando ele comeou a virar-se, Morgana colou-se a ele, sem solt-lo.
      - Humm... - murmurou, sonolenta.
      Sentindo sua resistncia, Nash aconchegou-se a ela.
      - Sei que estou na posio mais confortvel, mas devo estar pesado para voc. Alm disso, quero olh-la.
      Nash apoiou-se nos cotovelos e fez o que dizia.
      Os cabelos dela estavam esparramados como seda negra sobre o tecido branco. Havia flores presas neles, fazendo-o pensar em fadas e ciganas. E em feiticeiras.
      Ele no conteve um longo suspiro.
      - O que acontece quando um mortal faz amor com uma feiticeira?
      Morgana teve de sorrir, lenta e sinuosamente.
      - Por acaso reparou nas grgulas de pedra na torre da minha casa?
      Ele abriu  boca, mas logo a fechou. Morgana deixou escapar uma risada divertida, enquanto os dedos acariciavam-lhe as costas.
      - Adoro quando voc  to crdulo.
      Mas Nash estava sentindo-se bem demais para aborrecer-se com a brincadeira. Em vez disso, mexeu nos cabelos dela.
      - Pareceu-me uma pergunta bastante razovel. Isto , se voc  uma... eu sei que voc . Mas ainda  difcil de aceitar, mesmo depois do que presenciei esta 
noite. - Os olhos dele fixaram-se nos dela. - Eu fiquei espionando voc.
      Morgana passou o dedo pelos seus lbios.
      - Eu sei.
      - Nunca vi nada to belo. Voc, a luz, a msica. - Ele franziu a testa. - Havia uma msica.
      - Para aqueles que sabem como ouvi-la. Para aqueles que devem ouvi-la. Isso no era to difcil de aceitar, depois de todo o restante.
      - O que estava fazendo aqui? Parecia algum tipo de cerimnia.
      - Esta  a noite do equincio de primavera.  uma noite mgica. E o que aconteceu aqui conosco tambm foi mgico.
      Sem poder resistir, Nash beijou-lhe o ombro.
      - Pode at parecer um chavo, mas nunca antes foi to bom assim. Com ningum.
      Morgana tomou a sorrir.
      _ No. Com ningum. - Seu pulso acelerou-se ao senti-lo enrijecer novamente dentro dela. - Mais uma vez - murmurou, quando seus lbios se encontraram.
      
      A noite transformou-se em madrugada, antes que eles comeassem a vestir-se. Enquanto enfiava o suter pela cabea, Nash observou Morgana recolher as flores 
amassadas e espalhadas.
      - Acho que acabamos com elas. Terei de roubar mais algumas para voc.
      Sorrindo, ela juntou as flores entre os braos.
      - Estas serviro muito bem - disse.
      Nash arregalou os olhos ao ver que as flores que ela segurava estavam agora to frescas e vistosas como quando ele as colhera.
      Passou a mo pelos cabelos.
      - Acho que no vou conseguir me acostumar com isso to cedo.
      Morgana limitou-se lhe entregar as flores.
      _ Segure-as um pouco para mim. Preciso desfazer o crculo.
      Fez um gesto, e as chamas das velas apagaram-se. Enquanto as recolhia, uma a uma, comeou a captar suavemente.
      - O circulo formado sob a lua agora  desfeito por minha vontade. O trabalho est completo, nenhum mal foi feito. Com amor e graas eu vos liberto. Como eu 
mesma voltarei, ao p voltars.
      Guardou a ltima vela na cesta e pegou o lenol. Depois de dobr-lo, guardou-o tambm.
      - s...  s isso? . .
      Ela pegou a cesta e virou-se para ele.
      - Geralmente as coisas so bem mais simples do que pensamos. - Estendeu-lhe a mo, e sorriu feliz quando Nash entrelaou os dedos nos seus. - E, aproveitando 
este esprito de simplicidade, que tal dormir na minha cama pelo restante da noite?
      Nash levou a mo dela aos lbios e respondeu simplesmente:
      -Sim.
      
      Ela no se saciava nunca, Nash pensou, sonhador. Durante a noite tinham se procurado outra vez, depois outra. Deslizando para o sono, deslizando para o amor 
enquanto a lua aos poucos desaparecia. E agora, quando o sol surgia num claro brilho avermelhado atravs das cortinas ela mordiscava-lhe a orelha.
      Ele sorriu, murmurando enquanto deixava-se flutuar para o completo despertar. A cabea de Morgana era um peso suave e bem-vindo em seu peito. A maneira como 
ela o provocava, brincando com sua orelha, avisou-o de que no faria objees a um preguioso ato de amor matinal. Mais do que disposto a content-la, ergueu a mo 
para acariciar-lhe os cabelos. E parou com o gesto no ar.
      Como a cabea dela poderia estar em seu peito e a boca em sua orelha? Anatomicamente falando, seria impossvel. No entanto, ela j presenciara fazendo vrias 
coisas que seriam Impossveis, sob as regras do mundo real. Isso, entretanto, era estranho demais. Mesmo estando meio dormindo, sua imaginao frtil aguou-se.
      Deveria abrir os olhos e ver algo extremamente fantstico to f?ra deste mundo, que o faria sair gritando pela noite afora?
      Dia, lembrou a si mesmo. Era dia. Mas isso no vinha ao caso.
      Cautelosamente, baixou a mo para tocar os cabelos dela Macios, espessos, mas... meu Deus, o formato da cabea estava errado! Ela havia mudado... Transformara-se 
numa... Quando a cabea moveu-se sob sua mo, Nash deixou escapar um grito sufocado e, com o corao disparando, abriu os olhos.
      A gata estava deitada em seu peito, fitando-o com os olhos cor de mbar, fixos e um tanto complacentes. Nash deu um pulo de susto ao sentir algo mo deslizando 
em seu rosto. E viu que Pau estava com as patas dianteiras apoiadas na cama, a enorme cabea prateada inclinada curiosamente para o lado. Antes que Nash pudesse 
falar, o cachorro tomou a lamb-lo.
      - Puxa vida... - Enquanto ele esperava que a mente clareasse e o pulso voltasse ao normal, Luna levantou-se se espreguiou e andou maciamente pelo seu peito, 
a fim de olh-lo de frente. O miado suave soou como um risinho.
      - Tudo bem, voc me pegou direitinho. - Estendeu as mos, afagando o plo de cada um dos animais.
      Pan tomou o gesto como um convite e pulou para cima da cama. E aterrisou, sem muita fora, felizmente, na regio mais vulnervel do corpo de Nash. Com um gemido 
sufocado, Nash ergueu o tronco, desalojando a gata e fazendo-a bater de encontro a Pan.
      Por um instante, a situao pareceu um tanto perigosa, com os animais encarando-se e rosnando mutuamente. Porem, Nash estava ocupado demais em recuperar o 
flego para preocupar-se com a perspectiva de ver plos voando no quarto.
      - Ah est brincando com os animais?
      Aspirando o ar, Nash ergueu o rosto e viu Morgana parada na porta. Assim que a avistou, Luna sacudiu a cauda no focinho de Pan, pulou para um travesseiro, 
fez um giro, deitou-se e comeou a lamber-se. Com a cauda balanando, Pan saltou para fora da cama. Nash calculou que devia haver no mnimo trinta quilos de msculos 
apoiando as patas no colcho.
      - Parece que meus bichinhos gostam muito de voc.
      - ... Somos uma famlia feliz.
      Trazendo uma caneca de caf' fumegante, Morgana aproximou-se da cama. J estava vestida, com um vestidinho vermelho enfeitado de contas e bordados no decote 
canoa, e tirinhas amarradas em toda a frente, chegando at a barra que terminava vrios centmetros acima dos joelhos sensuais.
      Nash pensou se deveria desamarrar as tirinhas uma a uma ou se tiraria  vestido dela de uma s vez. Ento, sentiu um aroma que era quase to extico, e sem 
dvida to sedutor quanto o perfume dela.
      - Isto  caf?
      Morgana sentou na beirada da cama e aspirou o contedo da caneca.
      - , creio que sim.
      Sorrindo, ele estendeu a mo para brincar com as pontas dos cabelos dela, que estavam amarrados numa trana intrincada.
      -  muita gentileza sua - disse.
      Os olhos dela refletiram surpresa.
      - O qu? Ah, est pensando que eu trouxe o caf para voc! - Olhando-o, Morgana tamborilou o dedo na caneca.
      - Est pensando que eu tive o trabalho de fazer o caf, de encher esta caneca e traz-la aqui na cama s porque voc  assim, to bonitinho?
      Devidamente decepcionado, Nash lanou um ltimo e desejoso olhar para a caneca.
      - Bem, eu...
      - Neste caso - ela falou, interrompendo-o, - voc est absolutamente certo.
      Nash pegou a caneca que ela lhe oferecia e, enquanto bebia, olhou-a por cima da borda. No era um especialista em caf, e nem poderia ser, acostumado como 
estava com a gororoba que preparava para si mesmo todas as manhs, mas tinha certeza de que aquele era o melhor caf que j havia provado, em toda sua vida.
      - Obrigado. Morgana... - Estendeu a mo para arrumar o complicado arranjo de contas e pedras que pendia de uma das orelhas dela. - Acha mesmo que eu sou bonitinho?
      Ela riu, afastando a caneca para que pudesse beij-la.
      - D para o gasto, Nash.
      Muito mais do que isso, pensou, beijando-o novamente. Com os cabelos claros pelo sol, desarrumados e caindo no rosto sonolento, o peito surpreendentemente 
musculoso e provocador aparecendo por cima das cobertas, e com os lbios hbeis e macios roando nos dela, ele era muito mais do que isso.
      Embora relutante, ela se afastou.
      - Preciso ir trabalhar.
      - Hoje? - Preguiosamente, Nash segurou-a pela nuca e Puxou-a para si. - No sabe que  feriado nacional?
      - Hoje?
      -  claro. -- Ela exalava o perfume da noite, ele pensou. Como as flores que desabrocham somente sob as estrelas.
      - E o Dia Nacional dos Amantes. Um tributo aos anos sessenta. Deve ser comemorado com...
      - J entendi.  muito criativo - Morgana disse, cerrando os dentes nos lbios dele. - Mas preciso cuidar da minha loja.
      - Que falta de patriotismo, Morgana. Estou chocado.
      - Beba seu caf. - Ela levantou, para impedir-se de mudar de idia. - Se estiver com fome, h comida na cozinha.
      - Voc podia ter-me acordado. - Nash prendeu-lhe a mo antes que ela pudesse se afastar.
      -  Achei que voc precisava dormir mais um pouco e, alm disso no quis lhe dar a chance de me distrair.
      Nash fitou-a, enquanto beijava-lhe os dedos.
      - Pois eu gostaria de passar horas distraindo voc. Morgana sentiu os joelhos enfraquecerem.
      - Voc poder fazer isso mais tarde.
      -  Podemos jantar juntos. 
      -  Sim podemos. - Ela sentia o sangue latejar nos ouvidos, mas no conseguia retirar a mo que ele prendia. 
      - Posso comprar alguma coisa e trazer para c.
      - Boa idia.
      Nash abriu-lhe a mo, beijando-a na palma.
      - s sete e meia?
      - Est timo. Ponha Pan para fora quando sair, est bem?
       -  claro. - Nash deslizou os dentes pelo pulso dela, fazendo-a estremecer. - Morgana, s mais uma coisa.
      O corpo de Morgana ansiava pelo dele.
      Nash realmente no posso... 
      - No se preocupe. Mas ele podia ver que ela estava preocupada, e adorou a sensao. - No pretendo desarrum-la. Ser muito mais divertido passar as prximas 
horas pensando em fazer exatamente isso. Deixei uma coisa para voc, ontem  noite, no pilar da varanda.Esperava que voc  tivesse um tempinho para ler.
      - O seu roteiro? Voc terminou?
      - Sim, mas ainda faltam algumas correes. Gostaria da sua opinio.
      -  Ento vou tentar formar uma opinio. - Morgana inclinou-se e beijou-o novamente. - At logo.
      -  Nos vemos  noite. - Nash recostou na cama com a caneca de caf, mas em seguida praguejou baixinho.
      Ela parou na porta.
      - Meu carro est estacionado atrs do seu. Espere um pouco, vou vestir a cala.
      Ela riu.
      - Ora, Nash, francamente. - Morgana saiu do quarto, com a gata trotando aos seus ps.
      - ... - Nash falou para Pan, que dormia. - Acho que ela pode cuidar disso sozinha.
      Acomodou-se, preparando-se para desfrutar do caf em solitrio esplendor. Enquanto bebericava, observava o quarto. Aquela era a primeira chance que tinha de 
ver os objetos com que Morgana cercava-se, em seu recanto mais particular.
      O cenrio era um tanto dramtico, naturalmente. Ela carregava consigo este exagero de cores e formas para onde quer que fosse. Ali, estava exemplificado nas 
cores vivas que escolhera. Azul turquesa nas paredes, verde esmeralda na colcha da cama, que havia sido atirada no cho durante a noite. Diferentes nuances de ambas 
as cores eram encontradas nas cortinas que se enfunavam nas janelas. Um div forrado de seda cor de safira estava colocado sob uma das janelas, coberto de almofadas 
nas cores de granada, ametista e mbar. Arqueado sobre o div havia um comprido abajur de metal, cujo globo tinha o formato de uma enorme flor aberta. A cama tambm 
era imensa, como um lago de lenis amassados, com o encosto e os ps de madeira macia e entalhada.
      Intrigado, Nash decidiu levantar-se. Pan continuava dormindo aos seus ps mas, depois de alguns cutuces amigveis, resolveu virar-se e continuou roncando 
no meio da cama. Nu, com a caneca na mo, Nash comeou a vagar pelo quarto.
      Havia um drago de prata polida na mesa-de-cabeceira, com a cabea atirada para trs e a cauda levantada. O pavio colocado entre as mandbulas abertas indicava 
que ele devia cuspir fogo, quando aceso. Morgana tinha tambm uma linda penteadeira, com a banqueta forrada, que Nash considerava extremamente feminina. Podia imagin-la 
sentada ali, passando a escova de prata encrustada de pedras por entre os cabelos, ou tratando a pele com os cremes e loes contidos nos frascos coloridos que ali 
estavam, brilhando sob a luz do sol.
      Incapaz de resistir, Nash pegou um dos frascos, removendo a longa tampa de cristal, e aspirou. Naquele momento, foi como se ela estivesse ali no quarto, ele 
quase pde v-la. Tal era a complexidade e o poder da magia daquela mulher.
      Relutante, fechou o frasco e deixou-o onde estava. Diabos, no queria esperar por ela o dia inteiro. No queria esperar nem mesmo uma hora.
      "Calma, Kirkland", disse a si mesmo. Ela sara apenas cinco minutos atrs. Estava agindo como um homem obcecado. Ou enfeitiado.
      Esse pensamento provocou-lhe uma pequena e perturbadora dvida, que o fez franzir a testa por um momento, e depois descartou. No estava sob nenhum tipo de 
feitio, pensou. Sabia exatamente o que estava fazendo, e tinha total controle de seus atos. Era apenas aquele quarto, que continha tantas coisas dela, que o fazia 
desej-la ainda mais.
      Com expresso preocupada, passou os dedos por uma pilha de pedras lisas e coloridas que ela guardara numa vasilha de vidro. Se estivesse obcecado, Isto tambm 
podia ser explicado. Morgana no era uma mulher comum. Depois do que vira, com tudo o que sabia, era natural pensar nela com mais freqncia do que costumava pensar 
nas outras. Afinal, o sobrenatural era o seu forte. E Morgana era a prova viva de que o extraordinrio existia no mundo real.
      E era uma amante maravilhosa. Generosa, livre, desavergonhadamente receptiva. Tinha senso de humor, era esperta - inteligente, alm de possuir um corpo gil 
e sensacional. Apenas uma combinao como esta seria capaz de fazer qualquer homem ajoelhar-se e implorar. Quando se acrescentava a pitadinha de magia, ela se tornava 
irresistvel. 
      Alm de tudo, ela o ajudara com sua histria. Quanto mais Nash pensava sobre isso, mais se certificava de que aquele roteiro era o melhor trabalho que j fizera.
      Mas e se ela no gostasse? Tal idia explodiu em sua mente como raio, e ele ficou imvel, olhando para o vazio. S porque tinham dormido juntos, e compartilhado 
algo inalcanvel demais para que ele pudesse nomear, no significava que ela iria entender e apreciar seu trabalho.
      O que diabos ele estava pensando, quando lhe dera o roteiro para ler antes mesmo de corrigi-lo? 
      Que timo, pensou com desgosto enquanto abaixava-se para pegar a cala jeans. Agora iria preocupar-se com isso pelas muitas horas que teria pela frente. Arrastando-se 
para o banheiro, perguntou-se como conseguira envolver-se to profundamente com uma mulher capaz de enlouquec-lo de tantas maneiras.
      
      CAPTULO 8
      
      Mais de quatro horas se passaram, antes que Morgana tivesse a chance de tomar uma xcara de ch e ter um momento sozinha. Clientes, telefonemas e mercadorias 
que chegavam mantiveram-na to ocupada que mal teve tempo de dar uma espiada nas primeiras pginas do roteiro de Nash.
      E o pouco que leu deixou-a interessada o bastante para ressentir-se de cada interrupo. Agora, esperava a gua ferver enquanto beliscava um cacho de uvas. 
Mindy estava na loja, atendendo dois estudantes universitrios. E, desde que ambos eram rapazes, Morgana sabia que ela no precisava de nenhuma ajuda.
      Com um suspiro, preparou o ch, deixou-o descansando e acomodou-se com o roteiro de Nash na mo.
      Uma hora mais tarde, esquecera-se do ch, que j esfriara no bule. Fascinada, voltou para a primeira pgina e comeou a ler novamente. Era brilhante, pensou, 
sentindo uma onda de orgulho ao pensar que o homem a quem amava era capaz de criar algo to rico, to inteligente, to absorvente.
      Talentoso, sim. Ela sempre soubera que Nash tinha talento. Seus filmes sempre a divertiram e impressionaram. Porm, nunca havia lido um roteiro de cinema, 
antes. De alguma forma, imaginara que no haveria nada alm um esboo, uma estrutura na qual o diretor, os atores e tcnicos se baseariam para montar um filme que 
agradasse s platias. Mas aquele texto possua fora, era to cheio de vida e alma, que nem parecia tratar-se apenas de palavras colocadas no papel. Ela podia ver 
as cenas, ouvir, sentir.
      Imaginou que, quando tais recursos extras fossem acrescentados pelos atores, pela cmera e pelo diretor, Nash bem poderia ter nas mos o melhor filme da dcada.
      Ficou admirada ao perceber que aquele homem a quem julgava charmoso, um tanto pretensioso, e muitas vezes convencido, possua algo assim em seu interior. No 
entanto, ela tivera a noite anterior para descobrir os poos profundos de ternura que ele guardava dentro de si.
      Deixando o roteiro sobre a mesa, recostou-se na cadeira. E ela que sempre se considerara to astuta, pensou com um sorrisinho. Quantas surpresas Nash Kirkland 
ainda guardaria na manga?
      
      Nash estava trabalhando na surpresa seguinte com a maior concentrao que podia. A inspirao surgira de repente, e ele nunca deixava uma boa idia passar 
despercebida.
      Sentiu uma pontadinha de preocupao ao lembrar-se de que deixara a porta dos fundos da casa de Morgana destrancada. Mas calculava que com a reputao dela, 
e com o cachorro, que mais parecia um lobo, rondando pelo quintal, ningum se atreveria a invadir a casa.
      De qualquer forma, desconfiava que Morgana j devia ter providenciado algum tipo de feitio protetor para a casa.
      Teria de ser perfeito, disse a si mesmo enquanto lutava para arrumar uma braada de flores, compradas, dessa vez, num vaso. Elas pareciam ter vida prpria, 
com as hastes enroscando-se e os botes pendendo para os lados errados. Depois de vrias tentativas, o arranjo ainda dava a impresso de que as flores tinham sido 
enfiadas no vaso por uma descuidada criana de dez anos. Quando finalmente terminou, havia enchido trs vasos e estava feliz por reconhecer que jamais daria um bom 
diretor de cenrio.
      Mas as flores tinham ,um perfume delicioso.
      Um rpido olhar no relgio avisou-o de que o tempo estava ficando escasso. Ajoelhou-se diante da lareira e acendeu o fogo. Exigiu mais tempo e, ele calculava, 
muito mais esforo do que Morgana precisaria, mas, enfim conseguiu que as chamas se erguessem alegremente na lenha. Um fogo no era realmente necessrio, mas ele 
gostava do efeito.
      Satisfeito, levantou-se para verificar o cenrio que montara com tanto cuidado. A mesa estava posta para dois, com uma toalha branca que ele encontrara na 
gaveta de -m dos armrios da sala de jantar. Embora a sala de jantar tivesse suas possibilidades, com o teto alto e a enorme lareira, achou que a saleta de estar 
seria mais aconchegante.
      A porcelana tambm era dela, muito bonita e antiga, com botezinhos de rosas enfeitando as beiradas dos pratos brancos e reluzentes. Ele arrumara os pesados 
talheres de prata nos lugares, e as taas de champanhe de cristal Tudo dela, tambm. E dobrara cuidadosamente em forma de tringulo, os guardanapos de damasco rosa 
escuro.
      Perfeito, concluiu. Depois, praguejou.
      Msica. Como podia ter esquecido da msica? E das velas. Correu para o aparelho de som e vasculhou por entre uma enorme coleo de CDs. Chopin, decidiu, embora 
estivesse mais sintonizado com os Rolling Stones do que com a msica clssica. Ligou o aparelho e inseriu o disco, e assentiu com aprovao ao ouvir os primeiros 
acordes. Ento iniciou a busca pelas velas.
      Dez minutos depois conseguira distribuir uma dzia delas Por toda a sala, brilhando e exalando fragrncias de baunilha, Jasmim e sndalo.
      Mal teve tempo de congratular-se quando ouviu o carro de Morgana chegar. E correu para a porta, alcanando-a apenas alguns centmetros antes que Pan.
      L fora, Morgana franziu a testa ao ver o carro de Nash. Porm, o fato de que ele estava quase meia hora adiantado no a aborreceu. Nem um pouco. Estava sorrindo, 
quando encaminhou-se para a porta, levando o roteiro sob um dos braos e uma garrafa de champanhe no outro.
      Nash abriu a porta e envolveu-a num beijo longo e apaixonado. Querendo receber seu prprio agrado Pan fez o possvel para intrometer-se entre eles. 
      - Ol - Nash falou, quando seus lbios separaram-se.
      - Ola. - Morgana entregou-lhe a garrafa e o envelope para que pudesse afagar o plo de Pan antes de fechar a porta. - Voc est adiantado. - Eu sei. - Nash 
examinou o rtulo da champanhe. Ora, ora... Estamos comemorando alguma coisa?
      - Achei que podamos comemorar. - Quando ela endireitava o corpo, a ala do vestido escorregou pelo seu ombro.
      - Na verdade,  um presente de parabns para voc. Mas espero que divida comigo.
      - Com todo prazer. Por que estou recebendo os parabns?
      Morgana fez um gesto na direo do envelope que ele segurava.
      - Por isto. Sua histria.
      Ele sentiu o n, que permanecera em seu estmago durante todo o dia, desfazer-se.
      - Voc gostou.
      - No. Adorei. E, assim que me sentar e tirar os sapatos, vou lhe dizer por qu.
      -Vamos entrar. - Depois de passar a garrafa e o envelope para uma s mo, Nash enlaou-lhe o ombro. Como esto as coisas na loja?
      - Ah, muito bem. De fato, estou at pensando em perguntar a Mindy se no 'gostaria de trabalhar uma ou duas horas a mais. Estamos tendo... - As palavras ficaram 
suspensas no ar, quando ela entrou na saleta.
      A luz das velas era to mstica e romntica quanto raios de luar, reluzindo na prataria, lanando arco-ris nos cristais.
      Em toda parte havia o perfume das flores e das velas, e o delicioso soar dos violinos. O fogo ardia suavemente na lareira.
      No era sempre que alguma coisa a fazia perder o equilbrio. Agora, sentia a ferroada das lgrimas no fundo da garganta, lgrimas que eram provocadas por uma 
emoo to pura e verdadeira que ela mal pde suportar.
      Olhou para ele, e o luzir das velas formou dezenas de estrelas em seus olhos.
      - Voc fez tudo isso para mim?
      Tambm emocionado, Nash roou os dedos no rosto dela.
      - Acho que foram os duendes.
      Sorrindo, Morgana beijou-o de leve.
      - Pois eu gosto muito dos duendes.
      Nash virou-se, de forma que seus corpos se encontraram.
      - E como se sente a respeito de roteiristas de cinema?
      Os braos dela enlaaram-lhe a cintura, confortavelmente.
      - Estou aprendendo a gostar deles, tambm.
      - timo. - Enquanto a beijava, Nash percebeu que suas mos estavam ocupadas demais para permitirem que a acariciasse. - Espere um pouco, vou me livrar deste 
envelope e abrir o champanhe.
      - Parece uma idia excelente.
      Com um suspiro longo e prazeroso, Morgana tirou os sapatos enquanto ele atravessava a sala para pegar a garrafa de champanhe que deixara no balde de gelo. 
Virou as duas garrafas para ela, mostrando-lhe os rtulos idnticos.
      - Telepatia? - perguntou.
      Movendo-se na direo dele, ela sorriu.
      - Tudo  possvel.
      Nash deixou o envelope de lado, enfiou a segunda garrafa no gelo e abriu a primeira, com um alegre estampido. Serviu a bebida e, depois de entregar uma taa 
a ela tocou-a num brinde.
      -   magia.
      - Sempre - Morgana murmurou, e bebeu. Tomando-lhe a mo, levou-o para o sof, onde poderiam admirar o fogo abraadinhos. - Ento, o que fez hoje, alm de invocar 
alguns duendes?
      - Queria lhe mostrar o meu lado Cary Grant.
      Rindo, ela roou os lbios no rosto dele.
      - Eu gosto de todos os seus lados. 
      Sorrindo, Nash apoiou os ps na mesa de centro.
      - Bem, passei um bocado de tempo tentando arrumar as flores, para que parecessem como nos filmes.
      Morgana olhou em volta.
      - Temos de concordar que seus talentos no abrangem os arranjos florais. Mas adorei as flores.
      - Imaginei que o esforo valeria a pena. - Nash distraiu-se mexendo num dos brincos dela. - Fiz algumas correes no roteiro. PenseI muito em voc. Recebi 
um telefonema muito animado do meu agente. Pensei em voc mais um pouco.
      Ela deu uma risadinha e recostou a cabea no ombro dele. Lar. Ali era o seu lar, sem a menor sombra de dvida.
      - Parece que voc teve um dia muito produtivo. Por que seu agente estava to animado?
      - Bem, acontece que ele recebeu uma oferta de um produtor interessadssimo.
      Morgana endireitou o corpo, fitando-o com alegria.
      - O seu roteiro.
      - Foi aceito logo na primeira vez. - Parecia um tanto estranho... No, Nash pensou, era maravilhosamente estranho ter algum to contente por ele. - Na verdade, 
 apenas o esboo, mas desde que parece que a sorte est me sorrindo, j temos um acordo em andamento. Vou deixar o roteiro "descansar" por alguns dias, depois darei 
mais uma olhada. S ento o enviarei para ele.
      - No  sorte. - Morgana fez outro brinde com as taas.
      - Voc tem a magia. - Pousou o dedo na tmpora dele.
      - Bem aqui- Depois, tocou-o no corao. - Ou de onde quer que a imaginao venha.
      Pela primeira vez em sua vida adulta, Nash sentiu que iria ruborizar. Ento, em vez disso, beijou-a.
      - Obrigado. Eu no teria conseguido, se no fosse por voc.
      Com um riso leve, ela recostou no sof.
      - Detesto discordar de voc. Portanto, no vou.
      Distrado, Nash deslizou a mo pelos ombros dela. Sentia-se imensamente bem, percebeu, apenas estando sentado ali, ao final do dia, com algum que era importante 
para ele.
      - Que tal alisar meu ego e dizer-me porque gostou do roteiro?
      Morgana estendeu a taa, para que ele tomasse a ench-la.
      - Duvido que seu ego precise ser alisado mas, de qualquer forma, vou lhe dizer.
      - Fique  vontade e no se apresse. No quero que esquea de nada.
      - Todos os seus filmes possuem uma trama. Mesmo quando h sangue espalhado por todos os lados, ou algo terrvel arranhando a janela, existe neles uma qualidade 
que vai alm dos sustos ou do medo. Neste roteiro, embora seja bem provvel que voc faa alguns coraes dispararem com a cena do cemitrio, e com aquele negcio 
no sto, voc d um passo adiante. - Morgana virou o rosto para ele. - No  somente uma histria de feitiarias e do poder de conjurar foras do bem e do mal. 
 sobre pessoas, e sobre sua humanidade bsica. Sobre acreditar em coisas maravilhosas e confiar em seu corao.  um tipo de celebrao divertida pelo fato de 
ser diferente, mesmo quando isso  difcil. No final, apesar do terror, da dor e do sofrimento, existe o amor. E isso  o que todos ns desejamos.
      - Voc no se importou por eu ter feito Cassandra preparar seus feitios com terra de cemitrio, ou com os cnticos junto ao caldeiro fumegante?
      - Considerei como licenas poticas - Morgana respondeu, arqueando a sobrancelha. - Creio que achei possvel tolerar essas coisas em nome da sua criatividade. 
Mesmo quando ela se disps a vender a alma ao demnio para salvar Jonathan.
      Encolhendo os ombros, Nash esvaziou a taa.
      - Se Cassandra possua o poder para o bem, a histria no teria muito impacto se, ao menos uma vez ela no tivesse de enfrentar-se com o poder do mal. Veja 
bem, existem alguns "mandamentos bsicos para o terror. E, embora essa no tenha se tornado exatamente uma histria de terror, acho que tais mandamentos ainda se 
aplicam.
      - O mximo do bem contra o mximo do mal? - ela sugeriu.
      - Este  um deles. Outro: os inocentes precisam sofrer _ Nash acrescentou. - Depois, h sempre o rito de passagem.E  preciso que jorre sangue destes mesmos 
inocentes.
      - Algo bem msculo - Morgana disse, irnica.
      - Ou bem feminino. No tenho preconceitos quanto ao sexo.
      E o bem deve, atravs de muitos sacrifcios, sempre triunfar.
      - Parece justo.
      - H mais um, o meu preferido. - Nash passou o dedo pela nuca de Morgana, provocando-lhe um arrepio. - A platia deve pensar, e continuar pensando, que qualquer 
que seja o mal que tenha sido eliminado, ele ainda poder esgueirar-se furtivamente, mesmo depois da cena final.
      Ela pressionou os lbios.
      - Todos ns sabemos que o mal sempre se esgueira furtivamente.
      - Isso mesmo. - Ele sorriu. - Do mesmo jeito que todos ns nos perguntamos, de vez em quando, se h realmente alguma coisa fazendo barulho dentro do armrio 
no meio da noite. Depois que as luzes esto apagadas, e quando estamos sozinhos. - Mordiscou o lbulo da orelha dela. Ou o que realmente est fazendo aquele barulho 
de galhos na janela, ou esquivando-se pelas sombras, esperando, pronto para assumir sua forma e...
      Quando a campainha tocou, Morgana deu um pulo. Nash riu. Ela praguejou.
      - Quer que eu atenda? - ele perguntou.
      Ela endireitou o corpo com dignidade e puxou a saia para os joelhos.
      - Sim, por favor.
      Quando Nash se afastou, ela estremeceu de leve. Ele era bom, admitiu. To bom que ela, com todo seu conhecimento, fora enganada direitinho. Ainda estava decidindo 
se deveria ou no perdo-lo quando Nash voltou para a sala acompanhado de um homem alto e grandalho, que equilibrava uma enorme bandeja. Ele usava um smoking branco 
e gravata borboleta vermelha. Bordado no bolso do palet estava o nome Chez Maurice. .
      - Pode deixar na mesa, Maurice.
      - Meu nome  George, senhor - o homem falou, num tom de desculpas.
      - Tudo bem. - Nash piscou para Morgana. - Apenas deixe tudo a em cima.
      - Receio que isso demore algum tempo.
      - Ns temos tempo.
      - A mousse de caf precisa ficar na geladeira, senhor - George salientou. Nash percebeu que o pobre homem tinha uma desculpa permanentemente presa na garganta.
      - Eu levo para a cozinha.
      Morgana levantou-se para pegar o recipiente. Quando saiu da sala, ouviu George murmurar tristemente que o radicchio no estava muito bom naquele dia, e que 
teriam de contentar-se com as endvias.
      - A vida dele  cozinhar - Nash explicou quando Morgana retornou, momentos depois. - E capaz de chorar quando pensa no desprezo com que os entregadores tratam 
os cogumelos recheados, machucando-os sem piedade.
      - So uns selvagens - Morgana ironizou.
      - Exatamente o que eu disse. Isso fez com que George se sentisse um pouco melhor. Ou, talvez, tenha sido a gorjeta.
      - Ento, o que foi que George trouxe para ns? - Ela passou os olhos pela mesa. - Salada de endvia.
      - O radicchio no estava...
      - Muito bom - ela completou. - Eu ouvi. Humm...lagosta.
      -  la Maurice.
      -  claro. - Morgana sorriu sobre o ombro, enquanto Nash lhe puxava uma cadeira. - Existe mesmo um Maurice?
      - George lamentou muito informar que ele morreu h trs anos. Mas continua presente em esprito.
      Ela, riu e comeou a comer com prazer.
      - E um efeito muito criativo de encomendar comida pronta.
      , - pensei em pedIr frango assado, mas achei que a lagosta causarIa uma impresso melhor.
      - E causou. - Morgana mergulhou um pedao de lagosta na manteIga derretida, observando-o enquanto levava o garfo a boca. - Voc montou um cenrio muito bonito, 
Nash.
      - Roou levemente a mo sobre a dele. - Obrigada.
      . - Disponha. - Na verdade, ele esperava que houvesse ainda muitos outros cenrios, por muitas outras vezes. Com apenas eles, somente os dois, sendo os nicos 
personagens.
      Apanhou-se de repente, surpreso ao ver que estava acalentando pensamentos to srios. E to permanentes. Para acalmar-se um pouco, serviu mais champanhe.
      - Morgana?
      - Sim?
      - H algo que estou querendo lhe perguntar a dias.
      - Nash levou a mo dela aos lbios, achando a sua pele muito mais sedutora do que a comida. - A sobrinha da senhora. Littleton vai ao baile de formatura?
      Morgana piscou, primeiro, depois ergueu a cabea e riu.
      - Meu Deus, Nash, voc  um romntico!
      - Apenas curioso. - Sem resistir ao brilho divertido nos olhos dela, ele sorriu. - Certo, est bem. Sou to favorvel aos finais felizes quanto qualquer outra 
pessoa. Ento, ela conseguiu o rapaz que queria?
      Morgana pegou mais um pedao de lagosta.
      - Parece que Jessie conseguiu reunir coragem para perguntar a Matthew se ele gostaria de acompanh-la ao baile.
      - Bom para ela. E...
      - Bem, a informao que tenho veio atravs da senhora. Littleton, portanto pode no ser muito exata.
      Nash inclinou-se na mesa e perpassou o dedo na ponta do nariz dela.
      - Escute aqui, benzinho, eu sou o escritor. Voc no precisa fazer uma pausa para criar suspense. Fale de uma vez.
      - Minha informao  que ele ruborizou, gaguejou um pouco, ajeitou aqueles culos com aros de tartaruga to engraadinhos que usa, e disse "acho que sim".
      Solenemente, Nash ergueu a taa.
      - Um brinde a Jessie e Matthew.
      Morgana tambm ergueu a sua.
      - Ao primeiro amor. Que  o mais doce.
      Ele no tinha muita certeza quanto a isso, desde que tivera tanto sucesso em evitar a experincia.
      - O que aconteceu ao seu namoradinho de escola? perguntou.
      - O que o faz pensar que tive um?
      - Ora, todo mundo teve.
      Morgana reconheceu que sim, inclinando a cabea para o lado.
      - Na verdade, houve mesmo um garoto. O nome dele era Joe, e jogava no time de basquete.
      - Um atleta.
      - Nem tanto, ele ficava na reserva. Mas era alto. A altura era importante para mim, naquela poca, pois eu ultrapassava todos os meninos da minha classe. Ns 
namoramos um pouco, durante o ltimo ano do colgio. Ela bebeu o champanhe. - E tivemos bons momentos em seu Ford Pinto 72.
      - De duas portas?
      - Acho que sim.
      - Gosto de ter uma boa visualizao. - Nash estreitou os olhos. - No pare agora, j posso ver tudo. Cena externa, noite. O carro estacionado numa rua escura, 
deserta. Os dois namorados agarradinhos, trocando beijos desesperados e furtivos enquanto o rdio toca o tema de A Summer Place.
      - Creio que a msica da poca era Hotel Califrnia ela corrigiu.
      - Tudo bem. Quando os ltimos acordes da guitarra desaparecem no ar...
      - Sinto muito, mas paramos a mesmo. Ele foi para Berkeley no outono, e eu fui para Radcliffe. A boa altura e os belos lbios no foram suficientes para manter 
meu corao envolvido a uma distncia de duzentos quilmetros.
      Nash suspirou em nome de todos os homens.
      - Fraqueza, teu nome  mulher.
      - Pois acho que Joe recuperou-se admiravelmente. Casou-se com uma economista e mudou-se para St. Louis. Pela ltima contagem, os dois j tinham produzido trs 
quintos de seu prprio time de basquete.
      - Pobre e velho Joe.
      Desta vez, foi Morgana quem encheu as taas.
      - E quanto a voc?
      - Nunca gostei muito de jogar basquete.
      - Eu estava me referindo s namoradas.
      - Ah... - Nash recostou na cadeira, desfrutando do momento: o fogo estalando na lareira, a bela mulher lhe sorrindo por sobre as velas acesas, a deliciosa 
efervescncia da champanhe em sua cabea. - O nome dela era Vicki com i. Era animadora de torcida.
      - E o que mais?
      - Fiquei rondando-a por quase dois meses, antes de criar coragem de convid-la para sair. Eu era tmido. .
      Morgana sorriu por sobre a borda do copo.
      - No acredito...
      - Sim,  verdade. Fui transferido para a escola no meio do semestre do ltimo ano colegial. quela altura, todos os grupos e panelinhas j estavam firmemente 
estabelecidos e no se abriam nem com uma alavanca. Quando se fica de fora, sobra muito tempo para observar e imaginar. 
      Morgana sentiu um lampejo de simpatia, mas no teve certeza se ele gostaria de saber.
      - E, ento, voc passava o tempo observando a garota.
      - Passava o tempo todo olhando para Vicki. Pareciam sculos. A primeira vez em que a vi fazendo acrobacias para. a torcida, fiquei apaixonado. -- Nash fez 
uma pausa, analisando Morgana. - Voc era a lder da torcida?
      - No, sinto muito. .
      _  pena. Eu ainda tenho palpitaes quando vejo uma garota fazendo acrobacias. De qualquer forma, finalmente juntei coragem para convid-la para ir ao cinema. 
Era "Sexta-Feira 13". O filme, no o dia. Enquanto Jason decepava todos aqueles infelizes adolescentes, eu fazia os meus primeiros ataques desajeitados. Mas Vicki 
foi receptiva, e ficamos juntos pelo restante do ano escolar. Depois ela acabou me trocando por um marginal que dirigia uma moto e tinha uma tatuagem.
      - Que pena... .
      Encolhendo os ombros com resignao, Nash retirou a lagosta da casca.
      - Ouvi dizer que ela fugiu para se casar com ele, e foram morar num trailer em El Paso. O que  o mnimo que ela merecia, depois de despedaar meu corao.
      Inclinando a cabea, Morgana lanou-lhe um olhar enviesado.
      - Acho que voc est inventando tudo isso.
      - Somente uma parte.
      Ele no gostava de falar sobre seu passado, com ningum. A fim de distra-la, levantou-se e foi trocar o CD. Agora, os acordes de uma msica lenta e sonhadora 
d Gershwm encheram o ar. Voltando para a mesa, Nash pegou-a pela mo e a fez levantar.
      _ Quero abraar voc - disse, simplesmente. .
      Morgana moveu-se docilmente para os braos dele e deixou-se levar. A princpio, ficaram apenas balanando sob a msica, ele com os braos rodeando-lhe a cintura, 
ela com os seus apoiados na nuca de Nash, ambos com os olhos fixos um no outro. Ento, aos poucos ele guiou-a para uma dana, de forma que seus corpos moviam-se 
juntos, acompanhando o ritmo suave da msica.
      Nash constatou que sempre se lembraria de Morgana sob a luz das velas. Combinava to bem com ela. A pele irlandesa e sedosa iluminava-se, parecendo to frgil 
e delicada quanto a porcelana enfeitada de rosinhas. Os cabelos, negros como a noite que aprofundava-se por trs das janelas, estavam banhados por minsculas luzinhas 
de estrelas. Havia mais estrelas em seus olhos, espalhadas como uma poeira lunar no profundo azul noturno.
      O primeiro beijo foi tranqilo, um suave encontro dos lbios que prometia muito mais. Prometia qualquer coisa que pudesse ser desejada. Nash sentiu o champanhe 
girar-lhe a cabea, quando baixou os lbios novamente, e Morgana recebeu-os com seus prprios lbios entreabertos como ptalas de rosa.
      Ela deslizou os dedos pelo pescoo dele, sedosos, tensionando-Ihe os nervos da superfcie. Um gemido baixo escapou-lhe da garganta, um gemido que fez com que 
o sangue de Nash fervesse em resposta. Seu corpo moveu-se contra o dele, enquanto o beijo ficava mais profundo. Seus olhos mantinham-se abertos, sugando-o para dentro 
de si.
      Nash espalmou as mos nas costas dela, excitado pelo rpido estremecimento que obteve em resposta. Olhando-a, desejando-a, desamarrou a fita que prendia-lhe 
a trana, passando os dedos entre as mechas intrincadas, desfazendo-as. Podia ouvi-la ofegar, ver seus olhos obscurecerem-se, enquanto procurava novamente aqueles 
lbios macios, puros.
      Morgana sentia o sabor do perigo, do prazer e do desespero. Tal combinao ergueu-se como um turbilho dentro de si, uma mistura mais intoxicante do que qualquer 
vinho. Os msculos dele pareciam fios de ao sob suas mos, e ela tremeu com um misto de medo e prazer ao imaginar o que aconteceria quando se distendessem.
      O desejo tomava muitas formas. Naquela noite, ela sabia, no viria como a explorao paciente e reverente que tinham experimentado antes. Naquela noite, haveria 
um fogo devastador.
      Algo explodiu dentro dele. Nash quase podia ouvir as correntes de seu autocontrole se rompendo. Afastou-se, com as mos ainda segurando os braos dela, seu 
corpo como uma massa de dores e desejos. Morgana nada falou, limitando-se e fit-lo, os lbios macios e marcados pelos dele, os cabelos emaranhados como uma noite 
inquieta em tomo dos ombros. Os olhos repletos de nuvens e promessas secretas.
      Nash tornou a abra-la. E, enquanto sua boca a devorava, ergueu-a nos braos.
      Morgana jamais acreditara que se deixaria ser arrastada daquela maneira. Mas estava enganada. Enquanto Nash saa da sala e subia as escadas, tanto sua mente 
quanto seu corpo o acompanhavam de bom grado. Moita e mais do que pronta, deixou os lbios percorrerem o rosto dele, deslizando pelo pescoo e, depois, novamente 
para encontrar-lhe a boca vida.
      Nash no parou na porta do quarto, nem mesmo quando viu que ela trouxera as velas e a msica com eles. A cama estava no centro de seu brilho, acenando-lhes. 
Ele tombou sobre ela, com Morgana nos braos.
      Mos impacientes, bocas famintas, palavras desesperadas. Nash no se saciava. No haveria o suficiente para preencher sua necessidade voraz. Sabia que ela 
estava com ele, chama por chama, exigncia por exigncia, mas queria lev-la mais alm, mais rpido, at nada mais houvesse a no ser o calor ardente e o vento selvagem.
      Morgana no conseguia respirar. O ar estava pesado demais, e quente, to quente que ela imaginou que sua pele iria explodir em chamas. Procurou por ele, pensando 
que poderia pedir, implorar por um momento, uma pausa para que pudesse parar e recuperar a sanidade. Ento os lbios dele tornaram a esmagar os seus, e at o desejo 
pela razo desvanesceu-se.
      Num louco impulso de avidez, Nash enfiou a mo pelas alas do vestido dela. As tiras abriram-se como minsculas exploses, revelando a pele ardente e um sedutor 
suti de renda preta. Com um gemido incontido, ele arrebentou o frgil fecho nas costas, fazendo com que os seios transbordassem em suas mos inquietas.
      Morgana gritou, no por medo nem dor, mas de prazer, enquanto a boca ansiosa cravava-se em sua pele.
      Nash era implacvel, inexorvel, imprudente. O desejo parecia penetr-lo como lminas ardentes, cortando todos os laos com tudo o que fosse civilizado. Suas 
mos moviam-se sobre ela, deixando marcas doloridas e trmulas em sua trilha.
      A resposta dela no foi a submisso, nem a rendio, mas sim uma nsia que tornou-se to ardente quanto a dele. Ela exigia, atormentava, provocava.
      Rolaram juntos sobre a cama, tomados por um embate de paixo, as mos selvagens arrancando e rasgando as roupas, buscando o prazer da pele nua e quente. Nash 
fez o que bem queria, libertando cada fantasia obscura que guardava no mais ntimo de si. Tocando, provando, devorando.
      Morgana estremeceu, colando-se a ele enquanto as ondas atiravam-se sobre ela, deixando-a exaurida. O nome dele era um cntico inconsciente que lhe saa dos 
lbios trmulos um cntico que terminou num soluo quando Nash a fez pairar novamente nos ares.
      Atordoada, ela subiu sobre ele. Nash podia ver a luz das velas reluzindo em sua pele, e seus olhos, escuros e atnitos pelo que ele lhe dera. Sabia que morreria 
se no a tivesse naquela noite, na noite seguinte, em milhares de outras.
      Pressionou-a de costas no colcho, prendendo-lhe as duas mos. Com a respirao ofegante, conteve-se o suficiente para que seus olhos se encontrassem. Foi 
um desafio que viu nos olho- dela? Ou seria triunfo?
      Ento, penetrou-a. As mos dela enrijeceram sob as dele e seu corpo arqueou-se para receb-lo.
      Velocidade. Poder. Glria. Voavam juntos, a cada investida, com a fora nascida dos desejos estilhaados. Nash beijou-a novamente, com desespero. Morgana abraou-o, 
mergulhando as unhas em suas costas.
      Nash sentiu a convulso no gil corpo dela, ouviu-a ofegar de prazer. Ento, sua prpria mente obscureceu-se enquanto saltava pelo fio da navalha a fim de 
segui-la.
      
      Muito tempo depois, ele arrastou-se de volta pelo caminho da razo. Girou o corpo sobre o deIa, querendo deix-la respirar. Agora, Morgana estava de costas, 
esparramada sobre a cama. Recuperando o flego, Nash observou-a nas sombras, enquanto recordava rapidamente o que acontecera entre eles. E no teve certeza se deveria 
sentir-se envergonhado ou maravilhado.
      Ele havia... bem, imaginava que atacar seria uma palavra adequada para o que fizera. Sem dvida no se preocupara muito com delicadezas. No entanto, por maior 
que fosse o prazer que j desfrutara com uma mulher, nunca antes havia escorregado para os limites da loucura, como acontecera h pouco. Tinha seus pontos positivos, 
porm ele no sabia como Morgana estaria se sentindo a respeito de ter as roupas rasgadas e arrancadas.
      Nash pousou amo incerta sobre o ombro dela, que estremeceu. Franzindo a testa, ele tentou novamente.
      - Morgana... voc est bem?
      Ela emitiu um som, algo entre um gemido e um soluo. Nash sentiu um rpido lampejo de medo, ao pensar que ela estava chorando. Parabns, Kirkland, pensou furioso 
enquanto fazia mais uma tentativa. Passou a mo pelos cabelos macios.
      -- Morgana, meu bem, desculpe se eu...
      Deixou as palavras no ar, sem saber o que dizer. Lentamente ela virou a cabea, conseguindo erguer a mo inerte o bastante para afastar os cabelos emaranhados 
do rosto.
      Piscou para ele.
      - Voc disse alguma coisa?
      - Eu s... Voc est bem?
      Ela suspirou. Um som longo e felino, que provocou uma pontada no corpo traioeiro dele.
      - Se estou bem? - Morgana parecia provar cada palavra, testando-as com a lngua. - Acho que no. Pergunte novamente quando eu encontrar foras para me mexer. 
Estendeu a mo sobre os lenis amarrotados, procurando a dele. - Voc est?
      - Estou o qu?
      - Est bem?
      - No fui eu o atacado.
      A palavra fez com que um sorriso se espalhasse preguiosamente no rosto dela.
      -- No? Pois achei que tinha feito um bom trabalho. Ela espreguiou-se, satisfeita em ver que seu corpo estava quase funcionando novamente. - D-me uma hora, 
e podemos tentar outra vez.
      O alvio espalhou-se sobre ele.
      - Quer dizer que no est zangada?
      - Pareo zangada?
      Ele pensou melhor. Morgana parecia uma gata que acabara de banquetear-se com um litro de creme de leite. Nem mesmo percebeu que tambm comeara a sorrir.
      - No, acho que no.
      - Est satisfeito consigo mesmo, no est?
      - Talvez sim. - Nash comeou a estender a mo para abra-la, mas viu que seus dedos enroscavam-se no que sobrara do suti dela. - E voc?
      Morgana reparou que o sorriso no desaparecia do rosto dele. Nash olhava para ela, mas cantarolava baixinho enquanto removia a renda rasgada dos dedos. Morgana 
ajoelhou-se na cama, notando que os olhos muito satisfeitos percorriam-na por inteiro.
      - Sabe de uma coisa, Nash?
      - No. O qu?
      - Vou ter de apagar este sorrisinho do seu rosto.
      - E mesmo? Como?
      . Atirando os cabelos para trs, ela posicionou-se sobre ele. Devagar, sinuosamente, escorregou para baixo.
      - Nem queira saber.
      
      CAPTULO 9
      
      No que dizia respeito a Nash, a vida era perfeita. Passava os dias fazendo o que mais gostava e era bem pago por isto. Tinha boa sade, uma casa nova e um 
interessante acordo em andamento. E, melhor de tudo estava desfrutando de um incrvel caso de amor com uma mulher fascinante. Uma mulher a quem, ele descobrira nas 
ltimas semanas, no apenas sentia-se desesperadamente atrado, mas tambm considerava uma amiga.
      Ao longo de muitos anos de tentativas e erros, Nash aprendera que uma amante com quem no se tem prazer fora da cama poderia satisfazer o corpo, mas deixava 
o esprito querendo mais. Com Morgana, encontrara uma mulher com quem podia rir, conversar, discutir e fazer amor, tudo isso com uma sensao de intimidade que jamais 
experimentara antes.
      Uma sensao de intimidade que ele nunca imaginara querer tanto.
      s vezes, at se esquecia de que ela era algo mais do que uma simples mulher.
      Agora, depois de terminar a srie de abdominais que obrigava-se a fazer trs vezes por semana, ficou pensando nos ltimos dias que tinham passado juntos.
      Haviam feito um longo e divertido passeio de carro at Big Suf, parando num mirante para admirar a vista deslumbrante das colinas e do mar batendo nos rochedos, 
enquanto o vento chicoteava-lhe os cabelos. Como turistas, tiraram fotos com a mquina fotogrfica de Morgana, e filmaram com a cmera de vdeo dele.
      Embora se sentisse um pouco tolo, ele at apanhara algumas pedras, quando ela no estava olhando, e as guardara no bolso como uma lembrana daquele dia.
      Nash a seguira de perto enquanto ela perambulava pelas lojas em Carmel, demonstrando bom humor quando Morgana empilhava as sacolas de compras em seus braos.
      Almoos no terrao de algum adorvel caf, cercados de flores. Piqueniques ao pr-do-sol na praia, sentados abraados, com a cabea dela em seu ombro enquanto 
a enorme esfera vermelha lanava fogo no cu e mergulhava no mar de azul intenso.
      Era quase como se estivessem namorando.
      Com um leve resmungo, Nash deixou os braos relaxarem. Namorando? No, no era nada disso, assegurou-se, deitando de costas. Simplesmente gostavam da companhia 
um do outro, e muito. Mas no era namoro. O namoro tinha o hbito desprezvel de acabar em casamento.
      E casamento, ele decidira muito tempo atrs, era uma experincia que no pretendia ter.
      Uma dvida incmoda surgiu em sua mente, enquanto levantava-se para flexionar os msculos que exercitara pela ltima meia hora. Teria feito alguma coisa que 
a fizesse pensar que o relacionamento que tinham agora poderia levar a algo... bem, algo legal e permanente? Com DeeDee ele havia deixado tudo bem claro desde o 
incio, e ainda assim ela continuara pensando que seria capaz de faz-lo mudar de idia.
      Porm, no dissera nada  Morgana. Estivera ocupado demais apaixonando-se por ela para ser prtico.
      A ltima coisa que queria era mago-la. Morgana era importante demais, significava muito para ele. Ela era...
      "V com calma, Kirkland", alertou-se. Sim, sem dvida ela era importante. Gostava dela. Mas isso no significava que iria comear a pensar em amor. O amor 
tambm tinha o hbito inconveniente de acabar em casamento.
      Franzindo a testa, ficou parado no meio do quarto que equipara com aparelhos de musculao. Sem perceber o suor que escorria pelo rosto, analisou cautelosamente 
os prprios sentimentos. Tudo bem era verdade, ele gostava dela. Talvez mais do que j havia gostado de qualquer pessoa. Mas isso estava bem distante das flores 
de laranjeira, dos aconchegantes chals para dois e da famlia inteira viajando numa van.
      Esfregando a mo no peito, preparou-se para um exame mais apurado. Por que pensava nela com tanta freqncia? No podia lembrar-se de qualquer outra mulher 
que se intrometesse em sua rotina diria como Morgana fazia. Havia vezes em que parava de fazer o que quer que estivesse fazendo, apenas para pensar no que ela estaria 
fazendo. J no conseguia dormir direito, a no ser que ela estivesse ao seu lado. E se acordasse de manh e ela no estivesse ali, comeava o dia com uma incmoda 
sensao de desapontamento.
      Era um mau sinal, pensou enquanto pegava uma toalha para enxugar o rosto. Um sinal que deveria ter captado bem antes. Como no escutara nenhum sino de alarme?, 
perguntou-se. Nenhuma vozinha sussurrando-lhe no ouvido que estava na hora de retroceder um pouquinho.
      Em vez disso, ele estivera adiantando-se, correndo para frente com uma pressa precipitada.
      Mas ainda no alcanara a beira do precipcio. No ele, Nash Kirkland. Respirou fundo e soltou a toalha. Era apenas a sensao de novidade, decidiu. Logo o 
imediatismo das emoes que ela lhe provocava iria estabilizar-se at desaparecer.
      Encaminhando-se para o chuveiro, assegurou-se de que, como qualquer viciado, tinha pleno controle da situao. Poderia parar quando quisesse.
      Porm, como dedos que buscam uma coceira, sua mente continuava pensando no problema. Talvez ele estivesse bem estivesse no controle mas, e quanto a Morgana? 
Ela estaria sentindo a mesma coisa? Se estivesse to envolvida quanto ele, poderia estar imaginando... o qu? Uma vida no subrbio, com toalhas com monogramas bordados? 
Um cortador de grama eltrico?
      Um jato frio de gua atingiu-lhe o rosto. Nash apanhou-se fazendo uma careta.
      E ele ainda tivera coragem de afirmar que no tinha preconceitos quanto ao sexo. Ali estava ele, preocupando-se com a possibilidade de Morgana estar acalentando 
iluses de casamento e famlia. S porque ela era mulher. Ridculo. Ela no estava mais interessada do que ele em dar o passo fatal.
      Mas enquanto deixava a gua jorrar pela sua cabe-a, comeou a imaginar.
      Cena interior, dia. A casa  uma confusa mistura de brinquedos, roupas transbordando de cestos de plstico e pratos sujos. Num cercadinho colocado no meio 
da sala, uma criana est berrando. Nosso heri entra em casa, com uma pasta de couro na mo. Est usando um terno escuro e uma gravata estranguladora, com um prendedor. 
H um ar de desnimo em seu rosto. Um homem que enfrentou problemas o dia inteiro, e sabe que vai encontrar mais em casa. - Benzinho - ele diz, com uma tentativa 
de animao.
      - Cheguei.
      O beb geme e sacode-se no cercado. Resignado, nosso heri deixa a pasta no cho e vai pegar a criana impaciente. A fralda molhada vaza em seu brao.
      - Voc est atrasado outra vez.
      A esposa entra se arrastando. Seus cabelos so uma massa disforme em torno de um rosto cujas linhas so tensas zangadas. Usa um surrado roupo e um par de 
chinelos felpudos. Enquanto nosso heri balana no colo o beb molhado e choroso, a esposa pe as mos na cintura e comea a disparar uma lista de todos os defeitos 
e deficincias dele alternando com anncios, de que a mquina de lavar roupa quebrou, de que a pia est entupida e de que ela est grvida, de novo.
      No instante em que a cena que estava criando comeou a aliviar tanto a mente quanto a conscincia de Nash, ela desapareceu, dando lugar a uma outra. 
      Chegar em casa sentindo no ar o perfume das flores e do oceano. Sorrindo, porque estava exatamente onde queria estar. Onde precisava estar. Entrar na varanda 
carregando um buqu de flores. A porta se abre, e ela est ali, os cabelos amarrados num rabo-de-cavalo, os lbios curvados num sorriso de boas-vindas. Ela segura 
nos braos uma criana de cabelos escuros, que ri e estende os bracinhos delicados. Ele abraa a criana, sentindo o cheiro de talco, de beb e do perfume sutil 
de sua esposa. 
      - Estvamos com saudade - ela diz, erguendo o rosto para um beijo.
      Nash piscou. Num gesto irritado fechou a torneira do chuveiro e balanou a cabea.
      Havia exagerado um pouco, admitiu. Mas, desde que sabia que a segunda cena era mais fantasiosa do que qualquer coisa que j escrevera, ainda sentiu-se no controle.
      Quando saiu do chuveiro, perguntou-se quanto tempo ainda demoraria para Morgana chegar.
      
      Morgana pisou no acelerador e virou O volante para fazer a curva. Era to bom... no, era fabuloso disparar atravs da rodovia de trs pistas, com as janelas 
abertas e a brisa do mar soprando em seus cabelos. E o que tornava isso to maravilhoso era saber que estava dirigindo-se para um determinado lugar, para estar com 
algum que modificara toda sua vida, para melhor.
      Antes, ela vivia bem satisfeita sem ele. E talvez continuasse satisfeita se nunca o tivesse conhecido. Mas conhecera e, depois disso, nada mais seria igual 
outra vez.
      Imaginou se Nash saberia o quanto significava para ela o fato de ele aceit-la sem reservas. Duvidara disso. Nem ela mesma soubera o quanto isso significava 
at que acontecera. E, quanto a Nash, ele tinha o hbito de olhar as coisas por um ngulo enviesado e enxergar o humor das situaes. Morgana calculava que ele encarava 
seus... talentos como uma espcie de brincadeira com a cincia. E talvez fossem mesmo, de uma certa forma.
      Mas a coisa mais importante era que ele sabia, e aceitava. No a olhava como se esperasse que, de uma hora para outra, ela pudesse ter duas cabeas. Ele a 
olhava como uma mulher.
      Era fcil estar apaixonada por ele. Embora jamais tivesse se considerado uma pessoa romntica, Morgana comeara a gostar de todos os livros, das msicas e 
dos poemas escritos para celebrar os caprichos do corao. Era verdade que quando algum se apaixonava o ar parecia mais lmpido, e as flores mais perfumadas.
      Numa extravagncia, desejou ter uma rosa na mo, e sorriu ao aspirar o delicado boto que surgiu em seguida. Percebeu que seu mundo era exatamente como a rosa. 
Prestes a abrir-se e desabrochar.
      Sentiu-se um pouco tola, pensando assim. E sentia-se tambm atordoada, distrada. Mas seus pensamentos pertenciam apenas a si mesma, lembrou-se. At que ela 
os passasse para algum. Ento ocorreu-lhe que, mais cedo ou mais tarde, teria de compartilh-los com Nash.
      No podia ter certeza de quanto tempo demoraria para que as complicaes comeassem a aparecer, mas por enquanto era maravilhoso simplesmente aproveitar a 
suave onda de emoes que espalhava-se dentro dela.
      Quando virou para a entrada de carros da casa de Nash, ela estava sorrindo. Tinha algumas surpresas para ele, a comear com um plano para aquela noite de sbado. 
Parou o veculo e pegou uma sacola no assento traseiro, enquanto Pan enfiava a cabea pelo seu ombro.
      - Espere s um minuto - ela disse ao co -, depois voc pode sair e olhar tudo em volta. Luna ir lhe mostrar as redondezas.
      De seu cantinho no piso do lado de passageiros, Luna ergueu a cabea, com os olhos parecendo duas fendas. 
      - E se no se comportarem, mandarei os dois de volta para casa. Tero de ficar sozinhos at segunda-feira. 
      Ao sair do carro, Morgana sentiu uma vibrao, como se fosse uma cortina esvoaando em sua mente. Parou, com a mo apoiada na porta, absorvendo o sopro do 
vento, um som murmurante. O ar tornou-se mais denso, mais cinzento. Mas no sentia tonturas. Era como se tivesse sado do sol para a sombra, uma sombra onde mistrios 
aguardavam por soluo. Esforou-se para enxergar por entre a nvoa, mas esta caa pesadamente, provocando-a com apenas alguns traos e insinuaes.
      Ento o sol retornou, e havia somente o barulho do mar batendo nas rochas.
      Embora Morgana no tivesse do mesmo dom que Sebastian para a premonio, ou as tendncias de empatia de Anastsia, ela compreendeu.
      As coisas estavam prestes a mudar. E em breve. Morgana tambm compreendeu que tais mudanas poderiam significar algo que ela no desejava.
      Afastando a sensao desagradvel, comeou a andar na direo da casa. O futuro sempre poderia ser mudado, lembrou-se. Especialmente se se concentrasse no 
presente. E, desde que o presente significava Nash, ela estava disposta a lutar para mant-la.
      Nash abriu a porta antes que ela chegasse, e ficou ali parado, com as mos nos bolsos, sorrindo.
      - Ol, benzinho.
      - Oi! - Mudando a sacola de mo, Morgana enlaou-o pelo pescoo e curvou o corpo contra o dele, para um beijo. - Sabe como estou me sentindo?
      - Sei. - Ele deslizou as mos at os quadris dela. .Sei exatamente como voc est se sentindo. Fantstica.
      Ela riu e afastou de uma vez as ltimas dvidas que ainda restavam.
      - Pois acontece que est certo. - Carregada pela pura emoo, ela entregou-lhe a rosa.
      - Para mim? - Nash no tinha muita certeza de como um homem deveria reagir ao receber um boto de rosa de uma mulher.
      - S para voc. - Morgana beijou-o novamente, enquanto Luna marchava para dentro da casa com um ar de proprietria. - O que acha de passar uma noite -- ela 
moveu os lbios sedutoramente para a orelha dele -, uma noite inteira... fazendo algo... - num tom provocante, passou os dedos pelo peito dele - algo decadente?
      Nash sentiu o corao disparar, ecoando nos ouvidos que ela provocava.
      - Quando comeamos?
      - Bem... - Morgana esfregou o corpo contra o dele, inclinando a cabea o bastante para fit-lo nos olhos. Por que perder tempo?
      - Meu Deus, eu adoro mulheres agressivas.
      - timo. Porque tenho grandes planos para voc. - Ela mordeu-lhe o lbio inferior, sugando-o. - E levar horas.
      Nash perguntava-se se algum dia conseguiria respirar normalmente outra vez. Esperava que no.
      - Quer comear aqui, e depois continuamos l dentro?
      - Hum-hum. - Morgana afastou-se, deslizou a mo para baixo e segurou-o pela cintura da cala, a fim de pux-lo para dentro. Pan entrou logo atrs deles e, 
depois de concluir que no obteria muita ateno de nenhum dos dois, seguiu em frente para conhecer a casa. - No podemos fazer o que estou pensando aqui fora. Siga-me. 
- Enviando-lhe um olhar malicioso por cima do ombro, ela comeou a subir as escadas - No precisa falar duas vezes. .
      Nash agarrou-a quando chegaram no topo da escada. Depois de relutar por um instante, Morgana permitiu que ele a abraasse. Deslizar para o beijo era como entrar 
numa banheira quente. Cheia de calor e espuma. Mas quando ele foi abrir-lhe o zper, ela se afastou.
      - Morgana...
      Ela limitou-se a balanar a cabea e seguiu para o quarto.
      - Tenho um presente para voc, Nash. - Pegando a sacola: tirou uma fina camisola de seda preta, jogando-a distraidamente na cama.
      Nash olhou para a camisola, depois de volta para ela.
      J podia imagin-la usando aquilo.
      Podia imaginar-se tirando-a do corpo dela.
      Seus dedos comearam a formigar.
      - Fiz uma parada antes de vir para c - ela disse. _ E escolhi algumas... coisas.
      - Sem desviar os olhos dela, Nash deixou a rosa na cmoda.
      - Ate agora, estou gostando de tudo.
      - Ah, mas vai ficar melhor.
      Morgana retirou um objeto de dentro da sacola e entregou a ele. Nash franziu a testa ao ver a embalagem plstica de uma fita de vdeo, e um sorriso curvou-lhe 
os lbios.
      - Filmes para adultos?
      - Leia o ttulo.
      Divertido, ele virou a caixa e deixou escapar um assovio. 
      - "The Crawling Eye"? - Seu sorriso alargou-se quando olhou para ela.  
      - Gosta?
      - Se gosto? Puxa, este filme  timo,  um clssico! H anos que no assisto.
      - Tm outros aqui.
      Morgana despejou o contedo da sacola sobre a cama.Misturadas com um punhado de produtos de toalete havia outras trs fitas de vdeo. Nash pegou-os como uma 
criana que agarra os presentes sob a rvore de Natal.
      - "Um Lobisomem Americano em Londres", "Pesadelo na Elm Street", "Drcula". Isto  maravilhoso! - Rindo, ele abraou-a. - Mas que mulher! Voc quer passar 
a noite vendo filmes de terror?
      - Com alguns longos intervalos,  claro.
      Dessa vez Nash abriu-lhe o zper num gesto rpido.
      - Pois vou lhe dizer o que faremos... Vamos comear a sesso com uma bela abertura.
      Ela riu, enquanto caiam juntos na cama.
      - Adoro uma bela abertura.
      
      Nash no poderia imaginar um fim de semana mais perfeito. Assistiram aos filmes, entre outras coisas, at de madrugada. Dormiram at tarde, depois saborearam 
um farto e preguioso caf na cama.
      Ele tambm no poderia imaginar uma mulher mais perfeita. Morgana no era apenas linda, inteligente e sexy, mas tambm apreciava as sutilezas de um filme como 
o "The Crawling! Eye".
      Nem mesmo incomodou-se com o fato de ela t-lo obrigado a trabalhar na tarde de domingo. Ficar distraindo-se no jardim, cortando a grama, arrancando pragas, 
plantando, tudo isso adquiria um novo significado quando ele podia virar-se e v-la ajoelhada na relva, usando uma de suas camisetas e a sua cala jeans amarrada 
na cintura com um cordo. .
      E o fez pensar em como seria se pudesse ser sempre assim, se ela estivesse sempre ali. Ao seu alcance.
      Nash desistiu da tarefa que lhe fora confiada, de arrancar as pragas, e afagando o cachorro que aproximara-se encostando o focinho em seu peito, limitou-se 
a observar Morgana de longe.
      Ela estava cantarolando. Ele no reconheceu a msica, mas soava muito extica. Alguma cano de feiticeiras, pensou, que fora passada a, ela atravs dos tempos. 
Ela era mgica. Mesmo sem os talentos que herdara, ela sempre seria mgica.
      Morgana havia amarrado os cabelos sob um velho bon dos Dodgers. No havia nem um trao de maquiagem em seu rosto. A cala jeans estava larga nos quadris. 
Mas, ainda assim, passava uma impresso de erotismo. Fosse usando rendas negras ou um jeans desbotado, a sensualidade irradiava-se dela como a luz do sol.
      Mais do que isso, havia pureza em seu rosto, uma confiana, uma conscincia de si mesma que ele achava extremamente irresistvel.
      Nas.h podia imagin-la ajoelhada ali, naquele mesmo ponto, dali a um.ano. Dez anos. E ainda provocando-lhe aquele aperto no peito, disparando seu corao.
      Meu Deus... Sua mo deslizou lentamente na cabea do cachorro. Estava apaixonado por ela, de verdade. Ele a amava. Estava totalmente preso na enorme e assustadora 
armadilha chamada amor.
      E o que diabos iria fazer a respeito disso?
      No controle?, pensou, aturdido. Capaz de desistir quando quisesse? Que idiota.
      Levantou-se. sentindo as pernas bambas. O aperto em seu estmago era de puro. medo. E era pelos dois. Morgana olhou-o de relance, abaixando o bon para que 
a aba lhe protegesse os olhos.
      - H algo errado?
      - No. No, eu... Vou buscar alguma coisa gelada para ns.
      Ele praticamente correu para a casa, deixando Morgana fitando-o surpresa.
      Covarde. imbecil. Idiota. Por todo trajeto at a cozinha, ele foi amaldioando-se. Depois de encher um copo com gua, bebeu-a de um s gole. Talvez fosse uma 
insolao. Ou falta de sono. Excesso de libido.
      Devagar, deixou o copo na mesa. No era nada disso era amor. 
      Inclinou-se na pia e jogou gua fria no rosto. No sabia como isso acontecera, mas teria de dar um jeito. Pelo que podia ver, no havia para onde fugir. Era 
um homem adulto lembrou a si mesmo. Pois agiria como adulto e enfrentaria a verdade.
      Talvez devesse dizer a ela. Frente a frente, de uma s vez.
      "Morgana, sou louco por voc." 
      Soltou a respirao, jogando mais gua no rosto. Era fraco demais, ambivalente demais.
      "Morgana, - eu percebi que o que sinto por voc  mais do que atrao. Mais do que afeio."
      Desta vez, exalou o ar com um sibilo. Complicado demais, e estpido demais.
      "Morgana, eu amo voc."  Simples. Direto. E mais aterrorizante que o inferno.
      Mas ele era um perito em terror, pensou. Deveria ser capaz de realizar tal proeza. Endireitando os ombros, controlando o nervosismo, comeou a sair da cozinha.
      O telefone na parede tocou, e ele quase pulou de susto.
      - Calma, garoto - murmurou.
      - Nash? _ Morgana estava na porta, os olhos refletindo curiosidade e preocupao. - Voc est bem?
      - Eu? Sim,  claro, estou timo. - Nash passou a mo nervosamente pelos cabelos. - E voc?
      - Tudo bem - ela respondeu, devagar. - No vai atender ao telefone?
      - O telefone? - Enquanto sua mente disparava para uma centena de direes diferentes, ele olhou para o aparelho que tocava. -  claro.
      - Est bem. Vou pegar um refrigerante, enquanto isso. Ainda franzindo a testa, ela encaminhou-se para a geladeira.
      Nash no percebera que as mos estavam midas at que pegou o telefone. Forando um sorriso, enxugou a mo livre na cala jeans.
      - Al? - O falso sorriso desapareceu no mesmo instante.
      Assustada, Morgana parou, com uma das mos segurando a garrafa de refrigerante, e a outra na porta da geladeira.
      Nunca antes o vira daquele jeito. Frio. Os olhos parecendo ter congelado. Gelo sobre veludo. Mesmo quando Nash recostou no balco da cozinha, havia tenso 
em cada linha de seu corpo.
      Morgana sentiu um arrepio na espinha. Sempre soubera que ele poderia ser perigoso, e o homem para quem olhava agora havia despido todo aquele charme despreocupado, 
todo humor descontrado. Como um dos personagens que Nash poderia ter extrado da prpria imaginao, o homem  sua frente era capaz de violncia rpida e cruel.
      Quem quer que fosse que estivesse no outro lado da linha, deveria agradecer pela distncia que os separava.
      - Leeanne.
      Nash pronunciou o nome num tom glido, desprezvel. A voz tagarelando no outro lado fazia-o trincar os dentes. antigas lembranas, antigas feridas, emergiram 
 superfcie. Deixou-a falar por um momento, at certificar-se de que estava realmente controlado. .
      - V direto ao ponto, Leeanne. Quanto voc quer?
      Ficou ouvindo as lisonjas, os choramingos e as recriminaes. A responsabilidade era dele, foi lembrado. As obrigaes. Era a sua famlia.
      - No dou a mnima para isso. No  culpa minha se voc se envolveu com mais um fracassado. - Os lbios dele curvaram-se num sorriso amargo. - , est bem. 
Falta de sorte. Quanto? - repetiu, mal pestanejando ao ouvir a quantia requisitada. Com uma expresso resignada, abriu a gaveta e remexeu nela at encontrar um pedao 
de papel e um lpis. - Para onde devo enviar? - Escreveu rapIdamente. - Sim, eu anotei. Amanh. - Atirou o papel no balco. - Eu disse que vou mandar, no disse? 
Pare com isso, estou muito ocupado agora.  claro. Pode apostar.
      - Desligou o telefone e disparou uma seqncia de palavres. Ento, focalizou os olhos em Morgana. Havia se esquecido de que ela estava ali. Quando ela comeou 
a falar Nash balanou a cabea. 
      - Vou dar uma volta - disse abruptamente, e saiu batendo a porta.
      Com todo cuidado, Morgana deixou a garrafa de refrigerante no balco. A pessoa que ligara fizera mais do que apenas irrit-lo, concluiu. Ela havia visto mais 
do que simples raiva nos olhos dele. Vira o sofrimento, tambm. E as duas emoes tinham sido muito violentas.
      Por conta disso, conteve o primeiro impulso de correr atrs dele. Teria que lhe dar alguns minutos para que ficasse sozinho, primeiro.
      Nash atravessou o jardim com passos largos e rpidos. Pisou no gramado que tanto prazer lhe dera apenas uma hora atrs, quando o cortara. Passou sem nem reparar 
nas flores que j se voltavam para o sol, agora que viam-se livres das pragas que as sufocavam. Automaticamente, encaminhou-se para o amontoado de pedras nos limites 
de sua propriedade, que separavam as suas terras da baa. 
      Este era outro motivo porque fora atrado para aquele lugar: a mistura de tormenta e serenidade.
      Combinava com ele, refletiu enquanto enfiava as mos nos bolsos. Na superfcie, era um homem tranqilo e descontrado. E tais qualidades normalmente iam mais 
fundo. Porm, com freqncia, talvez com muita freqncia, havia uma inquietude fervilhando dentro dele.
      Sentou-se numa pedra e ficou olhando para o mar. Ficaria ali observando as gaivotas, as ondas e os barcos. E esperaria at sentir novamente aquela tranqilidade.
      Exalou um suspiro profundo, reparador. Graas a Deus, era s o que conseguia pensar. Graas a Deus que no falara sobre seus sentimentos com Morgana. Fora 
necessrio apenas um telefonema do passado para lembr-lo de que no havia lugar para o amor em sua vida.
      Deu-se conta de que realmente teria falado com ela. Teria seguido o impulso do momento, e confessado seu amor. E talvez, muito provavelmente, teria comeado 
a fazer planos para o futuro.
      Depois, teria estragado tudo. No havia dvidas de que estragaria tudo. Sabotar relacionamentos era algo que estava em seu sangue.
      Nash abria e fechava as mos, enquanto tentava controlar-se. Leeanne, pensou com um riso breve e amargo. Bem, iria enviar-lhe o dinheiro e ela desapareceria 
de sua vida.
      Outra vez. At que o dinheiro acabasse.
      E o padro se repetiria, muitas e muitas vezes. Pelo resto de sua vida.
      -  to bonito, aqui - Morgana falou baixinho, atrs dele.
      Nash no se assustou, nem se virou. Apenas suspirou. Devia ter imaginado que ela o seguiria. E supunha que ela esperaria algum tipo de explicao.
      Perguntou-se o quanto poderia ser criativo. Deveria dizer que Leeanne era uma: antiga amante de quem se afastara, mas que no se conformava em ficar afastada? 
Ou talvez inventasse alguma histria absurda, sobre estar sendo chantageado pela esposa de um chefo da Mfia, com quem tivera um breve e trrido caso. Tinha um 
toque interessante.
      Ou ento poderia apelar para o sentimentalismo e dizer que Leeanne era uma pobre viva, viva do melhor amigo dele, que lhe pedia dinheiro de vez em quando.
      Diabos, poderia dizer que o telefonema era para pedir auxlio para o fundo de penso da polcia. Qualquer coisa. Tudo, menos a amarga verdade.
      A mo dela roou-lhe o ombro, enquanto Morgana sentava ao seu lado na pedra. E no fez nenhuma pergunta. No falo nada. Apenas ficou olhando para a baia, como 
ele. Esperando. Exalando o perfume da  noite, de nvoas e roas.
      Nash sentiu um impulso terrvel de simplesmente vira-se e mergulhar o rosto em seus seios. De abra-la e ser abraado, at que raiva impotente se desvanecesse.
      E sabia que, no importava o quo esperto fosse, o quo inventivo, ela s acreditaria na verdade.
      - Gosto daqui - ele disse, como se muitos e silenciosos minutos no tivessem se passado, entre a observao dela e sua resposta. - Quando morava em Los Angeles, 
eu olhava pela janela do meu apartamento e via outro apartamento. Acho que nunca me dei conta do quanto estava me sentindo enclausurado, at que me mudei para c.
      _ - Todo mundo se sente enclausurado de vez em quando no importa onde more - Morgana pousou a mo na perna dele. - Quando estou me sentindo assim, eu vou 
para a Irlanda. Fao caminhadas pelas praias desertas. Fazendo isso penso em todas as pessoas que j passaram por ali, e que ainda iro passar novamente. Ento penso 
que nada  eterno. No importa se  muito bom, ou muito ruim, tudo passa e muda para um outro nvel.
      - Tudo se transforma, nada perece - ele murmurou. Ela sorriu.
      Sim, eu diria que isso resume tudo perfeitamente - Inclinando-se, tomou o rosto dele entre as mos. Seus olhos eram doces e lmpidos, a voz repleta de conforto 
para ser oferecido. - Fale comigo,Nash. Talvez eu no seja capaz de ajud-lo, mas posso ouvir.
      - No h nada a dizer.
      Alguma coisa reluziu nos olhos de Morgana. Nash amaldioou-se ao reconhecer que era dor.
      - Ento eu sou bem-vinda na sua cama, mas no em sua mente.
      - Diabos, uma coisa no tem nada a ver com a outra! - Ele recusava-se a ser pressionado, levado ou manobrado a revelar partes de si que preferia manter ocultas.
      - Entendo.
      Morgana tirou as mos do rosto dele. Por um instante, ficou tentada a ajud-lo de qualquer forma, fazendo um encantamento simples que lhe traria paz de esprito. 
Mas isso no estava certo, no seria verdadeiro. E ela sabia que se usasse a magia para mudar os sentimentos dele, os dois acabariam feridos.
      - Tudo bem, ento - Vou acabar de plantar as margaridas.
      Ela levantou-se. Sem recriminaes, sem palavras acaloradas. Nash teria preferido isso, quela tranqila aceitao. Quando Morgana deu um passo, afastando-se, 
ele segurou-lhe a mo. Ela viu a batalha que transcorria dentro dele refletida em sua fisionomia, mas ofereceu apenas o silncio.
      - Leeanne  minha me.
      
      CAPTULO 10
      
      A me dele.
      A angstia nos olhos de Nash obrigou Morgana a disfarar o choque. Lembrou-se do quanto a voz dele ficara fria, quando falara com Leeanne, como seu rosto adquirira 
as linhas duras, rgidas. No entanto, a mulher no outro lado da linha era a me dele. 
      O que poderia ter acontecido para causar num homem tal desgosto e raiva pela mulher a quem devia a vida?
      Mas esse homem era Nash. Por isso, Morgana tentou esquecer sua prpria e arraigada lealdade  famlia, enquanto o observava.
      Mgoa, ela percebeu. E houvera tanto mgoa quanto raiva na voz dele. E agora. Podia v-la plenamente, agora que as camadas de arrogncia, confiana e descontrao 
tinham sido arrancadas. Seu corao condoa-se por ele, mas sabia que isso no lhe diminuiria o sofrimento. Desejou ter o dom de Anastsia e ser capaz de aliviar 
um pouco a dor que ele sentia.
      Em vez disso, manteve a mo dele entre as suas e tornou a sentar. No, no possua o dom da empatia, mas poderia oferecer apoio e amor.
      - Conte-me.
      Por onde iria comear?, Nash perguntou-se. Como explicaria a ela algo que jamais conseguira explicar a si mesmo?
      Baixou os olhos para suas mos entrelaadas, vendo a maneira como os dedos dela apertavam os seus. Morgana oferecia-lhe apoio, compreenso, quando ele pensara 
no precisar de nada disso.
      As emoes que ele sempre relutara em formular, que recusara-se a compartilhar, agora comearam a fluir.
      - Acho que, para entender, voc precisaria ter conhecido minha av. Ela era... - Nash buscou um modo educado de se expressar. - Era muito severa, e esperava 
que todo mundo trilhasse o mesmo caminho rduo. Se tivesse de escolher um adjetivo para ela, seria "intolerante". Ficou viva quando Leeanne tinha cerca de dez anos. 
Meu av possua uma empresa de seguros, de forma que deixou-a muito bem financeiramente. Mas ela gostava de economizar cada centavo, ela no sabia aproveitar a vida.
      Nash ficou em silncio, observando as gaivotas planarem sobre a gua. Quando suas mos mexeram-se, inquietas, Morgana permaneceu em silncio, e esperou.
      - De qualquer forma, isso poderia soar como uma histria triste e pungente. A viva com duas filhas pequenas para criar. At que voc entenda que ela gostava 
de estar no comando. De ser a "Viva Kirkland" e no prestar contas a ningum, exceto a si mesma. S posso imaginar que ela tenha sido muito dura com as filhas, 
mantendo os conceitos de sexo e santidade como raios mortais sobre as cabeas delas. Porm, isso no funcionou muito bem com Leeanne. Ela engravidou aos dezessete 
anos, e no tinha a menor idia de quem era o pai do beb.
      A ltima frase foi dita com desprezo, mas Morgana enxergou mais sob a superfcie.
      - Voc a culpa por isso?
      Nash encarou-a, com os olhos sombrios.
      - No. No por isso. A velha senhora deve ter transformado a vida dela num inferno pela maior parte dos nove meses de gravidez. Dependendo de quem se obtm 
a informao, Leeanne era Uma pobre e solitria menina que foi cruelmente castigada por um pequeno deslize. Ou minha av era uma santa sofredora, que acolheu a filha 
pecadora. Minha opinio pessoal  que tnhamos duas mulheres egostas que no davam a mnima para ningum, exceto elas prprias.
      - Ela tinha apenas dezessete anos, Nash -, Morgana intercedeu, em voz baixa.
      A raiva alterou a fisionomia dele, formando linhas duras e desencontradas.
      - E s por isso fica tudo bem? Ela tinha apenas dezessete anos, ento tudo bem que tenha transado com tantos homens que no sabia de qual deles engravidou.Tinha 
apenas dezessete anos, ento tudo bem que tenha desaparecido dois dias depois do meu nascimento, deixando-me com aquela velha amarga, sem uma palavra, sem um telefonema 
ou nem mesmo um pensamento, durante vinte e seis anos.
      A emoo brutal na voz dele provocou um aperto no corao de Morgana. Queria abra-lo, acolh-lo, segur-lo nos braos at que o pior passasse. Porm, quando 
estendeu os braos, ele se afastou e levantou-se.
      - Preciso andar um pouco.
      Morgana tomou a deciso rapidamente. Poderia deix-lo para que se livrasse da dor sozinho ou a compartilharia com ele. Antes que Nash desse trs passos, ela 
estava ao seu lado, tomando-lhe a mo novamente. 
       - Lamento muito Nash .
      Ele balanou a cabea com fora. O ar que aspirava era to doce quanto a primavera, mas ardia como bile em sua garganta. 
      Desculpe, Morgana. No h motivos para eu despejar tudo isso em voc. 
      Ela tocou-lhe o rosto.
      - Tudo bem, eu posso agentar .
      Mas ele no tinha certeza se poderia. Nunca antes desabafara tudo o que guardava consigo. O fato de falar em voz alta deixara um gosto ruim em sua boca, um 
gosto que ele temia que nunca mais desaparecesse. Respirou devagar, cuidadosamente, e recomeou.
      - Fiquei com minha av at a idade de cinco anos. Minha tia Carolyn havia se casado com um militar, e fui morar com eles. Por vrios anos, mudvamos de uma 
base militar para outra, por todo o pas. Ele era um beberro desgraado e tolerava minha presena somente porque Carolyn chorava e ficava histrica quando ele bebia 
e ameaava mandar-me embora.
      Morgana podia imaginar tudo com muita nitidez. O garotinho desamparado, controlado por todos mas sem pertencer a ningum.
      - Voc odiava isso.
      - , acho que voc acertou em cheio. Eu no sabia porque, exatamente, mas odiava tudo aquilo. Pensando bem, percebo que Carolyn era to instvel quanto Leeanne, 
 sua maneira.Num instante ela me enchia de agrados, em outro me ignorava. No estava tendo muita sorte em engravidar mas, quando eu tinha oito ou nove anos, descobriu 
que estava esperando um filho que seria s seu. Assim, fui mandado de volta para minha av. Carolyn j no precisava mais de um substituto.
      Morgana sentiu os olhos encherem-se de lgrimas de raiva, ao imaginar a criana desamparada e inocente sendo levada de um lado para outro, por pessoas que 
nada sabiam sobre o amor.
      - Minha av nunca olhou para mim como se eu fosse uma pessoa, entende? Eu era um erro. E isso foi o pior de tudo - ele disse, mais para si mesmo. - O jeito 
com que ela martelava estas coisas na minha cabea atingia-me profundamente. Dizia que cada sopro de ar que eu respirava, cada batida do meu corao s tinham sido 
possveis porque uma garota rebelde e inconseqente cometera um erro.
      - No - Morgana falou, desolada. - Ela estava errada. 
      - Sim, talvez. Mas estas coisas permanecem. Eu ouvia sermes interminveis sobre os pecados dos pais, os males da carne. Eu era preguioso, intratvel e depravado... 
uma das palavras que ela mais gostava. - Nash enviou um sorrisinho triste  Morgana. - Mas era o mnimo que ela poderia esperar, considerando-se a maneira como fui 
concebido.
      - Que mulher terrvel - Morgana disparou. - Ela no merecia voc.
      - Bem, ela teria concordado com a segunda parte. E no se cansava de dizer o quanto eu deveria agradec-la por estar pondo comida no meu prato e um teto sobre 
minha cabea. Mas eu no me sentia muito grato, e fugi de casa vrias vezes. Na poca em que eu tinha uns doze anos, acabei entrando no esquema de lares adotivos.
      Os ombros dele mexiam-se inquietos, numa pequena demonstrao fsica do turblho interno. Nash andava de um lado para outro, os passos apressando-se enquanto 
as lembranas iam surgindo.
      - Uma daquelas casas at que eram boas, quando as famlias realmente queriam receber algum. Outras queriam receber apenas o cheque mensal, mas s vezes, quando 
se tem sorte, a gente pode acabar num lar de verdade. Passei um Natal com uma famlia, os Henderson. - A voz dele mudou, ficando mais animada. - Eles eram timos, 
tratavam-me exatamente como tratavam seus filhos. Havia sempre um aroma de biscoitos assando pairando no ar. Havia uma rvore de Natal, com presentes embaixo. E 
todo aquele papel colorido com fitas. Meias pregadas na estante da lareira. Eu fiquei realmente surpreso quando vi uma delas com o meu nome.
      Nash fez uma pausa, antes de continuar.
      - Eles me deram uma bicicleta - disse, baixinho. - O senhor Henderson comprou-a de segunda mo e levou-a para o poro a fim de reform-la. Pintou-a de vermelho, 
um vermelho da cor dos carros de bombeiros, e depois poliu toda a parte cromada. Ele dedicou muito tempo para transformar aquela bicicleta em algo especial. E tambm 
me ensinou como pregar os cartes de figurinhas de beisebol nos aros.
      Ele enviou-lhe um olhar maroto, e Morgana inclinou a cabea.
      - O que foi?
      - Bem, era uma tima bicicleta, mas eu no sabia andar nela. Nunca tinha andado de bicicleta. E l estava eu, com quase doze anos, e aquela bicicleta poderia 
ser at uma moto Harley-Davidson, pelo que eu sabia.
      Morgana lanou-se logo em sua defesa.
      - Isso no  motivo para se envergonhar.
      Nash arqueou a sobrancelha:
      - E bvio que voc nunca foi um menino de onze anos.  bem complicado lidar-se com a passagem para a masculinidade quando no se sabe nem como manejar um veculo 
de duas rodas. Assim, eu ficava "enrolando", inventando desculpas para no usar a bicicleta. Dizia que tinha tarefas de escola, que havia torcido o tornozelo, que 
parecia que ia chover. Eu me achava muito esperto, mas ela... a senhora. Henderson, logo percebeu o que estava acontecendo. Certo dia ela foi me acordar bem cedo, 
antes de todos os outros, e levou-me para fora de casa. E me ensinou a andar de bicicleta. Ficava segurando no assento, corria ao meu lado. E me fez rir muito, quando 
eu ca. Quando consegui manobrar a bicicleta sozinho na calada, ela chorou. Ningum nunca... - Nash deixou as palavras no ar, embaraado pelo tipo de emoo que 
a lembrana evocava.
      Morgana sentia as lgrimas ardendo em sua garganta.
      - Devem ter sido pessoas maravilhosas.
      - Ah sim eles eram. Fiquei seis meses com eles. Provavelmente os melhores seis meses da minha vida. - Afastou a lembrana e continuou: - Pois bem, sempre que 
eu comeava a acomodar-me num lugar, minha av puxava as rdeas e me chamava de volta. Assim, comeceI a contar os dias at que tivesse a idade de dezoito anos, quando 
ningum mais me diria onde viver, nem como. Quando finalmente estivesse livre continuaria assim para sempre.
      - O que voc fez, depois dos dezoito anos? 
      - Eu precisava comer, portanto tentei uns dois ou trs empregos normais. - Olhou para ela, desta vez com uma pontinha de humor. - Vendi aplices de seguro 
por algum tempo.
      Pela primeira vez, desde que ele comeara a falar, Morgana sorriu. .
      - No consigo imagin-lo fazendo isso.
      - Nem eu. Mas no durou muito. Acredito que, no fim das contas, tenho de agradecer  minha av pela minha carreira de escritor. Ela costumava me dar umas boas 
palmadas quando me apanhava escrevendo. 
      - Espere um pouco. - Morgana tinha certeza de que entendera mal. - Ela batia em voc por escrever?
      - Ela no entendia muito bem qual era o escopo moral de um caador de vampiros - ele ironizou. - Portanto, calculando que esta era a ltima coisa que ela desejaria 
que eu fizesse, continuei escrevendo. Mudei para Los Angeles e, graas a algumas artimanhas, consegui um emprego de ajudante com o pessoal dos efeitos especiais. 
Depois trabalhei como assistente de roteiristas e acabei conhecendo as pessoas certas. Finalmente consegui vender meu primeiro roteiro o "O Transformador". Minha 
av morreu quando o filme estava em fase de produo. No fui ao enterro
      - Se est esperando que eu o critique por isso, vai ficar desapontado.
      - No sei o que esperar - ele murmurou. Parando sob um cipreste, virou-se para ela. - Eu tinha vinte e seis anos quando o filme tornou-se um sucesso. E foi 
um... bem, vou correr o risco de parecer convencido, mas foi um sucesso estrondoso. De repente, eu estava no topo. Meu roteiro seguinte foi logo escolhido. Fui 
indicado para o Globo de Ouro. Ento, comecei a receber os telefonemas. Minha tia, que precisava apenas de uma "pequena ajuda". O marido dela nunca fora promovido 
alm da patente de sargento, e ela tinha trs filhos que precisavam ir para a universidade. Depois, Leeanne.
      Nash esfregou as mos no rosto, desejando apagar para sempre as camadas de ressentimento, mgoa e lembranas.
      - Ela ligou para voc - Morgana prontificou.
      - No. Apareceu na porta da minha casa, certo dia.
      Teria sido risvel, se no fosse to pattico. Aquela mulher estranha, pintada como uma boneca, parada na soleira da porta e afirmando ser minha me. A pior 
parte era que eu podia enxergar-me nela. O tempo todo em que ela ficou ali, despejando a histria triste da sua vida, eu queria bater a porta em sua cara, e depois 
trancar. Podia ouvi-la dizendo que eu lhe devia alguma coisa, que o fato de eu ter nascido havia estragado toda sua vida. Que divorciara-se pela segunda vez e estava 
passando necessidades. Ento, fiz um cheque.
      Cansado, ele escorregou pelo tronco da rvore e sentou-se na relva macia. O sol comeava a baixar, formando sombras alongadas. Morgana ajoelhou-se ao lado 
dele.
      - Por que voc deu dinheiro a ela, Nash?
      - Era o que ela queria. De qualquer forma, eu no teria mais nada para dar. Este primeiro pagamento durou quase um ano. Enquanto isso, continuei recebendo 
telefonemas da minha tia, dos meus primos. - Ele bateu o punho sobre a mo, num gesto de raiva. - Os meses vo passando, e voc comea a achar que a vida est bem 
arrumada. Mas eles no o deixam esquecer das suas origens. E se o preo para a tranqilidade for algumas centenas de dlares de vez em quando, no  um mau negcio. 
.
      Os olhos de Morgana fuzilaram.
      - Eles no tm nenhum direito de exigir dinheiro de voc!
      - Eu tenho bastante dinheiro.
      - No estou falando de dlares, estou falando de voc. 
      Nash fitou-a intensamente.
      - Eles me lembram de quem... do qu... eu sou.
      - Eles nem o conhecem - Morgana retrucou, furiosa.
      - No, e eu tambm no os conheo. Mas isso no significa nada. Voc sabe bem como so as heranas, Morgana, os legados. Sobre o que se herda pelo sangue. 
A sua herana  a magia. A minha  o egosmo.
      Ela balanou a cabea.
      - Seja l qual for a nossa herana, temos a escolha de us-la, ou descart-la. Voc no  como as pessoas de quem se originou.
      Ele segurou-a pelos ombros, ento, com os dedos tensos.
      - Sou, muito mais do que voc pensa. J fiz as minhas escolhas. Talvez eu tenha parado de fingir, pois isso no me levava a lugar algum. Mas sei quem sou. 
Algum que prefere ficar sozinho. No h nenhuma famlia Henderson no meu futuro, Morgana, porque eu no quero. Agora e sempre, vou fazer o cheque e tirar o dinheiro 
do bolso. Depois, posso esquecer o assunto e ficar em paz comigo mesmo. E assim que eu quero as coisas, sem laos, sem obrigaes, nem compromissos.
      Ela no podia discutir com ele agora, quando a dor estava ainda to perto da superfcie. Numa outra ocasio iria lhe demonstrar o quanto estava errado. O homem 
que a segurava agora era capaz de muita ternura, generosidade e carinho, sem nunca ter recebido nada disso. Ele descobrira tudo isso por si mesmo.
      Mas havia algo que ela poderia lhe dar. Nem que fosse por pouco tempo. .
      - No precisa me dizer quem voc , Nash. - Delicadamente, Morgana afastou os cabelos do rosto dele. - Eu sei. No vou pedir-lhe nada que voc no possa dar. 
No aceitarei nada que voc no queira entregar. - Pegou seu amuleto, fez com que ele o segurasse, depois fechou a prpria mo sobre a dele. Seus olhos ficaram mais 
profundos, quando fitaram-no. - Isto  um juramento.
      Nash sentiu o metal aquecer-se em sua mo. Assustado, baixou os olhos e viu-o pulsar, iluminado.
      - Eu no...
      - Um juramento - ela repetiu. - Que eu no posso quebrar. H algo que eu quero que voc aceite, que posso lhe dar. Voc confiaria em mim?
      Alguma coisa o envolvia furtivamente. Como uma sombra formada por uma nuvem, era fresca, suave e sem peso. Os msculos tensos relaxaram, seus olhos ficaram 
agradavelmente pesados. Como se fosse de uma grande distncia, ouviu-se dizer o nome dela. Ento, deslizou para o sono.
      Quando acordou, o sol estava quente e luminoso. Podia ouvir os pssaros cantando e a msica borbulhante da gua correndo sobre as pedras. Desorientado, sentou-se.
      . Estava numa clareira, ampla e ondulada, repleta de flores silvestres e borboletas. Alguns metros adiante, um cervo de olhos doces parou sua caminhada pacfica 
a fim de observ-lo. Havia um preguioso zunir de abelhas e o vento sussurrando atravs da relva alta e muito verde.
      Rindo um pouco, ele passou a mo pelo queixo, quase esperando encontrar uma barba enorme e senil. Mas no havia barba alguma, e ele no sentia-se como um velho. 
Sentia-se timo. Levantando, olhou em volta, vendo o extenso campo florido e a relva balanando sob o vento. L em cima o cu era uma abbada azul, o azul profundo 
de plena primavera.
      Algo perpassou-o, to suavemente quanto o vento que agitava a relva. Depois de um instante, ele reconheceu o que era: serenidade. Estava completamente em paz 
consigo mesmo.
      Ouviu a msica. A beleza quase dolorosa dos acordes de uma harpa. O sorriso j curvava-lhe os lbios quando ele a seguiu, vagando pela grama e flores da clareira, 
assustando as borboletas.
      Encontrou-a nas margens do regato. O sol lanava reflexos na gua, que corria. sobre pedras lisas, coloridas como jias. A Saia branca de seu vestido que esparramava-se 
sobre a relva. Seu rosto estava encoberto por um chapu de aba larga, coquetemente inclinada para o lado. Em seu colo havia uma pequena harpa dourada. Seus dedos 
acariciavam as cordas, produzindo a msica que flutuava no ar.
      Morgana virou a cabea, sorriu e continuou tocando.
      - O que esta fazendo? - ele perguntou.
      - Esperando por voc. Teve um bom descanso?
      Nash ajoelhou-se ao lado dela, depois ergueu a mo hesitante em seu ombro. Podia sentir o calor de sua pele sob a seda.
      - Morgana?
      Os olhos dela sorriram.
      - Nash?
      - Onde estamos?
      Ela dedilhou a harpa novamente. A msica elevou-se, espalhando-se como as asas de um pssaro.
      _ Nos sonhos - ela disse. - Nos seus e nos meus. Deixou a harpa de lado e tomou-lhe as mos. - Se quiser, podemos ficar aqui por algum tempo. Mas se quiser 
ir para qualquer outro lugar, podemos ir.
      Ela fazia parecer to fcil, to natural.
      - Por qu? 
      - Porque voc precisa. - Morgana levou as mos dele aos lbios. - Porque eu amo voc.
      Nash no sentiu a pontada de pnico. As palavras dela deslizaram facilmente para dentro de seu corao, fazendo-o sorrir.
      - Isto  real?
      Morgana roou o rosto na mo dele, depois beijou-a novamente. 
      - Pode ser, se voc quiser. - Seus dentes arranharam-lhe levemente a pele, despertando o desejo. - Se voc me quiser.
      Nash tirou-lhe o chapu e jogou-o para o lado, enquanto os cabelos dela caam pelos ombros.
      - Estou enfeitiado, Morgana?
      _ No mais do que eu. - Ela segurou o rosto dele com as duas mos, para que seus lbios se encontrassem. - Eu quero voc -- murmurou, a boca colada  dele. 
- Ame-me aqui, Nash, como se fosse a primeira vez, a ltima vez, a nica vez.
       Como ele poderia resistir? Se fosse um sonho, ento seria.
      Tudo o que importava era que os braos dela o recebiam, que seus lbios o provocavam.
      Ela era tudo o que um homem poderia desejar, toda seda e mel dissolvendo-se contra ele. Seu corpo parecia uma nuvem, quando ele a deitou sobre a macia relva 
verdejante.
      O tempo no existia ali e Nash teve prazer em prolongar as carcias. Sentindo a cascata de veludo dos cabelos dela sob as mos, os sabores provocantes de seus 
lbios, o perfume de sua nuca. Morgana entregava-se a ele, como uma fantasia malevel de sedas, perfumes e seduo. Seu suspiro suavizou o ar.
      Ele no poderia saber o quanto isso fora fcil, Morgana pensou enquanto mergulhavam num beijo profundo. Por mais diferentes que fossem, seus sonhos eram os 
mesmos. Por uma hora, ou duas, poderiam partilhar um do outro, e da paz que os envolvia.
      Quando Nash ergueu a cabea, Morgana lhe sorriu. Formando um trao com a ponta do dedo nos lbios dela, ele falou:
      - Quero que isto seja verdade.
      - E pode ser. Tudo o que voc quiser tirar daqui, tudo o que voc quiser para ns, pode ser.
      - Desejando uma prova, ele beijou-a novamente. Era real, to real quanto as sensaes que invadiam-no quando aqueles lbios entreabriam-se para os seus. Mergulhou 
profundamente naquele longo e ertico encontro de lbios e lnguas. Sob o seu, o corao dela batia rpido e constante. E quando a mo dele o cobriu, sentiu o ritmo 
apressar-se.
      Devagar, querendo aproveitar ao mximo o momento ele abriu os pequenos botes de prolas que fechavam - frente do corpete dela. A pele era quente, suave. Fascinado, 
passou a explorar cada textura, enquanto a respirao dela se intensificava.
      Cetim e seda. Da cor de um creme denso.
      Nash fitou-a enquanto seus dedos acariciavam-na. Atravs dos clios espessos, os olhos dela ficaram mais profundos, tentadores. Ele roou levemente os lbios 
pelas macias ondulaes de seus seios.
      Mel e ptalas de rosas.
      Com um murmrio de contentamento, provou a pele com beijos midos, formando um crculo at atingir os mamilos rgidos: Sugou-os, sabendo pelo sussurro ofegante 
de Morgana, que atingira aquele ponto atordoante entre o prazer e a dor.
      Nash arrastou-a consigo, enlouquecendo a ambos com um turbilho de dentes e lnguas. As mos dela estavam em seus cabelos, agarrando-os com fora. E ele sentiu 
seu corpo arquear-se, ficar tenso, depois estremecer. Quando levantou a cabea para olh-la, os olhos dela estavam vidrados de choque e prazer.
      - Como... - Morgana estremeceu novamente, latejando com os remanescentes daquela onda rpida e inesperada.
      - Magia - ele disse, pressionando novamente os lbios em sua pele. - Eu vou lhe mostrar.
      Levou-a a lugares que ela jamais havia visto. Enquanto ela glorificava-se em cada jornada enlouquecedora, suas mos e lbios moviam-se livremente na pele dele. 
E quando ela estremeceu, Nash acompanhou-a.
      Uma mistura de suspiros, os corpos se fundindo. Pedidos murmurados, respostas ofegantes. lncendiada pelo desejo, Morgana puxou a camisa dele, querendo provar 
a pele quente e mida de seu peito.
      Onde havia fogo, havia prazer, ao sentir o sangue pulsar por ela, o corao dele disparava.
      Dentro daquele pequeno pedao de paraso que Morgana havia evocado, fizeram o seu prprio paraso. A cada beijo intenso que trocavam, o encanto ficava mais 
forte. Possessivas, persuasivas, as mos dela o acariciavam, e ela sentia prazer ao sentir os msculos contraindo-se e estremecendo sob seu toque.
      Nash queria, e precisava, que o desespero dela fosse to grande quanto o seu. Com o corao pulsando em seus ouvidos, iniciou uma jornada torturante em seu 
tronco, at alcanar o centro de seu prazer. Os dentes arranharam levemente a pele sensvel de suas coxas, arrancando dela um suspiro entrecortado.
      Morgana agarrou-se  relva enquanto a lngua de Nash lhe provocava prazeres indescritveis. Cega de desejo, gritou quando ele a levou de um clmax para outro. 
E enquanto seu corpo contorcia-se e arqueava-se, ele penetrou-a. Pele mida contra pele mida, ele retomou a jornada de volta. Quando seus lbios se tornaram a se 
encontrar, Morgana abriu-se toda para ele, circundando-o, acolhendo-o.
      Lutando contra a nsia devoradora, Nash passou a mover-se lentamente, saboreando, observando os lampejos de prazer no rosto dela, sentindo seu pulso disparar 
quando ela ergueu o corpo para encontr-lo.
      Um suspiro escapou dos lbios dela. Seus olhos abriram-se de repente, colando-se aos, dele enquanto as mos escorregavam pelos seus braos. Com as mos entrelaadas, 
mergulharam juntos para a total inconscincia trazida pelo prazer.
      Quando Morgana sentiu os espasmos no corpo dele, quando seus msculos dissolveram-se, ele descansou a cabea em seus seios. Acalentado pelas batidas do corao, 
deixou que os olhos se fechassem. Comeou a sentir o mundo que girava para alm de Morgana. O calor do sol em suas costas o trinado dos pssaros, o perfume das flores 
que cresciam livres nas margens do regato.
      Sob ele, Morgana suspirou e ergueu a mo para afagar-lhe os cabelos. Ela lhe dera a paz, e encontrara o prazer. E havia quebrado uma de suas regras mais rgidas, 
manipulando as emoes dele.
      Talvez tivesse sido um erro, mas no se arrependia.
      - Morgana...
      Ela sorriu ao ouvir o sussurro rouco.
      - Durma, agora - disse a ele.
      
      No escuro, Nash a procurou. E encontrou a cama vazia. Sonolento, obrigou os olhos pesados a abrirem-se. Estava na cama, em sua prpria cama, e a casa mergulhava 
no silncio da madrugada.
      - Morgana?
      - No sabia por que chamara seu nome, sabendo que ela no estava ali.
      Fora um sonho? Afastando as cobertas, arrastou-se para fora da cama. Ele estivera sonhando? Se tivesse sido apenas um sonho, ento nada no mundo lhe parecera 
mais real, mais vvido, mais importante.
      A fim de clarear a mente, foi at a janela e respirou profundamente o ar frio.
      Eles tinham feito amor, um ato de amor incrvel, numa clareira a beira de um regato.
      No, isso era impossvel. Apoiando-se no batente da janela, engoliu o ar como se fosse gua. A ltima coisa de que lembrava com clareza era que estavam sentados 
sob a rvore, l fora, conversando sobre...
      Ele estremeceu. Havia contado tudo a ela. Toda a horrenda histria de sua famlia tinha transbordado de dentro dele. Por que diabos fizera isso? Passando a 
mo por entre os cabelos, andou de um lado para outro no quarto.
      Aquele maldito telefonema, pensou. Mas, ento, de repente lembrou-se de que o telefonema o impedira de cometer um erro ainda maior.
      - Teria sido pior se dissesse a Morgana que a amava, muito pior do que lhe contar sobre sua famlia e sua infncia. Agora, pelo menos ela no teria mais iluses 
sobre o rumo que aquele relacionamento tomaria.
      De qualquer forma, estava feito e ele no poderia voltar atrs. Apenas teria de viver com o fato de que isso o envergonhava mais do que qualquer coisa.
      Mas, depois disso, depois que estiveram sentados junto a rvore... Ele havia adormecido?
      O sonho. Ou no fora um sonho? Estava to ntido em sua mente. Quase podia sentir o cheiro das flores. E sem dvida, podia lembrar-se do jeito que o corpo 
dela flua como gua em suas mos. E mais, muito mais do que isso, lembrava-se de ter se sentido como se tudo o que fizera at aquele ponto de sua vida o preparara 
para aquele momento. Para o momento em que podia deitar na relva com a mulher que amava, e sentir a paz de pertencer a algum.
      Iluses. Fora somente uma iluso, assegurou-se, enquanto o pnico se instalava. Havia apenas adormecido debaixo da rvore, isso fora tudo.
      Mas o que diabos estava fazendo em seu quarto, no meio da noite e... sozinho.
      Ela fizera isso. Sentindo e depois partira.
      Mas no iria ficar assim. Nash comeou a levantar, mas deixou-se cair novamente na cama.
      Podia lembrar-se da paz, da serenidade, de acordar com o sol batendo em seu rosto. De caminhar pela grama e v-la tocando a harpa, sorrindo para ele.
      E quando lhe perguntara porque, ela dissera...
      Dissera que o amava. 
      Sentindo a cabea girar, Nash segurou-a com as mos. Talvez tivesse imaginado tudo. Tudo. Incluindo Morgana. Talvez estivesse de volta em seu apartamento em 
Los Angeles, e acabara de despertar de um sonho monumental.
      Afinal, no acreditava realmente em bruxas e feitios. Hesitante, baixou a mo e apertou a pedra que pendia da correntinha em seu pescoo.
      Era evidente que acreditava.
      Morgana era real, e o amava. E o pior era que ele tambm a amava.
      Mas no queria. Isso era loucura. Mas estava apaixonado, to loucamente apaixonado que no conseguia passar uma hora sequer sem pensar nela, sem desej-la. 
Sem imaginar que talvez, apenas talvez, pudesse dar certo.
      E este era o pensamento mais irracional em toda aquela histria maluca.
      Era s uma atrao fsica, pensou, um deslumbramento. E isto estava bem distante do amor. Uma longa e segura distncia. Afinal, Morgana era uma mulher deslumbrante. 
E um homem poderia viver uma vida longa e feliz sendo deslumbrado por uma mulher encantadora. Acordaria todos os dias com um sorriso no rosto, sabendo que ela lhe 
pertencia.
      Nash comeou a criar uma linda fantasia. E interrompeu-se logo em seguida.
      O que diabos estava pensando?
      Nela, pensou com tristeza. Estava sempre pensando nela.
      Talvez o melhor a fazer seria tirar umas frias, viajar para qualquer lugar, a fim de arranc-la do pensamento.
      Como se isso fosse possvel.
      A dvida perturbadora continuava presa em sua garganta, como uma pedra.
      Como ele sabia, mesmo antes de tentar, que jamais seria capaz de esquec-la?
      Porque no era s atrao fsica, nem deslumbramento, admitiu devagar. Nem chegava perto disso. Era amor, mesmo. Ele no estava somente atrado, no era apenas 
desejo. Havia dado o grande passo: estava amando.
      Morgana fizera com que ele ficasse apaixonado.
      Tal pensamento obrigou-o a endireitar-se na cama. Ela fizera aquilo. Era uma feiticeira. Por que no lhe ocorrera antes que ela podia fazer encantamentos, 
que lhe bastava estalar os dedos para t-lo rastejando aos seus ps?
      Uma parte de Nash rejeitava tal idia, considerando-a absurda. Mas outra parte, aquela que fora criada pelo medo e pelas dvidas, aceitou-a de imediato. Quanto 
mais ele pensava, mais obscuros seus pensamentos se tornavam.
      De manh, pensou, iria encarar uma feiticeira de frente. E quando terminasse, quando tudo estivesse esclarecido, Nash Kirkland estaria exatamente onde desejava 
estar.
      No controle.
      
      CAPTULO 11
      
      Morgana achou estranho no ter de sair para abrir a loja na segunda-feira de manh. Mas tambm achou que um descanso seria necessrio, no apenas para seu 
corpo exaurido, como tambm para sua mente. Um telefonema  Mindy aliviou sua conscincia. Sua funcionria abriria a loja ao meio-dia.
      Morgana no se incomodava muito em tirar um dia de folga. Mas teria preferido fazer isso quando se sentisse melhor. Agora, descendo as escadas enrolada num 
roupo, sentia-se zonza e nauseada, carregando o peso exaustivo da noite insone.
      A sorte estava lanada. O problema fora tirado de suas mos. Com um suspiro cansado, entrou na cozinha para fazer um ch. Nunca estivera realmente em suas 
mos, pensou. A coisa mais inconveniente sobre o poder, refletiu, era que no se podia acostumar-se a exerc-lo, a ponto de esquecer que existiam poderes maiores 
e mais vitais do que o seu.
      Pressionando levemente a mo no estmago, foi para a janela enquanto esperava a gua ferver. Imaginou se estaria pressentindo uma tempestade no ar, ou se eram 
apenas seus prprios pensamentos inquietos. Luna esfregou-se em suas pernas por um instante, mas ao sentir o estado de esprito da patroa, afastou-se com passos 
macios.
      Ela no optara por apaixonar-se. Certamente, no havia escolhido ter aquela avalanche de emoes desabando sobre si, e arrastando-a. Ter sua vida toda mudada. 
E era o que estava acontecendo, agora.
       claro que sempre havia uma escolha. E ela fizera a sua.
      No seria fcil. Porm, as coisas mais importantes raramente eram fceis.
      Sentindo as pernas pesadas, voltou para o fogo a fim de preparar o ch. Este mal tivera tempo de esfriar em sua xcara, quando ela ouviu a porta abrir-se.
      - Morgana!
      Resignada, ela serviu mais duas xcaras, enquanto seus primos entravam na cozinha.
      - A est. - Anastsia lanou um olhar para Sebastian apressando-se na direo de Morgana. - Eu lhe disse que ela no estava se sentindo bem.
      Morgana beijou-a no rosto.
      - Eu estou bem.
      - Eu disse que voc estava bem - Sebastian intercedeu pegando um biscoito no pote sobre o bancada da pia. - Apenas mal-humorada. Voc est enviando sinais 
altos e ruidosos o bastante para me arrancar da cama.
      -- Desculpe-me. - Morgana entregou-lhe a xcara. - Acho que eu no queria ficar sozinha.
      - Voc no est nada bem - Ana insistiu. Antes que pudesse verificar mais de perto, Morgana se afastou.
      - Dormi mal esta noite, e estou pagando o preo por isso.
      Sebastian bebericou o ch. J havia captado o rosto plido e as olheiras. Mas agora captava um lampejo de algo mais, algo que Morgana esforava-se muito para 
bloquear. Paciente, e sempre disposto a venc-la no jogo de vontades ele aguardou o momento certo.
      - Problemas no paraso - disse, num leve tom de ironia apenas o suficiente para fazer com que os olhos dela fuzilassem:
      - Posso lidar com meus prprios problemas, obrigada.
      - No comece a provoc-la, Sebastian. - Anastsia pousou a mo no ombro dele, num gesto de aviso. - Voc brigou com Nash, Morgana?
      - No. - Ela sentou-se. Estava cansada demais para ficar em p. - No - repetiu. - Mas  Nash quem est me preocupando. Fiquei sabendo de algumas coisas sobre 
ele, ontem. Sobre sua famlia.
      Porque confiava neles tanto quanto os amava, Morgana contou-Ihes tudo, desde o telefonema de Leeanne at o momento sob o cipreste. Porm, o que acontecera 
depois disso, por ser algo que pertencia somente a ela e a Nash, guardou consigo mesma.
      - Pobre garotinho - Anastsia murmurou. - Como deve ter sido terrvel sentir-se indesejado e sem amor.
      - E incapaz de amar - Morgana acrescentou. - Quem pode culp-lo por ter medo de confiar nos prprios sentimentos?
      - Voc.
      Morgana desviou os olhos rapidamente na direo de Sebastian. No adiantaria nada insult-lo por ser to perceptivo. Nem por estar to certo.
      - Na verdade, eu no o culpo. Isso me entristece, me magoa, mas sei que a culpa no  dele. Apenas no tenho certeza de como amar algum que no pode, ou no 
quer, retribuir o meu amor.
      - Ele precisa de tempo - Anastsia falou.
      - Eu sei. Estou tentando calcular quanto tempo posso dar a ele. Fiz uma promessa: nunca exigir mais do que ele queira dar. - A voz de Morgana ficou mais rouca, 
e ela limpou a garganta. - No quebrarei a promessa.
      Todas as suas defesas desabaram. Rpido como um raio, Sebastian tomou-lhe a mo. Fitou-a profundamente, depois seus dedos relaxaram sobre os dela.
      - Meu Deus, Morgana, voc est grvida! 
      Furiosa com a intromisso, e com suas prprias emoes oscilantes que permitiram que Sebastian se intrometesse, Morgana levantou-se de um salto. Porm, logo 
que comeou a repreend-lo, viu a preocupao nos olhos dele.
      - Que diabos, Sebastian! Este  o tipo de anncio que uma mulher prefere fazer por si s!
      - Sente-se - ele ordenou, e a teria carregado para a cadeira se Anastsia no o afastasse.
      - De quanto tempo? - Ana indagou.
      Morgana limitou-se a suspirar.
      - Desde o equincio da primavera. S tive certeza alguns dias atrs.
      - Est se sentindo bem? - Antes que Morgana pudesse responder, Ana espalmou a mo sobre sua barriga. - Deixe-me ver. - Com os olhos fixos em Morgana, Anastsia 
examinou-a. Sentiu a pele quente sob o roupo, o latejar do pulso, o fluxo de sangue. E a vida, ainda no totalmente formada, dormindo. Seus lbios curvaram-se num 
sorriso.
      - Voc est tima - disse. Vocs dois esto.
      - S estou um pouco preguiosa esta manh. - Morgana pousou a mo sobre a dela. - No quero que vocs se preocupem.
      - Ainda digo que ela deveria sentar, ou deitar-se, at que as cores voltem ao seu rosto - Sebastian falou carrancudo. 
      A idia de que sua prima, sua parceira de brigas preferida, estava to fragilizada e esperando um beb o deixava inseguro. Rindo, Morgana abaixou-se para beij-lo.
      - Voc vai ficar me enchendo de atenes, primo? - Contente, tornou a beij-lo e sentou-se. - Espero que sim.
      - J que o restante da nossa famlia est na Irlanda caber a mim e a Ana cuidarmos de voc. 
      Morgana murmurou um agradecimento distrado enquanto Ana enchia novamente sua xcara de ch. 
      - E o que o faz pensar que precisarei de cuidados?
      Sebastian encolheu os ombros, ignorando a pergunta.
      - Sou o mais velho, aqui - lembrou-a. - E, como tal, quero saber quais so as intenes de Kirkland.
      Ana sorriu sobre a borda da xcara.
      - Meu Deus, Sebastian, que coisa mais medieval. Pretende furar o sujeito com uma espada por ele ter desonrado a sua prima?
      - No encaro esta situao com tanto descaso quanto vocs. - Os olhos dele ficaram sombrios, quando as primas fizeram uma careta. - Vamos esclarecer uma coisa, 
est bem? Morgana, voc quer estar grvida?
      - Eu estou grvida.
      Sebastian pressionou-lhe a mo, at que ela o encarasse novamente.
      - Voc sabe muito bem o que quero dizer.
      Evidente que ela sabia. Morgana tornou a suspirar.
      - Tive apenas um ou dois dias para pensar neste assunto, mas j pensei, com todo cuidado. Sei que posso desfazer o que foi feito. Sem nenhum pudor. Entendo 
que esta idia a incomoda, Ana.
      A prima balanou a cabea.
      - A escolha tem de ser sua.
      - Sim,  verdade. Tomei precaues para no engravidar, mas o destino preferiu ignor-las. Consultei meu corao e acredito que um filho estava predestinado. 
Este filho. Ela sorriu. - Neste momento, e com este homem. Por mais insegura que eu me sinta, por mais medo que eu tenha, no posso afastar esta crena. Portanto, 
sim, Sebastian. Eu quero estar grvida.
      Satisfeito, ele assentiu.
      - E quanto a Nash? Como ele se sente a respeito? No esperou que ela falasse, pois precisou de um nico segundo para saber a resposta. Sua voz reverberou at 
o teto. - O que, em nome de Finn, voc est dizendo? No contou a ele?
      O olhar que Morgana enviou-lhe foi afiado o bastante para desmembrar dez homens.
      - Fique longe da minha mente, ou juro que o transformo num sapo!
      Ele simplesmente arqueou a sobrancelha.
      - Ento me responda.
      - Eu mesma s tive certeza h poucos dias. - Jogando os cabelos para trs, Morgana levantou-se. - E, depois do que aconteceu ontem, no posso simplesmente 
jogar uma notcia destas sobre ele.
      - Ele tem o direito de saber - Ana intercedeu, calmamente.
      - Tudo bem. - Sentindo a irritao borbulhar dentro de si, Morgana cerrou os punhos. - Vou dizer a ele. Quando estiver pronta para isso. Vocs acham que quero 
amarr-la deste jeito?
      Morgana ficou chocada ao sentir uma lgrima correr pelo rosto. Enxugou-a com um gesto impaciente.
      - Esta  uma escolha que ele ter de fazer por si mesmo.
      Sebastian j decidira que, caso Nash fizesse a escolha errada, teria muito prazer em lhe quebrar vrios ossos vitais, da maneira convencional.
      - Sebastian est certo, Morgana. - Preocupada, mas firme, Ana levantou-se para abraar a prima. - Ser uma escolha dele, como foi a sua. Mas ele no poder 
faz-la, se no souber que a escolha existe.
      - Eu sei. - Procurando conforto, Morgana recostou a cabea no ombro de Ana. - Vou contar tudo a ele, esta manh mesmo.
      Sebastian levantou-se e afagou os cabelos de Morgana.
      - Ns estaremos por perto.
      Ela conseguiu sorrir com um trao de sua vivacidade normal.
      - No muito perto, por favor.
      
      Nash rolou na cama, resmungando no travesseiro. Sonhos; Estava sonhando tanto... Os sonhos perpassavam sua mente como se fossem cenas de filmes.
      Morgana. Sempre Morgana, sorrindo para ele, acenando-lhe, prometendo o incrvel, o maravilhoso. Fazendo-o sentir-se pleno, forte e esperanoso.
      Sua av, com os olhos reluzindo de raiva, surrando-o com a velha colher de pau, dizendo-lhe vezes sem conta que ele no valia nada.
      Correndo numa bicicleta vermelha pelas caladas de um bairro nos subrbios, com o vento nos cabelos e o barulho matraqueante dos cartes de beisebol tamborilando 
nos aros.
      Leeanne aproximando-se, aproximando-se demais, com a mo estendida, lembrando-o de que eram do mesmo sangue. E que ele lhe devia, lhe devia, lhe devia...
      Morgana rindo, aquele riso solto e desvairado, os cabelos esvoaando para trs como uma nuvem enquanto sobrevoava as guas escuras da baa montada num cabo 
de vassoura.
      Ele mesmo, mergulhado num caldeiro fumegante com sua av mexendo o caldo com a maldita colher de pau. E a voz de Morgana, ou a voz de sua me?, cacarejando 
como uma bruxa das peas de Shakespeare.
      - "Fantasma, fantasma, labuta e desgraa".
      . Nash sentou na cama de repente, respirando rpido e piscando dIante da luz do sol. Levou as mos trmulas ao rosto, e esfregou-o com fora.
      timo. Maravilhoso. Como se todo o resto no bastasse agora estava ficando maluco. ' Isto seria obra dela, tambm?, perguntou-se. Morgana teria se insinuado 
em sua mente para faz-lo pensar o que ela queria que pensasse? Bem, ela no iria safar-se com isso.
      Nash saiu da cama desajeitadamente e tropeou nos prprios sapatos. Praguejando, chutou-os para longe e caminhou s cegas para o banheiro. Assim que conseguisse 
se recobrar, ele e a Maravilhosa Bruxa do Leste, iriam ter uma conversinha.
      
      Enquanto Nash enfiava a cabea sob o chuveiro, Morgana parou o carro diante da casa dele. Viera sozinha. Quando no permitira que Luna a acompanhasse, a gata 
ficara toda emburrada, sacudindo a cauda com indignao. Suspirando, Morgana prometeu a si mesma que iria compens-la. Talvez passasse pelo Fisherman's Wharf e comprasse 
um banquete de frutos do mar para amolecer um pouco o corao da gata. Nesse meio tempo, tinha de preocupar-se com seu prprio corao.
      Virando o espelho retrovisor, examinou cuidadosamente o rosto. Com um gemido de desgosto, recostou no assento. O que a levara a pensar que poderia encobrir 
os sinais de cansao e preocupao com uma simples maquiagem?
      Pressionou os lbios e olhou na direo da casa. No permitiria que Nash a visse daquele jeito. No iria at ele, levando uma notcia como aquela, parecendo 
vulnervel e carente.
      Nash j era pressionado demais por outras pessoas.
      Lembrou-se de que, no incio, imaginara que ele fosse um homem completamente despreocupado. E talvez, por longos perodos de tempo, ele fosse mesmo. Certamente 
ele prprio acabara acreditando nisto. Se Nash tinha o direito de fingir, ento ela tambm teria.
      Depois, de respirar fundo, acalmando-se, Morgana iniciou um cntico silencioso. As olheiras escuras desapareceram, a cor retomou s suas faces. Quando saiu 
do carro, todos os sinais de uma noite insone tinham sido apagados. Podia lidar com o rpido batimento do seu corao, mas no o deixaria ver o quanto estava miseravelmente 
apaixonada, e aterrorizada.
      Havia um sorriso em seu rosto, quando bateu na porta. Mas um n espesso alojava-se em sua garganta.
      Praguejando, Nash enfiou uma perna depois da outra na cala jeans.
      - Espere um pouco, droga! - resmungou, vestindo a cala. Desceu as escadas correndo, descalo e sem camisa, resmungando diante da idia de uma visita antes 
do caf. - O que ? -- esbravejou abrindo a porta de todo. Ento imobilizou-se, arregalando os olhos.
      Morgana estava to fresca e linda quanto a manh. To insinuante e sensual quanto a noite. Nash perguntou-se como a umidade que ainda grudava-se em sua pele 
no Se transformava em vapor.
      - Ol. - Ela ergueu o rosto para roar os lbios nos dele. - Tirei voc do banho?
      - Quase. - Sem saber o que fazer, ele passou a mo pelos cabelos molhados. - Por que no est na loja?
      - Tirei o dia de folga. - Morgana entrou devagar, esforando-se para manter a voz natural e os msculos relaxados. - Dormiu bem?
      - Voc deveria saber. - Diante da leve surpresa nos olhos dela, Nash ficou ainda mais irritado. - O que voc fez comigo, Morgana?
      - Fiz o qu? No fiz nada com voc, Nash. - Ela tentou sorrir novamente. - A no ser que me engane, voc est precisando urgentemente de um caf. Quer que 
eu prepare?
      Nash agarrou-a pelo brao antes que ela virasse na direo da cozinha.
      - Posso fazer isso sozinho.
      Morgana viu a raiva nos olhos dele e assentiu, lentamente.
      - Tudo bem; Prefere que eu volte mais tarde?
      - No. Vamos resolver tudo agora. - Quando Nash seguiu pelo corredor com passos duros, ela fechou os olhos com fora.
      Resolver tudo, pensou com uma ntida premonio de desastre. Por que aquela frase soava to parecida com "acabar com tudo"? Juntando coragem, seguiu-o para 
a cozinha, mas sentiu que esta desaparecia de repente. Ento, virou para a sala de estar e sentou na beirada de uma cadeira.
      - Ele precisava tomar o caf, disse a si mesma. E ela precisava de um momento para se reorganizar.
      No esperava encontr-lo to zangado, to frio. Do mesmo Jeito que ele havia ficado quando falara com Leeanne no dia anterior. Nem tampouco imaginara o quanto 
ficaria magoada pela maneira como ele a olhava, com uma raiva fria e incontida.
      Levantou-se e vagou pela sala, a mo pousada protetoramente sobre a vida que iniciava-se em seu tero. Ela iria proteger aquela vida, prometeu a si mesma. 
A qualquer custo.
      Quando Nash voltou, trazendo uma xcara fumegante na mo, ela estava parada na janela. Seus olhos pareciam tristonhos. Se ele j no soubesse de tudo, diria 
que ela parecia magoada, e at vulnervel.
      Mas ele no cairia nessa. E, sem dvida, ser uma feiticeira era o mesmo que ser invulnervel.
      - Suas flores esto precisando de gua - ela disse. No basta apenas plant-las. - Mais uma vez, pousou a mo na barriga. - Elas precisam de cuidados.
      Nash deu um bom gole no caf, e queimou a lngua. A dor ajudou a bloquear a sbita necessidade que sentiu de ir at ela e tom-la nos braos, de apagar a tristeza 
que ouvia em sua voz.
      - No estou com muita disposio para falar sobre flores.
      - No. - Ela virou-se, e os traos de vulnerabilidade tinham desaparecido. - Isso eu j. percebi. Sobre o que est disposto a falar, Nash?
      - Quero a verdade, Morgana. Toda a verdade.
      Ela enviou-lhe um sorrisinho divertido, virando as mos num gesto de indagao.
      - Por onde quer que eu comece?
      - No me venha com brincadeiras, Morgana. Estou farto disso. - Nash comeou a andar pela sala, os msculos tensos, prestes a arrebentar. Levantou a cabea 
de repente. Se Morgana fosse uma mulher um pouco mais frgil, a expresso de seus olhos a teria feito recuarem defesa. - Toda esta histria tem sido uma longa e 
divertida travessura para voc, no ? Desde o comeo, desde o instante em que entrei em sua loja, voc decidiu que eu seria um bom candidato. - Deus, ele pensou, 
como doa... Como doa pensar em tudo o que sentira, em tudo que passara a desejar. - Minha atitude em relao aos seus... talentos deixou-a irritada, ento voc 
resolveu fazer uma exibio das suas habilidades.
      Ela sentiu o corao disparar em seu peito, mas manteve a voz firme.
      - O que quer dizer com isso, Nash? Se est dizendo que eu lhe mostrei o que sou, no posso negar. No me envergonho disto.
      Ele bateu a caneca na mesa com tanta fora que o caf esparramou no tampo. A sensao de ter sido trado era to devastadora que superava tudo o mais. Diabos, 
ele a amava. Ela fizera com que ele a amasse. E agora que ele exigia uma explicao, Morgana limitava-se a ficar ali parada, parecendo muito calma e adorvel.
       - Quero saber o que voc fez comigo - repetiu. - Depois, quero que desfaa.
      - J lhe disse, eu no...
      - Quero que me olhe nos olhos. - Numa onda de pnico e fria, Nash agarrou-a pelos braos. - Olhe nos meus olhos, Morgana, e diga que voc no acenou com a 
varinha mgica, nem invocou seus encantos para fazer com que eu ficasse deste jeito.
      - Que jeito?
      - Maldio, eu estou apaixonado por voc! No consigo ficar nem uma hora sem desej-la. No posso me imaginar daqui a um ano, daqui a dez anos, sem ter voc 
ao meu lado.
      O corao dela enterneceu-se.
      - Nash...
      Ele afastou-se bruscamente da mo que ela ergueu para seu rosto. Atnita, Morgana deixou-a cair para baixo.
      - Como fez isso? - ele exigiu. - Como entrou em mim desta maneira, fazendo com que eu comeasse a pensar em casamento, numa famlia? Qual era seu objetivo? 
Brincar um pouco com um mortal, at cansar-se dele?
      - Sou to mortal quanto voc - ela afirmou. - Eu como, durmo, e sangro quando me corto. Eu envelheo. Eu sinto.
      - Voc no  como eu. - Nash quase cuspiu as palavras.
      Morgana sentiu o encantamento desvanescendo-se, a cor sumindo de seu rosto. - No. Voc tem razo. Eu sou diferente, e no h nada que possa fazer para mudar 
isso. Nada que eu faria. Se voc acha difcil demais aceitar este fato, ento deixe-me ir embora.
      - Voc no vai sair daqui e me deixar deste jeito. Conserte o que fez. - Nash sacudiu-a com fora. - Desfaa o feitio!
      A iluso dissipou-se, de forma que Morgana encarou-o com os olhos sombrios e tristes.
      - Que feitio?
      - Seja qual for o feitio que voc usou. Voc me obrigou a dizer coisas que eu jamais disse a ningum. Voc me desnudou completamente, Morgana. No pensou 
que eu acabaria concluindo que jamais teria lhe contado sobre minha famlia, sobre meu passado, se estivesse plenamente consciente? Estes eram segredos meus. - Nash 
soltou-a, e afastou-se para impedir-se de tomar uma atitude drstica. - Voc me iludiu para arrancar-me tudo isso, da mesma forma que Iludiu-me com todo o resto. 
Voc usou meus sentimentos.
      - Eu nunca usei seus sentimentos - ela comeou furiosa, mas depois parou, empalidecendo ainda mais.
      Ao reparar na expresso dela, Nash estreitou os lbios.
      -  mesmo?
      - Tudo bem, usei-os, ontem. Depois que sua me ligou, depois que voc me contou tudo aquilo, eu quis lhe dar um pouco de paz de esprito.
      - Ento foi um feitio.
      Embora Morgana mantivesse a cabea levantada, ele vacilou. Ela parecera to frgil, h pouco. Como vidro capaz de quebrar a um simples toque. .
      - Eu permiti que as emoes guiassem meu julgamento.Se estava errada, e agora parece bvio que eu estava, peo desculpas. .
      - Ah timo. Desculpe por t-lo levado para dar uma voltinha, Nash. - Ele enfiou as mos nos bolsos. - E quanto ao resto?
      Morgana passou a mo trmula pelos cabelos.
      - Que resto?
      - Vai ficar a parada e me dizer que no provocou tudo isso, que no manipulou meus sentimentos? Que no me fez pensar que a amava, e que desejava comear 
uma Vida com voc? Meu Deus, at ter filhos com voc? - E, porque ele ainda queria tudo isso, sua raiva intensificou-se - Eu sei muito bem que nada disso foi idia 
minha. De Jeito nenhum.
      A dor parecia cort-la ao meio. Porm, enquanto cortava, liberava alguma coisa. A raiva de Nash, sua sensao de ter sido trado e sua confuso, no eram nada 
se comparadas com o que borbulhava dentro dela. Morgana controlou-se como pde e observou-o por um instante.
      - Est dizendo que fiz com que voc gostasse de mim atravs de magia? Que usei meus dons em proveito prprio enfeitiando-o para que voc me amasse? - E exatamente 
isso que estou dizendo. 
      Morgana relaxou o controle. A cor subiu novamente ao seu rosto, seus olhos reluziam como sis. O poder, e a fora que este carregava, preencheu-a por inteiro.
      - Seu asno idiota.
      Indignado, Nash abriu a boca para disparar uma resposta, mas as palavras saram como o zurro de um asno. Com os olhos arregalados, ele tentou de novo, enquanto 
Morgana fazia um movimento circular com os braos, abrangendo toda a sala.
      - Ento voc acha que est enfeitiado - ela murmurou por entre os dentes, sua fria fazendo com que os livros voassem pelo espao como msseis literrios.
      Nash abaixava-se e desviava-se, mas no conseguiu evitar todos eles. Quando um livro atingiu-o no nariz, ele praguejou. Sentiu um instante de atordoado alvio, 
ao perceber que sua prpria voz retornara.
      - Escute, benzinho...
      - No, escute voc, benzinho. - Numa seqncia rpida, agora Morgana fazia com que um p de vento atirasse todos os mveis, formando uma pilha. - Acha que 
eu iria desperdiar meus dons para cativar algum como voc? Seu idiota, convencido e arrogante! D-me apenas um motivo para que eu no o transforme agora mesmo 
na serpente nojenta que voc !
      Estreitando os olhos, Nash encaminhou-se para ela.
      - No vou entrar nesta brincadeira, Morgana.
      - Ento, fique olhando.
      Com um meneio da mo ela o fez disparar de costas atravs da sala, depois a meio metro do cho, para em seguida aterrisar numa cadeira. Ele pensou em levantar-se, 
mas decidiu que seria mais sensato recuperar o flego, primeiro.
      Para dar um toque final, Morgana fez com que os pratos voassem na cozinha. Nash ouviu os estilhaos, exalando um suspiro resignado.
      - Voc devia saber que no se irrita uma feiticeira ela disse. As toras de lenha na lareira comearam a estalar e soltar fagulhas, com o sbito fogo. - No 
sabe o que uma pessoa como eu, sem nenhuma integridade, sem escrpulos, seria capaz de fazer?
      -Tudo bem, Morgana... - Nash comeou a levantar-se, mas ela atirou-o de volta na cadeira, com tanta fora que os dentes dele bateram.
      - No se aproxime de mim, nem agora, nem nunca mais. - A respirao dela estava ofegante, embora fizesse um esforo para control-la. - Se voc chegar perto 
de mim, juro que vou transform-lo em algo que anda em quatro patas e uiva para a lua.
      Nash deixou escapar um suspiro incerto. No achava que ela cumpriria a promessa, no de verdade. E era melhor tomar uma atitude do que ficar lamentando-se. 
Sua sala estava em frangalhos. Diabos, a sua vida estava em frangalhos. Eles teriam de lidar com aquela situao. .
      - Pare com isso, Morgana. - A voz dele estava admiravelmente calma e firme. - Voc no est provando nada, com isso.
      A fria de Morgana se esgotara, deixando-a vazia, dolorida e infeliz.
      - Voc tem toda razo. No estou, mesmo. Meu temperamento, como meus sentimentos, s vezes no me permitem pensar direito. No. - Ela ergueu a mo, antes que 
ele se levantasse. - Fique onde est. Ainda no estou em condies de confiar nos meus atos.
      Enquanto ela se virava, o fogo apagou-se. O vento cessou.
      Em silncio, Nash respirou aliviado. Ao que parecia, a tempestade havia passado.
      Mas ele estava muito enganado.
      - Ento, voc no quer estar apaixonado por mim.
      Algo na voz dela fez com que Nash franzisse a testa.
      Queria que ela se voltasse, para que pudesse ver-lhe o rosto, mas Morgana permanecia de costas, olhando pela janela.
      - No quero estar apaixonado por ningum - ele falou cauteloso, esforando-se para acreditar no que dizia. - No  nada pessoal.
      - Nada pessoal- ela repetiu.
      - Escute, Morgana, sou um pssimo partido. Gosto da minha vida como era antes.
      - Como era antes de me conhecer.
      - Ao ouvir tais. palavras, Nash sentiu-se como inseto pegajoso que rastejava pela grama. Checou os braos e pernas para certificar-se de que no era mesmo.
      - No  voc, sou eu. E eu... Diabos, no vou ficar aqui sentado, pedindo desculpas por ter sido enfeitiado. - Levantou-se, hesitante. - Voc  uma mulher 
maravilhosa e...
      - Ah, por favor, no se desgaste tentando ser bem-educado. - As palavras saram como um soluo, quando Morgana se virou.
      Nash sentiu-se como se ela tivesse atirado uma lana em seu corao. Morgana estava chorando. As lgrimas despontavam de seus olhos, correndo pelas faces plidas. 
No havia nada, nada que ele quisesse mais, naquele instante, do que tom-la nos braos e afastar as lgrimas com seus beijos. - Morgana, no... Eu no queria... 
- A voz dele calou-se de repente, como se tivesse batido contra uma parede. Nash no podia ver a parede, mas ela a erguera entre eles, e era to slida como se tivesse 
sido feita de tijolos e cimento. Pare com isso! - Sua voz elevou-se, num misto de pnico e raiva de si mesmo, enquanto esmurrava a barreira que os separava. - Isto 
no  a resposta!
      Morgana sentia o corao sangrando.
      - Pois dever servir, enquanto procuro pela resposta certa.
      Ela deveria odi-lo, queria desesperadamente odi-lo por obrig-la a humilhar-se. Enquanto as lgrimas continuavam caindo, pousou as duas mos na barriga. 
Tinha mais algum a quem proteger, alm de si mesma.
      Nash espalmou as mos impotentes contra a parede. Por mais estranho que parecesse, sentia-se como se fosse ele prprio quem se bloqueara, e no ela.
      - No suporto v-la chorar.
      - Ter de suportar, por um momento. Mas no se preocupe, as lgrimas de uma feIticeira so iguais s de qualquer mulher. Fracas e inteis. - Morgana acalmou-se 
um pouco, piscando at que pudesse enxergar com clareza. - Voc quer sua liberdade, Nash?
      Se pudesse ter a liberdade, ele correria direto para ela.
      - Maldio, ser que voc no entende que eu no sei o que quero?
      - Seja l o que for, no  a mim que voc quer. Do contrrio, teramos ficado juntos. Eu prometi que no exigiria nada alm do que voc pudesse me dar. E nunca 
volto atrs em minha palavra.
      Nash sentiu um tipo diferente de medo, um pnico alucinante ao pensar que o que ele realmente queria estava prestes a escapar de suas mos.
      - Deixe-me toc-la.
      -Se voc pensasse em mim como uma mulher em primeiro lugar, eu deixaria. - Morgana pousou a mo no lado oposto da parede. - Voc acha que, por ser o que sou, 
no preciso ser amada corno qualquer outra mulher?
      Nash atirou-se contra a parede, empurrando-a.
      - Tire esta maldita coisa daqui!
      Mas aquilo era tudo o que ela possua, uma defesa muito medocre.
      - Nossos objetivos se cruzaram em algum ponto ao longo do caminho, Nash. Mas imagino que no seja culpa de ningum que eu tenha comeado a am-lo tanto.
      - Morgana, por favor.
      Ela balanou a cabea, observando-o, guardando a imagem dele na mente, no corao, onde poderia mant-la para sempre.
      - Pode ser que, por causa disso, eu acabei seduzindo voc de alguma forma. Nunca amei ningum antes, portanto no posso ter certeza. Mas juro que no foi intencional, 
no foi para prejudic-lo.
      Furiosa ao sentir novamente a ameaa das lgrimas, ela se afastou. E, por um instante, ficou parada ali, com a cabea erguida, orgulhosa e repleta de poder.
      - Mas lhe darei o que voc quer, e pode confiar no que digo. Qualquer domnio que eu tenha sobre voc est rompido, a partir de agora. Quaisquer sentimentos 
que eu tenha lhe provocado atravs dos meus dons, esto desfeitos. Voc est livre de mim, e de tudo o que construmos.
      Morgana fechou os olhos, ergueu as mos.
      - O amor evocado  amor falso. No vou aceit-lo, nem pratic-lo. Tal evocao  desperdcio. Que seu corao e sua mente estejam livres de mim. Como eu irei, 
que ao p retome.
      Morgana abriu os olhos iluminados pelas lgrimas.
      - Voc  mais do que pensa - disse baixinho. - E menos do que poderia ser.  Nash sentia o corao preso na garganta.
      - Morgana, no v embora assim.
      Ela sorriu.
      - Ah, creio que pelo menos tenho o direito a uma sada dramtica, no acha? - Embora estivesse a alguns metros de distncia, Nash podia jurar que sentiu os 
lbios dela tocando-o. - Abenoado seja, Nash - ela disse. E depois se foi.
      
      CAPTULO 12
      
      Nash no tinha dvidas de que estava enlouquecendo. Dia aps dia, ficava vagando pela casa e pelos arredores. Noite aps noite, virava na cama, insone.
      Morgana lhe dissera que ele estava livre, no dissera?
      Ento, por que ele no estava?
      Por que continuava vendo a maneira como ela o olhara daquela ltima vez, com sofrimento nos olhos e lgrimas no rosto?
      Tentava convencer-se de que ela ainda o deixara enfeitiado. Mas sabia que isso era mentira.
      Depois de uma semana, desistiu de tentar e foi dirigindo at a casa dela. Estava vazia. Foi procur-la na loja, porm uma Mindy muito fria e antiptica informou 
que Morgana estava viajando. Mas no lhe disse para onde, nem quando voltaria.
      Ele devia sentir-se aliviado ou, pelo menos, era o que dizia a si mesmo. Obstinado, tentou afast-la dos pensamentos e seguir com a vida que tinha antes de 
conhec-la.
      No entanto, quando caminhava pela praia imaginava como seria estar ali junto com ela, tendo um garotinho correndo entre eles.
      Tal imagem tez com que ele fosse passar uns dias em Los Angeles.
      Nash queria acreditar que sentia-se melhor ali, com a correria, o barulho, as multides. Almoou com seu agente no Polo Lounge e discutiu o elenco do filme. 
Foi a clubes noturnos sozinho, alimentando-se de msica e risos. E perguntava-se se no havia cometido um erro ao mudar-se para o norte. Talvez seu lugar fosse ali 
mesmo, na cidade grande, cercado de estranhos e de distraes
      Mas depois de trs dias seu corao ansiava pelo aconchego do lar, pelo sussurro do vento e o murmrio das ondas. E por ela.
      Nash voltou  loja, interrogando Mindy com tal rispidez que os fregueses que ali estavam se afastaram, cochichando. Mas ela no cedeu. 
      Sem saber mais o que fazer, acabou estacionando o carro na frente da garagem da casa de Morgana, olhando para a casa e remoendo-se. Mais de um ms havia se 
passado e ele  consolou-se com a idia de que ela teria de voltar algum dia. Sua casa estava ali, e tambm seus negcios.
       E, diabos, ele estava ali , esperando por ela.
       Enquanto o sol se punha,  Nash apoiou os braos no volante e descansou a cabea nas mos. Era exatamente isso que estava fazendo, admitiu. Esperando por ela. 
E no esperava ter uma conversa racional e sensata, conforme tentara convencer-se naquelas ltimas semanas.
       Estava esperando para implorar, para prometer, para lutar, para fazer tudo o que pudesse para colocar as coisas novamente nos eixos. Para traz-la de volta 
 sua vida. 
      Cerrou a mo em torno da pedra que ainda usava no pescoo, e perguntou-se se seria possvel fazer um desejo para traz-la de volta. Valia a pena tentar. Talvez 
fosse uma idia melhor do que publicar um anncio nos classificados dos jornais, pensou irnico. Fechando os olhos, concentrou-se completamente nela. 
       - Morgana, sei que voc pode me ouvir, se quiser. Voc no vai me ignorar deste jeito, no vai mesmo. S porque fui um idiota, no  motivo para ...
      De repente, Nash sentiu uma presena, claramente. Abriu os olhos com cuidado, virou a cabea e deparou-se com a expresso divertida de Sebastian.
      - O que  isso? Sebastian perguntou, sorrindo. - Um "show" de calouros?
      Antes mesmo de pensar, Nash j estava abrindo a porta do carro.
      - Onde ela est? - disparou, segurando Sebastian pelo colarinho da camisa. - Voc sabe e, de um jeito ou de outro, vai me dizer.
      
      Os olhos de Sebastian escureceram perigosamente.
      - V com calma, meu amigo. H tempos que estou querendo ter uma conversinha com voc.
      A idia de uma boa briga foi extremamente atraente para Nash.
      - Ento vamos...
      - Comportem-se - Anastsia ordenou. - Vocs dois.
      - Com as mos delicadas, separou os dois homens. - Tenho certeza de que vocs adorariam trocar murros e chutes, mas no vou tolerar essas coisas.
      Nash cerrou os punhos, deixando-os cair para baixo num gesto frustrado.
      - S quero saber onde ela est.
      Encolhendo os ombros, Sebastian recostou no cap do carro.
      - Seus desejos no tm muito peso, por aqui. - Cruzou as pernas na altura dos tornozelos, quando Anastsia deu um passo para separ-los novamente. - Voc parece 
um tanto abatido, meu velho amigo Nash. - E isso o deixava infinitamente satisfeito. - A conscincia est incomodando-o?
      _ Sebastian. - A voz baixa de Ana continha censura e compaixo. - No o provoque. No v que ele est infeliz?
      - Meu corao chora por ele.
      Ana pousou a mo no brao de Nash.
      - E que ainda a ama?
      A resposta de Sebastian foi um riso seco.
      - No deixe que este ar de cachorro perdido confunda seus sentimentos, Ana.
      Ela encarou o primo com impacincia.
      -  Pelo amor de Deus, Sebastian, basta olhar.
      Relutante, ele o fez. Enquanto seus olhos obscureciam-se, espalmou a mo no ombro de Nash. Antes que Nash pudesse afast-la, com raiva, Sebastian tornou a 
rir.
      -  Por tudo o que  sagrado, ele a ama mesmo. - Balanou a cabea para Nash. - Por que diabos voc armou toda aquela confuso?
      - No tenho de lhe dar explicaes - Nash resmungou. Distrado, passou a mo pelo ombro, que ardia como se tivesse sido queimado pelo sol. - O que tenho a 
dizer, direi apenas para Morgana.
      Sebastian estava amolecendo um pouco, mas no via motivos para facilitar as coisas para o outro.
      - Pois creio que Morgana tem a impresso de que voc j disse tudo o que tinha a dizer. No sei se ela est em condies de ouvir novamente suas acusaes 
ultrajantes.
      - Em condies? - Nash repetiu, sentindo-se gelar. Ela est doente? - Tomou a agarrar Sebastian pela camisa, mas a fora desaparecera de suas mos. - O que 
h de errado com ela?
      Os dois primos trocaram um olhar, to breve e sutil que passou despercebido.
      - Ela no est doente - Ana falou, tentando no ficar furiosa por Morgana no ter contado a Nash sobre a gravidez. - Na verdade, est muito bem. Sebastian 
quis dizer que ela ainda est aborrecida pelo que aconteceu entre vocs na ltima vez em que se viram.
      Os dedos de Nash afrouxaram-se. Quando conseguiu respirar direito novamente, assentiu.
      - Tudo bem, vocs querem que eu implore. Pois vou implorar. Preciso v-la. Se depois que eu acabar de rastejar ela ainda quiser chutar-me para fora de sua 
vida, eu me conformo com isso.
      - Ela est na Irlanda - Ana informou. - Com nossa famlia. - Seu sorriso abriu-se lindamente. - Voc tem um passaporte?
      
      Morgana estava contente por estar ali. O ar na Irlanda era como um calmante, fosse pela brisa refrescante que vinha das montanhas, ou pelo vento selvagem que 
soprava forte atravs do canal.
      E, embora soubesse que logo chegaria a hora de voltar e retomar sua vida, estava grata pelas semanas que tivera para se curar.
      E pela sua famlia.
      Estendida no div sob a janela da saleta de estar de sua me, sentia-se mais  vontade e em paz do que em qualquer outro lugar do mundo. Sentia o sol batendo 
em seu rosto, aquele sol luminoso que parecia pertencer somente  Irlanda. Se olhasse pelas vidraas da janela, podia ver os rochedos ngremes que cravavam seu caminho 
at a praia escarpada. E tambm a praia, estreita e spera, estendendo-se at as ondas. Se mudasse de ngulo, avistava o terrao, o gramado muito verde pontilhado 
por uma profuso de rvores que inclinavam-se sob o vento.
      No outro lado da sala, sua me estava sentada desenhando. Era um momento aconchegante, que trazia  Morgana doces lembranas da infncia. E sua me havia mudado 
to pouco, nos anos que se passaram.
      Seus cabelos eram escuros e espessos como os da filha, embora ela os usasse bem curtos. A pele era lisa, suave, com a linda colorao de sua herana irlandesa. 
Os olhos cor de cobalto geralmente eram mais sonhadores que os de Morgana, mas viam com igual clareza.
      Quando Morgana olhou para ela, sentiu-se invadida por uma intensa onda de amor.
      - Voc  to linda, mame.
      Bryna ergueu os olhos e sorriu.
      - No vou discordar, desde que faz muito bem ao corao ouvir um elogio destes de uma filha adulta. - Sua voz carregava o sotaque encantador de sua terra natal. 
- Voc faz idia do quanto  maravilhoso para todos ns termos voc aqui, minha querida?
      Morgana levantou o joelho e segurou-o com as mos.
      - Sei o quanto tem sido bom para mim. E o quanto estou grata por vocs no terem me perguntado tudo o que sei que queriam perguntar.
      - E deveria estar, mesmo. S me faltou transformar seu pai num mudo, para impedi-lo de ficar atormentando-a. Os olhos dela suavizaram-se. - Ele a ama demais, 
voc sabe.
      - Eu sei. - Morgana sentiu lgrimas nos olhos novamente, e tentou afast-las. - Desculpe-me. Meus humores.
      - Balanando a cabea, levantou-se. - Parece que no consigo mais me controlar.
      - Querida. - Bryna estendeu os braos, esperando at que Morgana atravessasse a sala e fosse ao seu encontro.
      -Voc sabe que pode me contar qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. Quando estiver pronta.
      - Mame. - Em busca de conforto, Morgana ajoelhou-se e recostou a cabea no colo de Bryna. Esboou um sorriso lacrimoso, enquanto seus cabelos eram afagados. 
- Recentemente comecei a entender a sorte que tenho por ter voc todos vocs. Para me amar, me querer, para preocuparem-se com o que acontece comigo. Nunca lhe disse 
o quanto sou grata por tudo.
      Intrigada, Bryna abraou a filha.
      - Ora,  para isso que servem as famlias: para amar e cuidar.
      - Nem todas as famlias fazem isso. - Morgana levantou a cabea, com os olhos intensos e secos, agora. - Fazem?
      - Bem, elas no sabem o que esto perdendo. O que a esta magoando tanto, Morgana?
      Ela pegou as mos de sua me.
      - Estive pensando em como se sente uma pessoa que nunca recebeu amor, nem ateno. Que, desde a infncia, ouviu dizer que era um erro, uma carga, algum que 
era apenas tolerado por obrigao. Pode existir alguma coisa mais terrvel do que isso?
      - No. Nada  mais terrvel do que viver sem amor. - O tom de voz de Bryna suavizou-se. - Voc est amando algum?
      Morgana no precisou responder.
      - Ele foi to machucado, mame. Jamais teve o que voc, o que todos vocs me deram, o que eu sempre contei como certo. Mas, apesar de tudo, conseguiu transformar-se 
num homem maravilhoso. Ah, voc iria gostar dele. - Recostou a face na mo de Bryna. - Ele  divertido, gentil. E tem uma mente to... bem, abundante. Est sempre 
pronto a experimentar novas idias. Mas h uma parte dele que est enclausurada. No por ele, mas pelas pessoas que o criaram. E apesar dos meus poderes, sou incapaz 
de penetrar nesta barreira. - Ela apoiou-se nos calcanhares. Ele no quer me amar, e eu no posso, e no vou, tomar o que ele no est disposto a doar.
      - No. - O corao de Bryna condoeu-se ao olhar para a filha. - Voc  forte e orgulhosa demais, inteligente demais para fazer isso. Mas as pessoas mudam, 
Morgana.
      Com o tempo... .
      - No h tempo. Vou ter o filho dele na poca do Natal.
      Todas as palavras de consolo que Bryna havia preparado desapareceram num instante. Tudo o que ela podia pensar era que sua filhinha estava esperando um beb.
      - Voc est passando bem? - conseguiu perguntar.
      Morgana sorriu, contente por esta ser a primeira pergunta.
      - Estou, sim.
      - E tem certeza?
      - Absoluta.
      - Ah, meu amor. - Bryna levantou-se e abraou-a. Minha pequenina...
      - No vou ser pequenina por muito tempo.
      Elas riram juntas, enquanto se separavam.
      - Estou feliz por voc. Mas triste, tambm.
      - Eu sei. Mas quero esta criana. Pode acreditar, mame, nenhuma criana jamais foi to desejada No apenas porque talvez seja tudo o que eu tenha do pai dela, 
mas por si mesma.
      - E como se sente?
      . - Estranha - Morgana falou. - Forte num momento, terrivelmente frgil no outro. No me sinto mal, mas s vezes fico um pouco zonza.
      Compreendendo, Bryna assentiu.
      - E voc diz que o pai  um bom homem.
      - Sim, muito bom.
      - Ento, quando voc contou a ele, ficou apenas surpreso, despreparado, ou... - Bryna reparou que a filha desviava os olhos. - Morgana, desde que voc era 
criana, costumava olhar para outro lado quando se preparava para escapar.
      Franzindo a testa, Morgana encarou a me novamente.
      - No contei a ele. Espere - pediu, antes que Bryna se lanasse num - sermo. - Eu pretendia contar, mas tudo desmoronou. Sei que foi errado no dizer, mas 
tambm seria errado prend-lo ao meu lado, se lhe contasse. Tive de escolher.
      - A escolha errada.
      Morgana empinou o queixo, exatamente como fizera sua me.
      - Foi minha escolha, certa ou errada. No estou pedindo sua aprovao, mas sim o seu respeito. E tambm vou lhe pedir para no contar nada a ningum, por enquanto. 
Incluindo papai.
      - Incluindo o papai, o qu? - Matthew indagou entrando na sala com passos largos, seguido de perto pelo lobo que era o genitor de Pan.
      - Conversa de mulheres - Morgana respondeu tranqilamente, aproximando-se dele para beij-lo na face - Ol, bonito. .
      Ele beliscou-lhe o nariz de leve.
      - Sei muito bem quando minhas mulheres esto guardando segredos.
      - No pode espiar - Morgana falou, sabendo que Matthew e era quase to habilidoso em ler pensamentos quanto Sebastian. - Agora, onde esto todos?
      Mattew no estava satisfeito, mas era paciente. Se Morgana no lhe contasse logo, iria olhar por conta prpria. Afinal, era o seu pai.
      - Douglas e Maureen esto na cozinha, discutindo sobre quem vai fazer o que para o almoo. Camilla est dando uma surra em Padrick no jogo de baralho. - Matthew 
sorriu, maldoso. - E ele no est aceitando muito bem a derrota. Acusou-a de encantar as cartas.
      Bryna conseguiu esboar um sorriso.
      - Ela est encantando?
      - E claro que sim. - Matthew afagou o plo prateado do lobo. - Sua irm j nasceu trapaceando.
      Bryna enviou-lhe um olhar de pena.
      - E seu irmo no sabe perder com classe.
      Morgana riu e ficou de braos dados com os dois.
      - E como vocs conseguem morar os seis juntos nesta casa, sem serem atingidos por um raio,  um mistrio para mim. Agora, vamos descer e criar um pouco mais 
de confuso.
      
      No havia nada como uma refeio com os Donovan para deix-la mais animada. E nimo era exatamente o que Morgana estava precisando. Observar com afeio as 
disputas, discusses e interaes entre irmos e cnjuges era melhor do que estar sentada na primeira fileira de um circo.
      Morgana tinha plena conscincia de que eles nem sempre se entendiam. mas tambm sabia que, qualquer que fosse o motivo de atrito, todos eles se fundiriam como 
o sol e a luz diante da crise familiar.
      Ela no pretendia ser uma crise. Queria apenas passar algum tempo em companhia deles.
      Embora fossem dois grupos de trigmeos, havia pouca semelhana fsica entre os irmos. O pai de Morgana era alto e magro, com uma mecha de cabelos grisalhos 
e uma barba respeitvel. Padrick, o pai de Anastsia, no era muito mais alto do que Morgana, com a aparncia robusta de um boxeador e um corao de moleque. Douglas 
tinha quase um metro e oitenta, com uma testa larga que acabava dramaticamente num bico-de-viva. E excentricidade era o seu hobby. Naquele momento, trazia uma lente 
de aumento pendurada no pescoo, pela qual olhava sempre que alguma coisa lhe chamava a ateno.
      E tinha tirado o chapu e a capa de caador somente porque, do contrrio, sua esposa Camilla se recusaria a permitir que ele sentasse-se  mesa.
      Camilla, geralmente considerada como a mais novinha do grupo, era bonita e rechonchuda como uma pomba, mas tinha uma vontade de ferro. Suas prprias excentricidades 
faziam preo com as do marido. Naquela manh, estava experimentando um novo estilo de cabelo, com os cachos cor de laranja enrolados em torno da cabea. Uma comprida 
pena de guia pendia de uma das orelhas.
      Maureen, a mdium mais capacitada que Morgana j conhecera, era alta e majestosa, e tinha uma risada escrachada e contagiante, capaz sacudir o telhado.
      Juntamente com a serenidade da me de Morgana e a nobreza de seu pai, eles formavam um grupo bem heterogneo. Todos feiticeiros. Enquanto ouvia as altercaes, 
Morgana sentiu-se envolvida numa imensa onda de amor.
      - Seu gato andou subindo nas cortinas do meu quarto outra vez - Camilla falou para Maureen, acenando com o. garfo.
      - Ora... - Maureen encolheu os ombros. - Devia estar caando ratos, -  claro.
      Os cachos densos de Camilla balanaram.
      - Voc sabe muito bem que no h nenhum rato nesta casa. Douglas fez um "trabalho" para acabar com eles.
      - Pois foi um trabalho muito malfeito.
      - Malfeito! - Camilla pulou em defesa do marido. A nica coisa malfeita aqui  esta torta.
      - , e foi Douglas que fez a torta, tambm - Padrick intercedeu, sorrindo. - Mas gosto das mas assim, meio cruas.
      - E uma nova receita. - Douglas espiou como uma coruja atravs da lente de aumento. - Saudvel.
      - O gato - Camilla insistiu, sabendo muito bem que perdera o controle da conversa.
      - O gato est saudvel como um cavalo - Padrick falou alegremente. - No  verdade, meu docinho? - Enviou uma piscada maliciosa para a esposa. Maureen respondeu 
com um risinho igualmente malicioso.
      - No dou a mnima para a sade do gato - Camilla falou.
      - Ora, ora... - Douglas bateu a mo gorducha na mesa. - No queremos um gato doente por a, no ? Maureen Vai lhe preparar um bom remdio.
      - O gato no est doente - disse Camilla, num tom exasperado. - Douglas, pelo amor de Deus, preste ateno.
      - Prestar ateno em qu? - ele perguntou, indignado. - Se o gato no est doente, ento, em nome de Finn, qual  o problema? Morgana, meu bem, voc no est 
comendo a torta.
      Ela estava ocupada demais sorrindo.
      - Est uma delcia, Douglas. Vou guardar para mais tarde. - Morgana levantou-se e deu um giro rpido pela mesa, beijando cada um deles. - Eu amo vocs, todos 
vocs.
      - Morgana - Bryna chamou ao ver a filha disparar para fora. - Aonde voc vai?
      - Dar uma caminhada na praia. Uma longa caminhada na praia.
      Douglas arqueou a sobrancelha por trs da lente de aumento.
      - Essa menina anda meio estranha - declarou. Desde que a refeio estava quase terminando, pegou o chapu de caador e enfiou-o na cabea. - Vocs no acham?
      
      Nash estava se sentindo estranho; Talvez tivesse alguma relao com o fato de ter ficado duas noites sem dormir. A viagem ininterrupta de aproximadamente vinte 
horas em avies, trens, txis e nibus talvez tivesse contribudo para aquele estado de irrealidade e atordoamento em que se encontrava. Ainda assim, conseguira 
voar da costa Leste para a costa Oeste, pegar outro avio em Nova York e tirar um cochilo conturbado enquanto atravessava o Atlntico. Depois, houvera o trem at 
Dublin e a busca frentica por um carro que pudesse comprar, alugar ou at roubar, a fim de lev-lo pelos ltimos e acidentados quilmetros que separavam Waterford 
do Castelo Donovan.
      Sabia que era importante permanecer no lado certo da estrada. Ou melhor, no lado errado. Porm, perguntou-se por que diabos isso teria importncia, desde que 
aquela trilha esburacada, estreita e torta na qual estava sacudindo-se dificilmente poderia ser considerada uma estrada.
      E o carro, que conseguira adquirir pelo equivalente a mil e duzentos dlares americanos, ningum jamais poderia acusar os irlandeses de maus negociantes, ameaava 
despedaar-se inteiro a cada buraco por que passava. Nash j perdera a pea que fazia se passar por cano de escapamento, e o barulho produzido pelo veculo era alto 
o bastante para acordar os mortos.
      No que o lugar no tivesse muito estilo e graa, com os altos penhascos e os luxuriantes campos verdes. A verdade era que ele estava com medo de que lhe restasse 
apenas o volante do maldito carro, quando finalmente alcanasse a ltima colina.
      Aquelas eram as montanhas Knockmealdown ao oeste.
      Nash sabia disso porque o mesmo astucioso mercador de cavalos que lhe vendera o carro fora suficientemente expansivo para fornecer-lhe instrues sobre o trajeto. 
As montanhas ao oeste, o canal St. George a leste, e voc estar chegando no castelo dos Donovan antes da hora do ch.
      Nash estava comeando a acreditar que acabaria enterrado num charco de turfas, antes do ch.
      _ Se eu sobreviver - resmungou. - Se eu sobreviver e encontr-la, irei mat-la. Bem devagar...- acrescentou com prazer -, para que ela saiba que  a srio. 
      Ento iria carreg-la para algum lugar escuro e tranqilo, onde passariam uma semana fazendo amor. Depois ele iria dormir durante uma semana, acordar e comear 
tudo de novo.
      Isso, lembrou a si mesmo, se sobrevivesse.
      O carro tossia dava solavancos, chacoalhava seus ossos. Nash perguntava-se quantos de seus rgos internos teriam mudado de lugar. Cerrando os dentes, praguejou, 
persuadiu e ameaou, quando o pobre veculo subia uma ladeira ngreme. De repente, boquiaberto de susto, pisou com fora nos freios, conseguindo diminuir a tempo 
a velocidade na descida. Enquanto deslizava colina abaixo, no percebeu o cheiro de borracha queimando, nem viu a fumaa comeando a escapar pelo cap.
      Seus olhos estavam fixos no castelo.
      Nash no havia realmente esperado encontrar um castelo, apesar do nome. Mas aquilo era um castelo de verdade, empinado no alto de um rochedo e afrontando o 
mar arrogante. As pedras cor de cinza reluziam ao sol, com pedaos faiscantes de quartzo e mica. As torres erguiam-se como lanas no cu perolado. Na torre mais 
alta, uma bandeira branca esvoaava ao vento. Num misto de admirao e espanto, Nash viu que representava um pentagrama.
      Piscou os olhos vrias vezes, mas a estrutura permaneceu onde estava, to bela quanto algo tirado de um de seus filmes. Se um cavaleiro montado tivesse irrompido 
atravs da ponte levadia, Nash no teria nem se assustado.
      Comeou a rir, to divertido quanto atnito. Distrado como estava, pisou firme no freio e, quando o volante travou, o carro foi direto para uma vala.
      Gritando todos os palavres que conhecia, Nash saiu do que sobrara do carro. Depois chutou-o com fora, vendo o pra-choque enferrujado soltar-se e cair com 
um barulho seco.
      Estreitou os olhos contra o sol e calculou que estava prestes a acrescentar uma caminhada de uns bons dois quilmetros  sua interminvel viagem. Resignado, 
pegou a valise de lona no banco traseiro e comeou a andar.
      Quando viu a cavalo branco atravessando a ponte a galope, entregou-se  tarefa de decidir se se tratava de uma alucinao ou se era real. Embora a cavaleiro 
no estivesse usando uma armadura, era um homem imponente, esguio e msculo, com uma mecha prateada nas cabelos que esvoaavam. E Nash no ficou surpreso ao reparar 
na guia presa na luva de couro em seu brao esquerdo.
      Matthew avistou a homem que se arrastava pela estrada e balanou a cabea.
       - Uma lstima, Ulysses, uma lstima. Nem lhe serviria como uma refeio decente.
      A guia limitou-se a piscar, concordando.
      Logo  primeira vista, Matthew reparou num homem desgrenhado, barbado e de olhos turvos, com um galo formando-se na testa e um fio de sangue escorrendo pela 
tmpora.
      - Desde que ele havia presenciado o desastre, quando o pobre diabo cara com o carro na vala, sentiu-se na obrigao de ajud-lo. Puxou as rdeas do cavalo 
e olhou para baixo, encarando Nash com altivez.
      - Est perdido, meu rapaz?
      - No. Sei exatamente para onde vou. Para l. - Nash levantou a mo e apontou.
      Matthew arqueou a sobrancelha.
      - Para o Castelo Donovan? Voc no sabe que o lugar est infestado de feiticeiros?
      - , sei, sim.  por isso mesmo que estou indo.
      Matthew ajeitou-se na sela a fim de analisar melhor o sujeito. Podia estar todo desalinhado, mas no era um andarilho. Os olhos podiam estar turvos de cansao, 
mas havia um frreo lampejo de determinao por trs deles. .
      - Desculpe a minha franqueza - Matthew continuou, - mas parece-me que voc no est em condies de enfrentar nenhum feiticeiro, no momento.
      - Apenas uma - Nash falou por entre os dentes. Apenas uma feiticeira, em especial.
      - Humm... Voc sabia que est sangrando?
      - Onde? - Nash levantou a mo desajeitadamente, e olhou com desgosto para os dedos manchados. - E compreensvel. Provavelmente ela amaldioou o carro.
      - E a quem voc estaria se referindo? .
      - Morgana. Morgana Donovan. - Nash limpou os dedos na cala jeans enlameada. - Vim de muito longe para colocar as mos nela.
      - V com calma, meu rapaz - Matthew avisou, conciliatrio. -  da minha filha que voc est falando.
      Cansado, dolorido e j no fim de suas foras, Nash fitou aqueles olhos cinza-azulados. Talvez acabasse transformado num inseto esmagado, mas ele se manteria 
firme em sua posio.
      - Meu nome  Kirkland, senhor Donovan. Estou aqui para ver sua filha. E isso.
      -  isso? - Divertido, Matthew inclinou a cabea. Bem, neste caso, suba aqui e veremos o que acontece. - Soltou a guia, enviando-a para os ares, e ofereceu 
a mo enluvada. - E um prazer conhec-lo, senhor Kirkland.
      - E... - Nash fez uma careta de dor, enquanto montava no cavalo. - Igualmente.
      O trajeto durou menos tempo a cavalo do que demoraria se fosse a p, principalmente porque Matthew disparou num galope. No instante em que atravessaram a ponte 
levadia e entraram num amplo ptio, uma mulher alta e de cabelos escuros apareceu correndo pela porta.
      Cerrando os dentes, Nash saltou da montaria e comeou a andar na direo dela.
      - Voc tem muito que explicar, benzinho. Cortou os cabelos, no ? Por que diabos voc... - Parou subitamente quando a mulher no se moveu, observando-o com 
um brilho de divertimento nos olhos. - Pensei que a senhora fosse... Desculpe-me.
      - Ora, estou lisonjeada - Bryna retrucou. Rindo, voltou-se para o marido. - Matthew, o que foi que voc trouxe para mim?
      - Um jovem que caiu com o carro numa vala e parece estar querendo falar com Morgana.
      Os olhos de Bryna aguaram-se enquanto dava mais um passo na direo de Nash.
      -  verdade? Voc quer falar com minha filha?
      - Eu... Sim, senhora.
      Um sorriso bailou nos lbios dela.
      - E ela o fez infeliz?
      - Sim... No. - Nash exalou um suspiro cansado. - Eu mesmo me fiz infeliz. Por favor, ela est a?
      - Vamos entrar. - Bryna tomou-lhe o brao com delicadeza. - Vou fazer um curativo em sua testa, depois mando cham-la.
      - Se a senhora pudesse apenas... - Nash interrompeu-se ao ver um olho imenso espiando-o pela fresta da porta.
      Douglas deixou cair a lente de aumento e saiu das sombras.
      - Quem diabos  este sujeito?
      - Um amigo de Morgana - Bryna respondeu, empurrando Nash para dentro.
      - Ah... A menina anda muito estranha - Douglas falou, dando uma vigorosa palmada nas costas de Nash. - Vou lhe contar.
      
      Morgana deixou que o vento frio e cortante batesse em seu rosto e penetrasse pela pesada l de seu suter. Era to purificante, to benfico. Mais alguns dias,e 
estaria pronta para voltar e enfrentar novamente a realidade.
      Com um leve suspiro de desnimo, ela sentou-se numa pedra. Ali, sozinha, podia admitir a verdade. Tinha de admitir. Jamais ficaria curada. Nunca mais seria 
uma pessoa completa.  Seguiria em frente e construiria uma vida boa para si mesma e para seu filho, porque era forte, porque era orgulhosa. Mas alguma coisa sempre 
estaria faltando. No entanto, estava farta de chorar, farta da autopiedade.
      A Irlanda fizera isso a ela. Precisara ir para l, caminhar naquela praia e lembrar-se de que nada, no importava o quo doloroso fosse, durava para sempre.
      Exceto o amor.
      Levantou-se e comeou a voltar, vendo as ondas explodirem nas rochas. Iria fazer um ch, talvez ler as cartas de tar de Camilla ou escutar a uma das longas 
e envolventes histrias de Padrick. Depois, iria contar a eles, como j devia ter feito antes, sobre o beb. .
      E sendo sua famlia eles iriam dar-lhe todo o apoio.
      Como lamentava que Nash jamais pudesse experimentar aquele tipo de unio... 
      - Morgana pressentiu a presena dele antes mesmo de v-lo. Mas imaginou que sua mente estaria pregando-lhe uma pea, zombando dela por estar fingindo ser to 
corajosa. Bem devagar, com o pulso martelando em centenas de pontos, ela virou-se.
      Nash vinha andando pela praia, com passos largos e apressados. A maresia deixara seus cabelos molhados e gotinhas de gua reluziam neles. Seu rosto estava 
ensombreado com uma barba de dois dias, e havia um belo curativo em sua testa. E a expresso nos olhos dele fez com que o corao de Morgana saltasse at a garganta.
      Na defensiva, ela deu um passo para trs. Tal gesto o fez parar, imobilizado.
      Ela parecia... O jeito que olhava para ele. Ah, seus olhos estavam secos. No havia lgrimas para dilacerar sua coragem. Mas havia um vestgio delas. Como 
se... como se Morgana estivesse com medo dele. Quo mais fcil seria se ela tivesse pulado para atac-lo, arranhando-o e amaldioando-o.
      - Morgana...
      Num gesto inconsciente, ela pressionou a mo sobre o segredo que trazia no ventre.
      - O que aconteceu com voc? Est machucado?
      - ... - Nash tocou o curativo. - No foi nada. Meu carro quebrou, tive um pequeno acidente. Mas sua me fez este curativo.
      - Minha me? - Os olhos dela estenderam-se por cima do ombro dele, na direo das torres do castelo. - Voc conheceu minha me?
      - E todos os outros. - Ele conseguiu esboar um rpido sorriso. - Eles so... muito interessantes. Na verdade, o carro caiu numa vala a dois quilmetros do 
castelo. Literalmente. Foi assim que conheci seu pai. - Mesmo sabendo que estava tagarelando, no conseguia parar. - Quando dei por mim, estavam me levando para 
a cozinha, servindo-me ch e... Diabos, Morgana, eu no sabia onde voc estava. Mas deveria saber. Voc me disse que gostava de vir para Irlanda e caminhar na praia. 
Eu devia ter pensado nisso. Devia ter pensado numa poro de coisas.
      Ela apoiou-se numa pedra para manter o equilbrio. Sentia um medo absurdo de estar prestes a passar por uma nova experincia e desmaiar aos ps dele.
      - Voc fez uma longa viagem - disse, num tom embotado.
      - Teria chegado antes, mas... Ei! - Nash deu um pulo para frente, ao v-la vacilar. E a primeira coisa que sentiu foi um choque, por ela estar to assustadoramente 
frgil em seus braos.
      Porm, os braos dela foram fortes o bastante, quando o afastou.
      - No.
      Ignorando-a, Nash puxou-a para si e mergulhou o rosto em seus cabelos. Aspirou seu perfume como se fosse o ar.
      - Meu Deus, Morgana, d-me s um minuto. Deixe-me abra-la.
      Ela balanou a cabea, mas seus braos, seus braos traioeiros, j estendiam-se para enla-lo. Seu gemido no foi de protesto, mas de necessidade, quando 
os lbios de Nash buscaram e tomaram os seus. Ele mergulhou nela como um homem sedento mergulha num lago lmpido e fresco.
      - No diga nada - Nash murmurou, enquanto espalhava beijos em seu rosto. - No diga nada enquanto no ouvir tudo o que tenho para lhe dizer.
      Lembrando-se do que ele j lhe dissera antes, Morgana tentou desvencilhar-se.
      - No posso passar por tudo isso novamente, Nash. E no vou.
      - No. - Ele segurou-a pelos pulsos, os olhos ardentes. - Nada de paredes desta vez, Morgana. Para nenhum de ns.
      Ela abriu a boca para protestar, mas havia algo nos olhos dele contra o que era incapaz de lutar.
      - Como quiser - disse. - Mas preciso me sentar.
      - Tudo bem.
      Nash deixou-a ir, pensando que seria melhor no toc-la enquanto lutava para abrir seu caminho naquele pntano que ele prprio criara. Quando Morgana sentou-se 
em uma pedra, cruzou as mos no colo e levantou a cabea, ele lembrou-se de que havia considerado seriamente a idia de mat-la.
      - No importa o quanto as coisas estivessem ruins, voc no deveria ter fugido.
      Os olhos dela arregalaram-se, brilhando.
      -Eu?
      - Sim, voc - Nash disparou. - Talvez eu tenha agido como um idiota, mas isso no era motivo para voc me fazer sofrer como fez, no estando presente quando 
finalmente recuperei a razo.
      -Ento, a culpa  minha.
      - Por eu quase ter enlouquecido neste ltimo ms? Sim, a culpa  sua. - Nash deixou escapar o ar por entre os dentes.
      - E tudo o mais, todo o restante,  minha culpa. - Arriscando-se, roou a mo nas faces dela. - Desculpe-me, Morgana.
      Ela teve de desviar os olhos, seno comearia a chorar.
      - No posso aceitar suas desculpas enquanto no souber por que est pedindo.
      - Eu sabia que voc me faria rastejar - Nash falou, com desgosto. - Tudo bem; ento. Desculpe-me por todas as coisas estpidas que falei.
      Os lbios dela curvaram-se levemente.
      - Todas elas?
      Perdendo a pacincia, Nash a fez levantar-se.
      - Olhe para mim, Morgana, quero que olhe para mim quando digo que a amo. Que eu sei que no tem nada a ver com encantos ou feitiarias, que nunca foi nada 
disso.Que tem a ver somente com voc e eu.
      Quando ela fechou os olhos, Nash sentiu o pnico percorrer-lhe a espinha.
      - No me ignore, Morgana. Sei que foi isso que fiz com voc, e sei que foi uma estupidez. Eu estava com medo. Diabos, estava aterrorizado! Por favor. - Segurou-lhe 
o rosto entre as mos. - Abra os olhos, olhe para mim. - Quando ela fez o que ele pedia, Nash estremeceu de alvio. Podia ver que no era tarde demais. - Isso tudo 
 novidade para mim disse, cauteloso. - E a primeira vez que tenho de lhe pedir perdo pelas coisas que falei. Poderia lhe dizer que no falei essas coisas de corao, 
que apenas usei-as para afast-la de mim, mas este no  o ponto. Eu disse, e acabou.
      - Eu entendo como  estar com medo. - Morgana tocou-lhe a mo. - Se  perdo que voc est querendo, eu o perdo. No vejo porque no perdo-lo.
      - S isso? - Nash pressionou os lbios nas faces dela, em sua testa. - No quer me transformar num peixe, talvez, por trs ou quatro anos? .
      - No pela primeira ofensa. - Morgana recuou, rezando para que pudessem encontrar uma base amigvel em que se apoiar por algum tempo. - Voc fez uma longa 
viagem e deve estar cansado. Por que no voltamos para casa? O vento est ficando frio, e est quase na hora do ch.
      - Morgana. - Nash a imobilizou. - Eu disse que amo voc. Nunca disse isso a ningum, em toda minha vida. A ningum, antes de voc. Foi difcil, na primeira 
vez, mas acho que ficar mais fcil com o tempo.
      Ela desviou os olhos novamente. Sua me teria reconhecido o gesto como evaso, mas Nash considerou como repdio.
      - Voc falou que me amava. - A voz dele ficou mais tensa, bem como a maneira como a segurava.
      - Sim, eu falei. - Ela encontrou os olhos dele outra vez. - E amo.
      Nash tornou a abra-la, encostando o rosto contra o seu.
      - Isso  bom - disse, num tom admirado. - Eu no sabia o quanto  bom amar algum, ter algum que me ama. Podemos comear a partir de agora, Morgana. Sei que 
no sou nenhum grande prmio, e provavelmente ainda vou cometer muitos erros. No estou acostumado a ter algum do meu lado, ou a estar ao lado de algum. Mas farei 
o possvel para acertar. Prometo.
      Ela enrijeceu:
      - O que voc est dizendo?
      Nash afastou-se, todo nervoso outra vez, e enfiou as mos nos bolsos. .
      - Estou pedindo para voc casar comigo. Ou algo assim.
      - Algo assim?
      Ele praguejou baixinho.
      - Escute, quero que voc case comigo. Reconheo que no foi um pedido muito bem-feito. Se prefere esperar que eu arme todo o cenrio, me ajoelhando e entregando-lhe 
um anel, tudo bem. Mas  que... eu a amo tanto, e no sabia que era capaz de me sentir deste jeito, de ser deste jeito. Quero ter uma chance de lhe provar.
      - No preciso de um cenrio, Nash. E bem que gostaria que tudo fosse to simples.
      Ele cerrou os punhos.
      - Voc no quer casar comigo.
      - Quero construir uma vida com voc. Ah, sim, quero muito. Mas voc no estaria se unindo apenas a mim.
      Por um instante, ele ficou atnito. Depois, sua expresso iluminou-se com um sorriso.
      - Voc est se referindo  sua famlia e ao... bem, ao legado dos Donovan. Meu bem, voc  tudo o que eu quero, e muito mais. O fato de a mulher que amo ser 
uma feiticeira apenas acrescenta um fascnio a mais em toda a situao.
      Emocionada, Morgana levou a mo ao rosto dele.
      - Nash, voc  perfeito. Absolutamente perfeito para mim. Mas eu j no estou mais sozinha. - Fitou-o profundamente. - Estou esperando um filho seu.
      Ele ficou imediatamente plido.
      - O qu?
      Mas Morgana nem precisou repetir. Ficou observando enquanto ele vacilava, dando um passo para trs e caindo sentado na mesma pedra onde ela estivera.
      Nash respirou vrias vezes, antes de conseguir falar. - Um filho? Voc est grvida? Vai ter um beb?
      Aparentando calma, ela assentiu.
      - Sim, creio que isto resume tudo. - Esperou um instante, para que ele falasse. Mas vendo que ele continuava em silncio, obrigou-se a acrescentar: - Voc 
foi muito claro, quando disse que no queria uma famlia. Portanto, compreendo que isto muda tudo e...
      - Voc sabia. - Nash engoliu em seco, tentando elevar a voz acima do barulho do vento e do mar. - Naquele dia, naquele ltimo dia, voc j subiu, Voc foi 
me contar.
      - Sim, eu sabia. E fui lhe contar. 
       Sentindo as pernas bambas, Nash levantou-se e caminhou at a beirada da gua. Lembrou-se da expresso dela, das coisas que ele havia dito. E se lembraria 
disso por muito tempo. Seria de admirar que ela tivesse fugido daquela forma, mantendo o segredo consigo?
      - Voc pensou que eu no iria querer o beb?
      Morgana umedeceu os lbios.
      - Eu entendo que voc teria dvidas. Isso no foi planejado por nenhum de ns. - Calou-se consternada. - Eu no planejei.
      Com determinao nos olhos, Nash virou-se rapidamente para ela.
      - No costumo cometer o mesmo erro duas vezes, Morgana. E, certamente, no com voc. Quando?
      Ela cruzou as mos sobre a barriga.
      - Antes do Natal. A criana foi concebida naquela primeira noite, no equincio de primavera.
      - No Natal - ele repetiu.
      E pensou numa bicicleta vermelha, no aroma de biscoitos assando, nos risos e numa famlia que quase fora sua. Uma famlia que poderia ser sua. Morgana estava 
lhe oferecendo algo que ele nunca tivera, algo que desejara apenas em segredo.
      - Voc disse que eu era livre - Nash falou, com todo cuidado. - Livre de voc e de tudo o que tnhamos construdo juntos. Estava se referindo ao beb.
      Os olhos dela aqueceram-se e sua voz era forte, linda.
      - Esta criana  amada,  desejada. Esta criana no  um erro, mas uma ddiva. Eu preferia t-la sozinha a, nem que fosse por um minuto de sua vida, ela no 
se sentisse amada.
      Nash no tinha certeza se conseguiria falar, mas quando o fez, as palavras vieram direto do corao.
      - Eu quero este filho, quero voc e tudo o que construmos juntos.
      Morgana olhou-o atravs das lgrimas.
      - Ento, voc s precisa pedir.
      Ele encaminhou-se para ela, pousando a mo sobre seu ventre.
      - D-me uma chance - foi tudo o que disse.
      Morgana sorriu, erguendo o rosto para receber o beijo.
      - H muito tempo estamos esperando por voc.
      - Vou ser um bom pai. - Tais palavras foram pronunciadas devagar, com cuidado. Depois, ele a pegou no colo e fez um giro. - Ns vamos ter um beb!
      Morgana agarrou-o pelo pescoo e riu.
      - Vamos, sim.
      - Ns somos uma famlia!
      - Sim, ns somos.
      Nash beijou-a longamente, antes de comear a andar.
      - Se fizermos um bom trabalho com o primeiro, poderemos ter outros, no acha?
      - No tenho a menor dvida. Para onde estamos indo?
      - Vou lev-la para casa e coloc-la na cama. Comigo.
      - Parece uma idia maravilhosa, mas no precisa me carregar no colo.
      - Mas vou lev-la. Voc est esperando um filho, um filho meu! J posso ver tudo. Um quarto ensolarado, com paredes pintadas de azul-claro.
      - De amarelo.
      - Tudo bem, paredes pintadas de amarelo-vivo. Sob a janela h um bero antigo, com um daqueles mbiles engraados pendurado. Ouve-se o som de balbucios e uma 
mozinha minscula e rosada ergue-se para tentar segurar um dos aros... - Nash calou-se e, subitamente, olhou para ela. - Ah, meu Deus...
      - O que? O que foi?
      - Acabei de pensar numa coisa. Quais so as chances?
      Isto , quais so as probabilidades do nosso filho, voc sabe, herdar os seus talentos?
      Sorrindo, ela enrolou uma mecha dos cabelos dele entre os dedos.
      - Quer dizer, quais so as chances de o nosso beb ser um feiticeiro, ou uma feiticeira, tambm? Muito grandes. Os genes dos Donovan so fortssimos. - Rindo, 
ela beijou-o no rosto. - Mas aposto que ela ter os seus olhos.
      - E... - Nash deu mais um passo  frente e apanhou-se sorrindo. - Aposto que ela ter. .
      
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Cativado        Famlia Donavan 01        Destino 101


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